Publicado por: lucadisena | Dezembro 13, 2011

Bolaño volta à carga com “Putas Assassinas”

Bolaño volta à carga com “Putas Assassinas”

Javier Aspurúa

Um poeta herbívoro e suicida, um narcotraficante ilustrado, um ex-futebolista africano e outro chileno e uns quantos fantasmas protagonizam os contos que o autor de Os Detetives Selvagens lança agora.

“Não esperem nada pornográfico”, avisa de cara Roberto Bolaño, para evitar ansiedades enganosas a respeito do título de seu novo livro, Putas Assassinas. Editado pela Anagrama, o volume – que dará entrada por esses dias nas livrarias espanholas, e chegará no fim do mês às chilenas – consta de treze contos e marca o retorno de Bolaño ao conto, gênero em que tinha entregue – em 1997 – um espécime magnífico, Llamadas Telefónicas.

Enquanto isso, como se sabe, entregou diversos livros de poemas e romances – entre elas, a mais do que premiada Os Detetives Selvagens –, e agora está embarcando numa narrativa monumental que poderia vir a superar as mil páginas. A expressão “putas assassinas”, esclarece o escritor chileno radicado na Espanha, corresponde a um comentário feito em algum trecho do conto que dá nome ao livro (um conto “feminista e violento”, segundo Bolaño), e pronto.

Nos outros contos circulam personagens tão díspares quanto um ex-futebolista africano e outro chileno que foram companheiros no Barcelona, o poeta Enrique Lihn, um fotógrafo homossexual – el Ojo Silva – cara a cara com a prostituição infantil na Índia, um narcotraficante colombiano extremamente ilustrado, um poeta herbívoro que se suicida após a morte de sua mãe, outro suicida, alguns fantasmas e, como não podia faltar, Arturo Belano, o alter ego de Bolaño, que já apareceu em vários livros do autor.

Putas e assassinas. No geral, o sexo é uma entrada ou uma saída?

Tenho a impressão de que é uma entrada; pelo menos depois dos 25 anos é uma entrada. O ruim é que é uma entrada a zonas onde se põem em funcionamento outros fatores, outras emoções, quase todas negativas, como a posse ou os ciúmes ou a uniformização. As pessoas, ao falar de sexo, ficam idiotas. Talvez sempre tenha sido, mas o sexo, o monólogo sexual ou o diálogo sexual, para não falar da relação sexual, as torna ainda mais idiotas e se limita a balbuciar uma série de ideias pré-concebidas, ideias cujo fundo difere em nada do antigo Deus, Rei e Pátria, que, como todos suspeitam (mas não falam), significa Medo, Amo e Jaula.

Que perrengue específico uma puta deve padecer para virar uma assassina?

Não sei, mas sinto muito respeito pelas putas. Trabalhadoras esforçadas como ninguém, e também, com algumas exceções, um grande respeito pelas assassinas.

Como em quase todos os seus livros, em “Putas Asesinas” aparecem muitos personagens chilenos nos lugares mais inverossímeis do mundo. Quando você os encontra em carne e osso, você acha uma coisa terrível, se entusiasma ou fica indiferente?

Os chilenos, como os chineses ou como os norte-americanos ou como os espanhóis, me são totalmente indiferentes, quando não profundamente desagradáveis, como, por exemplo, os funcionários de embaixadas ou essas histéricas que fingem, com uma vontade digna de causa melhor, ser adidos culturais.

O protagonista de um dos seus contos é descrito como “estoico e amável”, um “exemplar de chileno que nunca foi muito abundante no Chile”. Por causa dessa escassez foi que você deixou de vir ao Chile?

Claro que não. Na verdade, minha saúde não me permite fazer viagens longas demais. E quando não é a minha saúde é o meu trabalho. E quando não é o meu trabalho é a minha religião.

Mas pelo menos deve ter lido algo do que se publicou aqui ultimamente.

Minha religião não me permite.

O que você achou da polêmica sobre o lesbianismo de Gabriela Mistral?

Confirma mais uma vez o que todo mundo sabe ou deveria saber: que a esquerda e a direita têm a mesma política em matéria de sexo, assim como têm a mesma política em matéria de cultura, e de economia e de educação e em muitas outras coisas. E também me faz me perguntar em que sessão espírita do Kremlin o fantasma de Gabriela Mistral apareceu a Volodia Teitelboim para designá-lo testamenteiro de suas preferências eróticas.

E você acha que o tempo da Gabriela Mistral está passando?

Eu acho que Gabriela Mistral era uma extraterrestre e, portanto, não tinha nem as nossas necessidades nem os nossos desejos (e acrescentaria que também não tem o talento literário que lhe atribuem com uma facilidade espantosa). Era uma mera extraterrestre extraviada no Chile, na América Latina, que não conseguia se comunicar com a nave mãe para que viessem resgatá-la. E, lógico, sua vida se assemelhou a um pesadelo em algum momento. Suas peregrinações (como costumam dizer os vulgares estudiosos da sua obra) não passam de tentativas de encontrar outros náufragos do seu planeta.

Em Putas Assassinas, em alguns contos aparecem personagens suicidas. Considera atrativo o mistério que todo suicida deixa? Ou o suicídio é um ato de impaciência puro e simples.

É verdade que todo suicida deixa um ou dois mistérios atrás de si, mas também é verdade que deixa, inevitavelmente, quatro ou cinco respostas, o que costumamos temer nos suicidas não é o mistério, quero dizer, as perguntas que essas mortes propõem, senão as respostas que essas mortes põem diante de nós e para as quais, automaticamente, fechamos os olhos. Sobre se o suicídio é um ato de impaciência, não sei, acho que não. Em primeiro lugar (e o bom do suicídio é que não há um segundo lugar), é um ato de liberdade.

No seu livro há um conto sobre futebol. Você teve alguma experiência como jogador?

Minha experiência como jogador de futebol nunca foi totalmente compreendida nem pelos espectadores nem pelos meus companheiros de time. Eu sempre achei mais interessante marcar um gol contra do que um gol. Um gol, a não ser que o sujeito se chame Pelé ou Didi ou Garrincha, é algo eminentemente vulgar e de muito má-educação com o goleiro adversário, que você não conhece e que não te fez nada, enquanto um gol contra é um gesto de independência. Você deixa claro para os seus companheiros e para o público que o seu jogo é outro.

O futebol é uma entrada ou uma saída?

É um circo.

* * *

Em Las Últimas Noticias, terça-feira, 4 de setembro de 2001.

http://www.letras.s5.com/bolano1210.htm

Tradução de Hugo Crema


Publicado por: lucadisena | Novembro 4, 2011

Bolaño à volta da esquina.

Bolaño à volta da esquina.

Por Rodrigo Pinto.

O escritor chileno mais reconhecido pela crítica e pelos leitores exigentes fala de seu novo romance, onde finca os dentes, bem fundo, na história e na literatura nacionais do último meio século. Claro que fala também de outras coisas.

Noturno do Chile, o último romance de Roberto Bolaño – que já tem uma dezena de livros publicados – é um extenso monólogo de Sebastián Urrutia Lacroix, sacerdote da Opus Dei e importante crítico literário chileno, que se inicia no começo dos anos 1950, quando era recém-saído do seminário, e termina no ano 2000.

No começo da história, Urrutia Lacroix está doente, com febre, e rememora sua vida, os marcos mais importantes da sua vida, que também são os marcos mais importantes da história de seu país. Pelo monólogo desfilam personagens tiradas tanto da história quanto da imaginação do autor, embora o maior peso recaia sobre o próprio Urrutia Lacroix – que usa o pseudônimo de H. Ibacache, o padre Ibacache, para escrever suas críticas literárias – e Farewell, outra vaca sagrada da crítica nacional. As 150 páginas do romance, embora se tratem apenas de dois parágrafos (o primeiro abrange a totalidade do livro menos uma linha; o segundo é, justamente, essa linha), se leem com extraordinária facilidade.

O título que você pensou originalmente para Noturno do Chile foi “Tempestade de Merda”. Por que mudou?

Basicamente porque meu editor, Jorge Herralde, não gostava, e depois de falar com ele repetidas vezes e dizer o nome do livro repetidas vezes, eu comecei a sentir nojo; tanta “Tempestade de Merda” pode inclusive acabar com a paciência do próprio autor. Juan Villoro também desaconselhou o título original. E não me arrependo. Noturno do Chile expressa com maior fidelidade o que é o romance.

O protagonista de Noturno do Chile, o padre e crítico literário Sebastián Urrutia Lacroix, fala da “falta de ambição e infinito desespero de meus compatriotas”. Um defeito e uma virtude, respectivamente, dos chilenos?

Urrutia Lacroix é bastante lúcido. Nem sempre, mas em ocasiões sim, embora sua lucidez não seja muito diferente da de Farewell, quero dizer, a lucidez de um fazendeiro ilustrado. Geralmente a falta de ambição vem acompanhada de medo ou malevolência. Prefiro acreditar que a falta de ambição do Chile vem acompanhada de desespero infinito. A falta de ambição do Chile ou do México ou da Rússia. A realidade, no entanto, nos indica uma e outra vez que a falta de ambição vem acompanhada de malevolência, no melhor dos casos de uma espécie de letargia que pode nos levar, uma vez mais, a uma certa esperança. Podemos recordar o conto “A Bela Adormecida” e chegar a todo tipo de conclusões. Ou a história da lâmpada mágica, que durante séculos permanece oculta, quero dizer, dormindo.

Os três reconhecidos como grandes da crítica literária chilena são – foram – celibatários, dois padres e um solteirão: Omer Emeth, Alone e Ignacio Valente. Para além do tratamento do exercício crítico que você faz no seu romance, qual é a sua opinião sobre esse fato?

Bom, eu não me atreveria a vê-lo como celibatários, é difícil ser celibatário. Em qualquer caso: ser não é nenhuma maldição. É um transe permanente e que envolve alguma dificuldade. Lewis Carroll era celibatário. As letras inglesas do século XIX estão cheias de escritores para os quais o sexo parecia algo sem interesse. Aí tem algo que tem a ver com a educação, porque os elisabetanos, por exemplo, são pessoas bastante interessadas em sexo. E quase nenhum elisabetano foi ao colégio, como bem se sabe. A única resposta séria que eu posso pensar é que a poesia e a narrativa sempre tiveram os críticos que mereceram.

Em Os Detetives Selvagens, você oferece, entre outras coisas, um olhar global sobre a literatura latino-americana. Vê alguma equivalência entre esse aspecto daquele romance e sua perspectiva sobre a narrativa chilena em Noturno do Chile?

Noturno do Chile tem a mesma estrutura de Amuleto e de outro romance que eu possivelmente já não vá escrever e cujo título seria “Corrida”. São romances musicais, de câmara, e também são peças teatrais, de uma só voz, instável e mimada, entregue a seu destino, em diálogo com seu destino, e talvez, embora nisso último eu provavelmente tenha falhado, em diálogo com a tridimensionalidade que é parte do nosso destino. Essa trilogia virou um dueto.

É fácil interpretar Noturno do Chile como uma romance cifrado, sobretudo tendo em vista o título original que você pensou; mas obviamente se trata de algo mais. Você poderia dizer qual é o núcleo do romance?

Há uma estrutura, como eu dizia antes, que é basicamente musical. E também, é claro, está a tentativa de escrever um romance-rio de 150 páginas, tal como queria Giorgio Manganelli, um dos grandes escritores do século XX, que muitos poucos leram. Noturno do Chile é a tentativa de escrever a vida de uma pessoa em seis, sete ou oito quadros. Cada quadro é arbitrário e ao mesmo tempo, paradoxalmente, é exemplar, se presta à extração de um discurso moral. Cada quadro pode ser lido de forma independente. Todos os quadros estão unidos por galhinhos ou pequenos tubos, que em ocasiões são muito mais velozes, e necessariamente muito mais independentes, do que os quadros em si. Mas temo que explicar a estrutura e o travejamento interno de uma romance não faça muito sentido. Todo romance, basicamente, tem de ir direto ao prazer, o prazer da leitura. E a partir daí aonde possa ou queira.

Roberto Matta saiu faz mais de sessenta anos do Chile, nunca voltou e é considerado uma das glórias da pátria. Em compensação, consideram que você, que está fora há menos tempo e que voltou várias vezes nos últimos anos, não é chileno. Apreciação correta, ingratidão humana ou puxa-saquismo puro e simples?

Matta é um clássico, em uma acepção errada da palavra, porque clássico, o que se considera clássico, é Rembrandt, não?, e mesmo aí haveria reparos a fazer. Mas admitamos, para entendermos que Matta é um clássico, um surrealista que está na superfície quando hoje o surrealismo vive no subsolo e provavelmente não se chama mais surrealismo; talvez Matta seja o último surrealista sub sole e suas obras, como se sabe, se cotam aos olhos da cara nos mercados de arte de Nova York, Paris e Milão. Tudo isso, essa virtude cuja tradução mais justa seria a do ouro, pesa muito na hora das apropriações nacionais. Em todo caso o assunto é absolutamente irrelevante. Não acho que Matta aprecie muito seus defensores pátrios.

Numa entrevista recente, você opinou que não é o objeto da escrita que define a chilenidade. O que é, então?

Não me lembro dessa entrevista. Provavelmente, como sempre, disse muitas bobagens. Não me preocupo com a definição de chilenidade. Também não me interessa a definição – a fixação de fronteiras, quando a natureza das fronteiras é naturalmente difusa – da americanidade, nem da espanholidade, nem da ocidentalidade. Acredito que já temos o suficiente com o mistério do ser humano e suas construções mentais, para não mencionar suas construções reais, tangíveis, que em ocasiões se assemelham à loucura pura e em ocasiões, mais raras, a algo que poderia parecer com a felicidade, a resignação, o vazio.

Vários críticos e escritores opinam que César Aira, Rodrigo Rey Rosa, Juan Villoro e você (e mais um ou outro escritor, dependendo do ponto de vista) são os escritores latino-americanos mais relevantes de sua geração. Você está de acordo?

No que diz respeito a Villoro, Aira e Rey Rosa, completamente de acordo. Eu me excluiria imediatamente. E acrescentaria Rodrigo Fresán, em cuja obra começa a se refletir o grande escritor que é e, sobretudo, que será, e Horacio Castellanos Moya e Carmen Boullosa.

Tirando os recém-mencionados, quais são os escritores de que você mais gosta na sua geração?

Gosto de Padilla e Volpi, do crack mexicano. Do também mexicano Mauricio Montiel. Dos espanhóis José Carlos Somoza, Javier Cercas, Pablo D’Ors. Piglia e Alan Pauls, argentinos. Gosto do peruano Bayly. Do colombiano Santiago Gamboa. Do salvadorenho Castellanos Moya (que eu já mencionei), recentemente publicado na Espanha, e que é o único dos escritores da minha geração que sabe narrar o horror, o Vietnam secreto que a América Latina foi durante muito tempo. Fresán e Boullosa já mencionei. Com certeza estou esquecendo agora de alguém muito bom, e isso que só fiquei no âmbito da narrativa em língua espanhola. Obviamente, faltam Javier Marías e Vila-Matas, herdeiros primogênitos do boom.

Você disse alguma vez que se definia como poeta em primeiro lugar e como romancista em segundo plano. Continua pensando assim? Porque está claro que a narrativa demanda mais tempo de você.

Num país como o Chile, onde nem os especialistas em poesia sabem o que é um dímetro coriâmbico, é perigoso se definir como poeta. Digo que à maioria dos, assim chamados, poetas chilenos é suficiente executar (mal) e entender (pior) o blank verse elisabetano. Acrescento que no Chile se dança a dança do pentâmetro iâmbico não rimado, mas todo mundo (acadêmico) ignora as virtudes do hendecassílabo solto, que vem a ser a mesma coisa que o blank verse. Se somos todos filhos de tigre, por que nos comportamos como gatos?, se perguntava Nicanor Parra. A cada dia tenho suspeitas mais fundadas de que não somos, afinal, filhos de tigre, senão de gatos. E assim nos comportamos como filhotes, e por aí vai.

Um escritor sul-americano, Hernán Rivera Letelier, disse que acha suas obras repetitivas, pouco originais e chatas, que sempre falam das mesmas coisas. O que você acha desse parecer crítico.

Hernán Rivera Letelier está vivendo seu sonho, que ninguém, por outra parte, presenteou, e meu único desejo é que o viva até o final, e que aproveite como um valente. Por outro lado, duvido muito de que Rivera Letelier tenha lido dois livros meus. Na verdade, duvido muito de que tenha lido qualquer livro meu.

Você parece manter uma relação de amor e ódio com o conjunto da literatura chilena. Você se sente parte de uma tradição ou veio fundar uma nova com base nos mesmos materiais?

Eu só espero ser considerado um escritor sul-americano mais ou menos decente que morou em Blanes (perto de Barcelona) e que amou essa cidadezinha. O conjunto da literatura chilena é lamentável. Mas isso não sou eu dizendo, é qualquer um que já leu mais de cem livros na vida. O conjunto da atual literatura francesa, salvo exceções notáveis, também é lamentável, os próprios franceses dizem isso e ninguém, absolutamente ninguém, se mata por isso.

Desculpa te fazer uma pergunta muito repetida: quem você resgataria de verdade da atual narrativa chilena? Sabemos que recomendou Pedro Lemebel ao Jorge Herralde, seu editor espanhol. Existe para você mais alguém que valha a pena?

Não só uma pessoa, mas várias. Acho o Roberto Brodsky um escritor magnífico, e também Gonzalo Contreras. Eu diria que Contreras e Brodsky são os melhores, o primeiro é bem conhecido, e é bom que seja assim, enquanto Brodsky opera num nível mais secreto, construindo uma obra em duas direções aparentemente díspares, por um lado difícil, onde se pode rastrear o peso de Onetti, e por outro lado leve. O melhor conto policial que eu já li, escrito por um autor chileno, é do Brodsky.

Além da sua crítica pela exclusão do Rodrigo Lira, o que você achou da antologia de poesia chilena que o Marcelo Rioseco organizou há pouco?

Ruim. Mas esse é o adjetivo que quase todas as antologias merecem. É muito difícil fazer uma antologia. E quando se trata de poesia, as dificuldades são ainda maiores.

* * *

Em Las últimas Noticias, Domingo, 28 de janeiro de 2001

http://www.letras.s5.com/bolao1.htm

Tradução de Hugo Crema.

Publicado por: estrelaselvagem | Julho 15, 2011

Em literatura é quase impossível manter-se a salvo

Em literatura é quase impossível manter-se a salvo

Por Sebastián Noejovich
Revista Lea. Buenos Aires, Argentina. Nº13 – maio de 2001, pág. 44.

O escritor chileno Roberto Bolaño (1953) é hoje uma das figuras mais atrativas das letras latinoamericanas. Em Noturno do Chile, aborda a extraordinária vida de um padre da Opus Dei que se torna crítico literário. A partir disto, propõe uma aproximação paródica com o passado recente de seu país. No povoado catalão de Blanes, onde atualmente reside, ele conversou com Lea sobre seu novo romance.

Suas ficções em geral desenvolvem como espaço narrativo o mundo literário de algumas de nossas cidades latinoamericanas. O que você encontra nesses ambientes que tanto te entusiasma?

O que gosto é de observar a relação que se estabelece entre os homens e seus trabalhos, o que aparentemente carece de mistérios, mas que resulta determinante na hora de se achar um destino, entre outras coisas porque quase sempre a pessoa se equivoca ao eleger um trabalho ou reconhecer uma vocação. Neste sentido, às vezes escolho a literatura como fundo laboral de alguns de meus personagens por uma razão muito simples: porque a conheço. Mas se eu fosse um açougueiro, por exemplo, a decoração de fundo seria a dos açougues, os matadouros, os caminhões frigoríficos. Talvez eu devesse fazê-lo. Não cairia mal um romance de matadores, estripadores, escaupeladores.

O tom sempre paródico com o qual você cerca esses âmbitos literários não será uma forma de suplício, uma maneira de manter-se a salvo dessa grandiloquência e gravidade que é tão característica de alguns “homens das letras”?

Creio que, no fundo, a paródia somente disfarça o desejo enorme de se pôr a chorar. E sobre manter-se a salvo do que seja, não sei o que te dizer, na literatura é quase impossível manter-se a salvo. Tudo é mancha. Suponho que há romancistas que acham o contrário. Deus lhes conserve sua candura (ou sua estupidez) por muito tempo.

Camuflados por esta intenção paródica costumam aparecer, como de contrabando, dados ou anedotas surpreendentemente reais relacionadas com este âmbito: no caso de Noturno do Chile, os saraus literários que se realizavam em uma casa na periferia de Santiago que servia, paralelamente e de forma sub-reptícia, como centro clandestino de interrogatórios durante a ditadura de Pinochet. De onde vem essa predileção sua pelos elementos quase bizarros da história?

Porque isto também é história. O encontro casual de uma chuva de datas e um desfile monstruoso de feitos monstruosos. A história como registro psiquiátrico. Ou como quebra-cabeças, teria dito Perec. Em qualquer caso, como um enigma no que há que se internar e onde há que se tentar manter a lucidez, que neste caso quer dizer que há que se tentar ser valente, algo que resulta tão incômodo, tão inútil nestes tempos e onde o mais normal é ser razoavelmente covarde e fugir como uma alma que o diabo leva de qualquer vislumbre de pesadelo que perturba o grande pesadelo plácido no qual estamos todos bem ou mal instalados.

Deu muito trabalho construir em Noturno do Chile a voz de seu único e estranho narrador, o cura da Opus Dei, Urrutia Lacroix, que além de ter veleidades de poeta decidiu converter-se em crítico literário? Você teve, nesse sentido, algum modelo?

Não, nenhum problema. O Chile é generoso nesta classe de personagens, algo que talvez na Argentina ou no México pareça excepcional, ou estranho ou caricaturesco, porque há algo ali que se pode chamar “tradição literária”, coisa que no Chile não ocorre. Os modelos da canalha literária abundam no meu país. Não quero dizer com isto que tenhamos exclusivamente a canalha literária, o do ridículo mais espantoso e patético, mas digamos que somos autossuficientes no consumo interno e que inclusive poderíamos começar a exportar algo.

A que escritores de sua geração você se sente hoje em dia mais afinado?

A muitos, ainda que não saiba com certeza qual é minha geração. Costumo ver Rodrigo Fresán quando vou a Barcelona, com quem posso conversar de Melville, ou Philip K. Dick. Gosto da afeição que Fresán tem pelos paradoxos e pelos encontros azarados e pelas resoluções imaginárias. Também mentenho compridas conversas telefônicas com Javier Cercas sobre Borges e o Quixote, e costumamos rir juntos e discutir sobre os assuntos mais peregrinos. Sinto um grande carinho por Rodrigo Rey Rosa, o escrito guatemalteco, que sempre está viajando e, suponho, expondo-se constantemente a perigos. Gosto de pensar que Rey Rosa é irredutível. Ainda que, claro, ninguém é irredutível totalemente. Creio que na minha geração há alguns escritores muito bons. Entre a Espanha e a América Latina uns 12 ou 13.

* * *

Título: Noturno do Chile
Autor: Roberto Bolaño
Editorial: Anagrama. 150 págs.
Sebastián Urrutia Lacroix é um padre da Opus Dei que um belo dia decide se tornar crítico literário. Tendo como padrinho Farewell, se mistura então ao ambiente intelectual de Santiago e vive distintas aventuras, que evoca a partir de sua aparente agonia.

http://www.letras.s5.com/rb260505.htm

Publicado por: estrelaselvagem | Junho 21, 2010

Primeiro Manifesto Infrarrealista

LARGUEM TUDO, NOVAMENTE

Primeiro Manifesto Infrarrealista

Desde os confins do sistema solar há quatro horas-luz; desde a estrela mais próxima, quatro anos-luz. Um desmedido oceano de vazio. Mas estamos realmente certos de que há somente um vazio? Unicamente sabemos que neste espaço não há estrelas luminosas; e se existissem, seriam visíveis? E se existissem corpos não-luminosos ou escuros? Não poderia acontecer nos mapas celestes, igualmente aos da terra, que estejam destacadas as estrelas-cidades e omitidas as estrelas-povoados?

- Escritores soviéticos de ficção científica arranhando-se na cara à meia-noite.

- Os infrassóis (Drummond diria os alegres garotos proletários).

- Peguero e Boria solitários num quarto lumpen pressentindo a maravilha atrás da porta.

- Free Money

*

Quem atravessou a cidade e por única música teve os assovios de seus semelhantes, suas próprias palavras de assombro ou a raiva?

O tipo belo que não sabia

que o orgasmo das garotas é clitoral

(Busquem, não é somente nos museus que há merda) (Um processo de museificação individual) (Certeza de que tudo está nomeado, revelado) (Medo da descoberta) (Medo dos desequilíbrios não previstos)

*

Nossos parentes mais próximos:

os francoatiradores, os planeiros solitários que assolam os cafés dos mestiços da latino-américa, os massacrados em supermercados, em suas tremendas desjuntivas indivíduo-coletividade; a impotência da ação e da busca (a níveis individuais ou bem enlameados em contradições estéticas) da ação poética.

*

Pequeninas estrelas luminosas guiando-nos eternamente o olho a um lugar do universo chamado Os labirintos.

- Dancing club da miséria

- Pepito Tequila soluçando seu amor por Lisa Underground.

- Chupe-se-o, chupe-te-o, chupe-mo-no

-E o Horror

*

Cortinas de água, cimento ou lata, separam uma maquinaria cultural, a que o mesmo lhe serve de consciência ou o cu da classe dominante, de um acontecer cultural vivo, esfregado, em constante morte ou nascimento, ignorante de grande parte da história e das belas-artes (criador cotidiano de sua louquíssima história e de suas alucinantes velhas-artes), corpo que de imediato experimenta em si mesmo sensações novas, produto de uma época em que nos aproximamos a 200 km/h da privada ou da revolução.

“Novas formas, raras formas”, como dizia entre curioso e risonho o velho Bertold.

*

As sensações que não surgem do nada (obviedade de obviedades), senão da realidade condicionada, de mil maneiras, a um constante fluir.

- Realidade múltipla, marés a nós!

Assim é possível que por um lado nasçamos e por outro estejamos nas primeiras poltronas dos últimos estertores. Formas de vida e formas de morte passeiam entre si cotidianamente pela retina. Seu choque constante dá vida às formas infrarrealistas: O OLHO DA TRANSIÇÃO.

*

Enfiem toda a cidade no manicômio. Doce irmã, barulhos de tanque, canções hermafroditas, desertos de diamante, só viveremos uma vez e as visões a cada dia mais brutas e escorregadias. Doce irmã, passeio para Monte Albán. Apertem os cintos porque se regam os cadáveres. Um movimento a menos.

*

E a boa cultura burguesa? E a academia e os incendiários? E as vanguardas e suas retaguardas? E certas concepões do amor, a boa paisagem, a Colt precisa e multinacional?

Como me disse Saint-Just num sonho que tive faz tempo: Até as cabeças dos aristocratas podem nos servir de armas.

*

Uma boa parte do mundo vai nascendo e outra boa parte vai morrendo, e todos sabemos que todos temos que viver ou todos morrer: e nisto não há meio-termo.

Chirico disse: é necessário que o pensamento se alheie de tudo o que se chama lógica e bom sentido, que se alheie de todas as travas humanas de tal modo que as coisas lhe apareçam sob um novo aspecto, como que iluminadas por uma constelação aparecida pela primeira vez. Os infrarrealistas dizem: vamos cair de cabeça em todas as travas humanas, de tal modo que as coisas comecem a se mover dentro de si mesmas, uma visão alucinante do homem.

- A constelação do Belo Pássaro.

- Os infrarrealistas propõem ao mundo o indigenismo: um índio louco e tímido.

- Um novo lirismo, que na América Latina começa a crescer, a se sustentar em maneiras que não deixam de nos maravilhar. O começo do assunto é o começo da aventura: o poema como uma viagem e o poeta como um herói desvendador de heróis. A ternura como um exercício de velocidade. Respiração e calor. A experiência disparada, estruturas que vão se devorando a si mesmas, contradições loucas.

Se o poeta está imiscuído, o leitor terá que imiscuir-se.

“livros eróticos sem ortografia

*

Nos antecedem as MIL VANGUARDASD ESQUARTEJADAS DOS ANOS 60.

As 99 flores abertas como uma cabeça aberta.

As matanças, os novos campos de concentração.

Os brancos rios subterrâneos, os ventos violetas.

São tempos duros para a poesia, dizem alguns, tomando chá, escutando música em seus departamentos, falando (escutando) os velhos maestros. São tempos duros para o homem, dizemos nós, voltando às trincheiras depois de uma jornada cheia de merda e gases lacrimogênios, descobrindo/criando música  para os departamentos, olhando longamente os cemitérios-que-se-expandem, onde tomam desesperadamente uma xícara de chá ou se embriagam de pura raiva ou inércia os velhos maestros.

Nos antecede a HORA ZERO.

((Crie cafuzos e eles te morderão os calos))

Ainda estamos na era quaternária. Ainda estamos na era quaternária?

Pepito Tequila beija os mamilos fosforescentes de Lisa Underground e a vê afastar-se por uma praia onde brotam pirâmides negras.

*

Repito:

o poeta como um herói desvendador de heróis, como a árvore vermelha caída que anuncia o princípio do bosque.

- As intenções de uma ética-estética consequente estão empedrados de traições ou sobrevivências patéticas.

- E é que o indivíduo poderá andar mil quilômetros, mas ao largo do caminho ele o come.

- Nossa ética é a Revolução, nossa estética a vida: uma só coisa.

*

Os burgueses e os pequenos-burgueses estão em festa. Todos os finais de semana têm uma. O proletariado não tem festa. Somente funerais com ritmo. Isto vai mudar. Os explorados terão uma grande festa. Memória e guilhotinas. Intuí-la, atuá-la certas noites, inventar-lhe arestas e cantos úmidos, é como acariciar os olhos ácidos do novo espírito.

*

Deslocamento do poema através das temporadas dos motins: a poesia produzindo poetas produzindo poemas produzindo poesia. Não um corredor elétrico / o poeta com os braços separados do corpo / o poema deslocando-se lentamente de sua Visão a sua Revolução. O corredor é um ponto múltiplo: “Vamos inventar para descobrir sua contradição, suas formas invisíveis de negar-se, até esclarecê-lo”. Deslocamento do ato de escrever para zonas nada propícias ao ato de escrever.

Rimbaud! Volte pra casa!

Subverter a realidade cotidiana da poesia atual. Os encadeamentos que conduzem a uma realidade circular do poema. Uma boa referência: o louco Kurt Schwitters. Lanke trr gll, o, upa kupa arggg, sucedem em linha oficial, investigadores fonéticos codificando o uivo. As pontes do Noba Express são anticodificantes: deixem que grite, deixem que grite, (por favor, não vão pegar um lápis nem um papel, nem o gravem, se querem participar, gritem também), sendo assim, deixem que grite, pra ver que cara faz quando acabar, por qual outra coisa incrível passamos.

Nossas pontes para as temporadas ignoradas. O poema inter-relacionando realidade e irrealidade.

Convulsivamente.

*

Que posso pedir à atual pintura latino-americana? Que posso pedir ao teatro?

Mais revelador e plástico é parar em um parque demolido pelo smog e ver as gentes cruzando em grupos (que se comprimem e que se expandem) as avenidas, quando tanto aos automobilistas quanto aos pedestres é urgente chegar às suas casas, e é a hora em que os assassinos saem e as vítimas os seguem.

Realmente, que histórias me contam os pintores?

O vazio interessante, a forma e a cor fixas, no melhor dos casos a paródia do movimento. Pinturas que só servirão de anúncios luminosos nas salas dos engenheiros e médicos que as colecionam.

O pintor que se acomoda em uma sociedade que a cada dia é mais “pintora” que ele mesmo, e aí é onde ele se encontra desarmado e passa por palhaço.

Se um quadro de X é encontrado em alguma rua por Mara, esse quadro adquire a categoria de coisa divertida e comunicante; é um salão tão decorativo como as cadeiras de ferro do jardim do burguês / questão de retina? / sim e não / mas melhor seria encontrar (e por um tempo sistematizar aleatoriamente) o fator detonante, classista, cem por cento propositivo da obra, em justaposição aos valores de “obra” que a estão precedendo e condicionando.

O pintor deixa o estúdio e QUALQUER status quo e cai de cabeça na maravilha / ou se põe a jogar xadrez como Duchamp / uma pintura didática para a mesma pintura / E uma pintura da pobreza, grátis ou bastante barata, inacabada, de participação, de questionamento na participação, de extensões físicas e espirituais ilimitadas.

A melhor pintura da América Latina é a que ainda se faz a níveis inconscientes, o jogo, a festa, o experimento que nos dá uma visão real do que somos e nos abre ao que podemos será a melhor pintura da América Latina é a que pintamos com verdes e vermelhos e azuis sobre nossos rostos, para reconhecer-nos na criação incessante da tribo.

*

Experimentem largar tudo diariamente.

Que os arquitetos deixem de construir cenários para dentro e que abram as mãos (ou que as empunhem, depende do lugar) para esse espaço de fora. Um muro e um telhado adquirem utilidade quando não só servem para dormir ou evitar chuvas senão quando estabelecem, a partir, por exemplo, do ato cotidiano do sonho, pontes inconscientes entre o homem e suas criações, ou a impossibilidade momentânea destas.

Para a arquitetura e a escultura os infrarrealistas partimos de dois pontos: a trincheira e a cama.

*

A verdadeira imaginação é aquela que dinamita, elucida, injeta micróbios esmeraldas em outras imaginações. Em poesia e no que seja, o começo do assunto tem que ser o começo da aventura. Criar as ferramentas para a subversão cotidiana. As temporadas subjetivas do ser-humano, com suas belas árvores gigantes e obscenas, como laboratórios de experimentação. Fixar, entrever situações paralelas e tão dilacerantes como um grande arranhão no peito, no rosto. Analogia sem fim dos gestos. São tantas que quando aparecem os novos nem nos damos conta, ainda que estejamos fazendo/olhando em frente a um espelho. Noites de tormenta. A percepção se abre mediante uma ética-estética levada até às últimas.

*

As galáxias do amor estão aparecendo na palma de nossas mãos.

- Poetas, joguem as tranças (se as tiverem)

- Queimem suas porcarias e comecem a amar até que cheguem aos poemas incalculáveis.

Não queremos pinturas cinéticas, mas sim enormes entardeceres cinéticos.

Cavalos correndo a 500 quilômetros por hora.

Esquilos de fogo pulando de árvores de fogo.

Uma aposta para ver quem pisca primeiro, entre o nervo e a pílula sonífera.

*

O risco sempre está em outra parte. O verdadeiro poeta é o que sempre está abandonando-se a si mesmo. Nunca por muito tempo no mesmo lugar, como os guerrilheiros, como os ovnis, como os olhos brancos dos prisioneiros da prisão perpétua.

Fusão e explosão de duas margens: a criação como um graffiti resolvido e aberto por um menino louco.

*

Nada mecânico. As escalas do assombro. Alguém, talvez o Bosco, rompe o aquário do amor. Dinheiro grátis. Doce irmã. Visões levianas como cadáveres. Little boys talhando de beijos a dezembro.

*

Às duas da manhã, depois de ter estado na casa de Mara, escutamos (Mario Santiago e alguns de nós) risos que saíam da penthouse de um edifício de 9 andares. Não paravam, riam e riam enquanto nós embaixo dormíamos apoiados em várias cabines telefônicas. Chegou um momento em que só Mario seguia prestando atenção aos risos (a penthouse é um bar gay ou algo parecido e Darío Galicia havia nos contado que está sempre vigiado por policiais). Nós fazíamos chamadas telefônicas mas as moedas eram feitas de água. Os risos continuavam. Depois que nos fomos desta colônia, Mario me contou que realmente ninguém havia rido, eram risos graduais e lá em cima, na penthouse, um grupo reduzido, ou talvez só um homossexual, havia escutado em silêncio seu disco e nos havia feito escutá-lo.

- A morte do cisne, o último canto do cisne, o último canto do cisne negro, não estão no Bolshoi senão na dor e na beleza insuportável das ruas.

- Um arco-íris que começa num filme de má morte e que termina numa fábrica em greve.

- Que a amnésia nunca nos beije na boca. Que nunca nos beije.

- Sonhávamos com utopia e acordamos gritando.

- Um pobre vaqueiro solitário que retorna à sua casa, que é a maravilha.

*

Fazer surgir as novas sensações – subverter a cotidianidade.

O.K.

LARGUEM TUDO NOVAMENTE

LANCEM-SE PELOS CAMINHOS.


Roberto Bolaño, México, 1976.

Fonte: http://manifiestos.infrarrealismo.com/primermanifiesto.html

Publicado por: estrelaselvagem | Maio 20, 2010

A última entrevista de Roberto Bolaño

Estrela Distante – A última entrevista de Roberto Bolaño

Por Monica Maristain – Playboy México, 2003

***

No impreciso panorama da literatura de língua espanhola, um espaço em que todos os dias aparecem jovens escritores mais preocupados em ganhar bolsas e postos nos consulados que contribuir com algo para a criação artística, se destaca a figura de um homem enxuto, mochila azul nas costas, grande óculos, cigarro sempre entre os dedos, ironia fina à disposição sempre que necessário.

Roberto Bolaño, nascido no Chile em 1953, é o melhor que tem acontecido há muito tempo no ofício da escrita. Desde que com seu monumental Os Detetives Selvagens, talvez o grande romance mexicano da contemporaneidade, se fez famoso e ganhou os prêmio Herralde (1998) e Rômulo Gallegos (1999), sua influência e sua figura seguiu em crescimento constante: tudo o que disse, com seu afiado humor, com sua inteligência requintada, tudo o que escreve, com sua pluma certeira, de grande risco poético e profundo compromisso criativo, é digno de atenção dos que o admiram e, é claro, dos que o detestam.

O autor, que aparece como personagem do romance Os Soldados de Salamina, de Javier Cercas, e que é homenageado no último romance de Jorge Volpi, O Fim da Loucura, é, como todo homem genial, um divisor de opiniões, um gerador de antipatias acirradas, apesar de seu caráter terno, sua voz entre débil e rouca, com a qual responde, cortez, como todo bom chileno, que não escreverá um conto para esta revista pois seu próximo romance, que tratará dos assassinatos de mulheres em Ciudad Juárez, está com 900 páginas, e não conseguiu ainda terminá-la.

Roberto Bolaño vive em Blanes, Espanha, e está muito doente. Espera que um transplante de fígado lhe dê paz para viver com essa intensidade que tanto louvam aqueles que têm a sorte de viver com ele na intimidade. Dizem eles, seus amigos, que às vezes se esquece de ir ao médico enquanto escreve.

Aos 50 anos, este homem que percorreu a América Latina como mochileiro, que escapou das foices do pinochetismo porque um dos guardas que o encarceravam era seu amigo na escola, que viveu no México, que conheceu os militantes de Farabundo Martí que logo se tornaram os assassinos do poeta Roque Danton em El Salvador, que foi vigilante em um camping catalão, vendedor de bijuterias na Europa e sempre um ladrão de bons livros porque ler não é só uma questão de atitude, este homem, dizíamos, transformou o rumo da literatura latino-americana. E não o fez sem avisar ou pedir permissão, como havia feito Juan Garcia Madero, anti-herói adolescente de Os Detetives Selvagens: “Estou no primeiro semestre do curso de Direito. Eu não queria estudar direito, e sim Letras, mas minha tia insistiu e no final acabei concordando. Sou órfão. Serei advogado. Isso foi o que disse ao meu tio e a minha tia e logo me tranquei no meu quarto e chorei a noite toda”. De resto, as 608 páginas restantes de um romance cuja importância foi comparada pelos críticos ao Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar, e até com Cem anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez. Ele diria, diante de tantas hipérboles: de jeito nenhum. Assim vamos melhor com o que importa neste momento: a entrevista.

Te deu algum valor na vida ter nascido disléxico?

Nenhum. Problemas quando jogava futebol, sou canhoto. Problemas quando me masturbava, sou canhoto. Problemas quando escrevia, sou destro. Como pode ver, nenhum problema importante.

Enrique Vila-Matas seguiu sendo seu amigo logo após a briga que você teve com os organizadores do Prêmio Rômulo Gallegos?

Minha briga com o jurado e os organizadores do Prêmio foi devido, basicamente, a que eles pretendiam que eu avaliasse, em Blanes, às cegas, uma seleção da qual eu não havia participado. Seus métodos, que uma pseudo-poeta chavista me transmitiu por telefone, se pareciam muito com os argumentos desencorajadores da Casa das Américas cubana. Me pareceu um terror enorme que Daniel Sada ou Jorge Volpi fossem eliminados de cara, por exemplo. Eles disseram que o que eu queria era viajar com minha mulher e filhos, algo totalmente falso. Da minha indignação por esta mentira surgiu a carta na qual os chamei de neo-stalinistas e algo mais, suponho. Na verdade, me informaram que eles pretendiam, desde o início, premiar outro autor, que não o Vila-Matas, precisamente, cujo romance me parece bom, e que sem dúvida era um de meus candidatos.

Por que não há ar condicionado no seu escritório?

Porque meu lema não é Et in Arcadia ego, e sim Et in Esparta ego.

Não crê que se você tivesse se embriagado ao lado de Isabel Allende e Ángeles Mastretta seria outra sua opinião sobre seus livros?

Não creio. Primeiro, porque essas senhoras evitam beber com alguém como eu. Segundo, porque eu já não bebo. Terceiro: porque nem em minhas piores bebedeiras eu perdi um mínimo de lucidez, um sentido da prosódia e do ritmo, uma certa ojeriza diante do plágio, a mediocridade ou o silêncio.

Qual a diferença entre uma escrevedora e uma escritora?

Uma escritora é Silvina Ocampo. Uma escrevedora é Marcela Serrano. Os anos-luz que separam uma da outra.

Quem lhe fez crer que você é melhor poeta que narrador?

A gradação do rubor que sinto quando, por pura causalidade, abro um livro meu de poesia ou um de prosa. Me ruboriza menos o de poesia.

Você é chileno, espanhol ou mexicano?

Sou latino-americano

O que é a pátria para você?

Lamento ter que te dar uma resposta tão cafona. Minha única pátria são meus dois filhos, Lautaro e Alexandra. E talvez, mas em segundo plano, alguns instantes, algumas ruas, alguns rostos ou cenas ou livros que estão dentro de mim e que algum dia esquecerei, que é o melhor que alguém pode fazer pela pátria.

O que é a literatura chilena?

Provavelmente os pesadelos do poeta mais ressentido e triste e acaso o mais covarde dos poetas chilenos: Carlos Pezoa Véliz, morto no início do século XX, e autor de somente dois poemas memoráveis, mas, isso sim, verdadeiramente memoráveis, e que nos segue, sonhando e sofrendo. É possível que Pezoa Véliz ainda não tenha morrido e esteja agonizando e que seu último minuto seja um minuto bastante longo, não?, e todos estejamos dentro dele. Ou ao menos que todos os chilenos estejamos dentro dele.

Por que você gosta de se contradizer?

Eu nunca me contradigo.

Você tem mais amigos ou inimigos?

Tenho suficientes amigos e inimigos, todos gratuitos.

Quem são seus amigos íntimos?

Meu melhor amigo foi o poeta Mario Santiago, que morreu em 1998. Atualmente, três de meus melhores amigos são Ignacio Echevarría, Rodrigo Fresán e A. G. Porta.

António Skármeta te convidou alguma vez para seu programa?

Uma secretária dele, talvez sua mucama, me telefonou uma vez. Disse que estava muito ocupado.

Javier Cercas dividiu com você os lucros de Soldados de Salamina?

Claro que não.

Enrique Lihn, Jorge Teillier ou Nicanor Parra?

Nicanor Parra acima de todos, inclusive de Pablo Neruda, Vicente Huidobro e Gabriela Mistral.

Eugenio Montale, T. S. Eliot ou Xavier Villaurrutia?

Montale. Se em lugar de Eliot estivesse James Joyce, poria Joyce. Se em lugar de Eliot estivesse Ezra Pound, sem dúvida Pound.

John Lennon, Lady Di ou Elvis Presley?

The Pogues. Ou Suicide. Ou Bob Dylan. Mas, bem, não nos ponhamos melindrosos: Elvis forever. Elvis com um distintivo de xerife conduzindo um Mustang e se entupindo de remédios, com sua voz de ouro.

Quem lê mais: você ou Rodrigo Fresán?

Depende. O Oeste é para Rodrigo. O Leste para mim. Logo nos contamos os livros de nossas áreas correspondentes e acaba parecendo que lemos tudo.

Qual é para você o melhor poema de Pablo Neruda?

Quase qualquer um de Residência na Terra.

O que teria dito a Gabriela Mistral se a tivesse conhecido?

Mamãe, me perdoa, eu fui mal, mas o amor de uma mulher fez com que eu me tornasse bom.

E a Salvador Allende?

Pouco ou nada. Os que têm o poder (ainda que seja por pouco tempo) não sabem nada de literatura, só interessa a eles o poder. E eu posso ser o palhaço de meus leitores, se me der vontade, mas nunca dos poderosos. Soa um pouco melodramático. Soa como a declaração de uma puta honrada. Mas, enfim, é o que é.

E a Vicente Huidobro?

Huidobro me aborrece um pouco. Muito blablablá, muito paraquedista que cai cantando como um tirolês. São bem melhores os paraquedistas que caem envoltos em chamas ou, a propósito, aqueles cujos paraquedas não abrem.

Octavio Paz segue sendo seu inimigo?

Para mim, certamente, não é. Não sei o que pensariam os poetas que durante essa época, quando vivi no México, escreviam como seus clones. Faz muito tempo eu não sei o que é a poesia mexicana. Releio José Juan Tablada e Ramón López Velarde, inclusive posso recitar, se surgir a oportunidade, a Sór Juana, mas não sei nada do que escrevem os que, como eu, já beiram os cinquenta anos.

Não daria agora este papel a Carlos Fuentes?

Faz muito tempo que não leio Carlos Fuentes.

Que reação te dá saber que Arturo Pérez Reverte é atualmente o escritor mais lido em língua espanhola?

Pérez Reverte ou Isabel Allende. Dá no mesmo. Feuillet era o autor francês mais lido de sua época.

E o fato de Arturo Pérez Reverte ter ingressado na Real Academia?

A Real Academia é uma caverna de crânios privilegiados. Não está lá Juan Marsé, não está Juan Goytisolo, não está Eduardo Mendoza nem Javier Marías, não está lá Olvido García Valdez, não me lembro se Alvaro Pombo está (provavelmente se estiver se trata de um equívoco), mas está Pérez Reverte. Bom, Paulo Coelho também está na Academia Brasileira.

Se arrepende de ter criticado o cardápio que lhe fora servido por Diamela Eltit?

Nunca critiquei o cardápio. Se fiz algo, foi criticar seu humor, um humor vegetariano, ou melhor, sua dieta.

Lhe dói que ela considere você uma má pessoa depois da crônica daquela cena malograda?

Não, pobre Diamela, não me dói. Me doem outras coisas.

Verteu alguma lágrima pelas numerosas críticas que têm recebido por parte de seus inimigos?

Muitíssimas, cada vez que leio que alguém fala mal de mim me ponho a chorar, me arrasto pelo chão, me arranho, deixo de escrever por tempo indeterminado, cai meu apetite, fumo menos, faço algum esporte, saio a caminhar pela orla do mar, que, a propósito, está a menos de trinta metros da minha casa, e pergunto às gaivotas, cujos antepassados comeram os peixes que comeram Ulisses: por que eu? Por que eu, que não fiz mal nenhum a eles?

Qual a opinião sobre sua obra à qual você dá mais crédito?

Leem meus livros Carolina [sua esposa] e depois [Jorge] Herralde [editor da Anagrama], e depois procuro esquecê-los para sempre.

O que comprou com o dinheiro ganho no Prêmio Rômulo Gallegos?

Não muitas coisas. Uma maleta, pelo que creio lembrar.

Da sua época em que vivia de concursos literários, houve algum que não conseguiu ganhar?

Nenhum. Os conselhos espanhóis, neste aspecto, são de uma integridade acima de qualquer suspeita.

Era um bom garçom ou se deu melhor como vendedor de bijuterias?

O ofício em que me dei melhor foi o de vigilante noturno de um camping próximo à Barcelona. Nunca ninguém roubou nada enquanto estive ali. Impedi algumas brigas que poderiam ter terminado muito mal. Evitei um linchamento (ainda que, depois, de boa vontade eu mesmo teria linchado ou estrangulado o tipo em questão).

Chegou a experimentar a fome feroz, o frio que cala os ossos, o calor desconsolador?

Como disse Vittorio Gassman em um filme: modestamente, sim.

Roubou algum livro que logo depois não gostou?

Nunca. O bom de roubar livros (e não caixas fortes) é que se pode examinar detidamente seu conteúdo antes de perpetrar o delito.

Caminhou alguma vez no meio do deserto?

Sim, em uma ocasião, e no braço de minha avó. A velha senhora era incansável, e pensei que daquela não escaparíamos.

Já viu peixes coloridos debaixo d’água?

Com certeza. Em Acapulco, sem ter que ir mais longe, no ano de 1974 ou 1975.

Já queimou a pele com um cigarro?

Nunca voluntariamente.

Já talhou em um tronco de árvore o nome da pessoa amada?

Já cometi excessos ainda maiores, mas escondamos isto.

Já viu alguma vez a mulher mais bela do mundo?

Sim, quando trabalhava em uma tenda, lá pelo ano de 1984. A tenda estava vazia e entrou uma mulher hindu. Parecia e talvez fosse uma princesa. Me comprou alguns colares de bijuteria. Eu, em contrapartida, estava a ponto de desmaiar. Tinha a pele cor de cobre, o cabelo comprido, vermelho, e era perfeita demais. A beleza atemporal. Quando tive que cobrar me senti muito envergonhado. Ela sorriu pra mim como se dissesse que me entendia e que não se preocupava. Logo desapareceu e nunca mais voltei a ver alguém assim. Às vezes tenho a impressão de que era a mesmíssima deusa Kâlî, mãe dos ladrões e dos órfãos, só que Kâlî também era a divindade dos assassinos, e esta hindu não só era a mulher mais bela da Terra como também parecia ser uma boa pessoa, muito doce e atenciosa.

Gosta de cachorros ou gatos?

Cachorros, mas hoje não tenho mais animais.

O que se lembra da sua infância?

Tudo. Não tenho uma memória ruim.

Colecionava figurinhas?

Sim, de futebol e de atores e atrizes de Hollywood.

Tinha patins?

Meus pais cometeram o erro de presentear-me com um par de patins quando vivíamos em Valparaíso, que é uma cidade de colinas. O resultado foi desastroso. Cada vez que eu punha os patins era como se quisesse me suicidar.

Qual seu clube de futebol?

Agora nenhum. Os que caíram para a segunda divisão e logo, consecutivamente, para a terceira e a regional até desaparecerem. Os clubes fantasmas.

Com qual personagem da história universal gostaria de se parecer?

Com Sherlock Holmes. Com Capitão Nemo. Com Julien Sorel, nosso pai, com o príncipe Mishkin, nosso tio, com Alice, nossa professora, com Houdini, que é um misto de Alice, de Sorel e de Mishkin.

Se apaixonava pelas vizinhas mais velhas?

Com certeza.

As colegas de escola prestavam atenção em você?

Creio que não. Ao menos me convencia de que não.

O que você deve às mulheres da sua vida.

Muitíssimo. O sentido do desafio e as altas apostas. E outras coisas que calo por pudor.

Elas devem algo a você?

Nada.

Sofreu muito por amor?

A primeira vez, muito, depois aprendi a levar as coisas com um pouco mais de humor.

E por ódio?

Ainda que soe um pouco pretensioso, nunca odiei ninguém. Ao menos estou seguro de ser capaz de um ódio convicto. E se o ódio não é convicto, não é ódio, certo?

Como se apaixonou por sua esposa?

Cozinhando arroz para ela. Nesta época eu era muito pobre e minha dieta era basicamente de arroz, de modo que aprendi a cozinhá-lo de muitas formas.

Como foi o dia em que se tornou pai pela primeira vez?

Era noite, pouco antes das 12, eu estava só, e como não podia fumar no hospital, fumei um cigarrinho imaginário no quarto andar. Ainda bem que ninguém me viu da rua. Somente a lua, como diria Amado Nervo. Quando voltei, uma enfermeira disse que meu filho havia nascido. Era muito grande, quase careca, e com os olhos abertos como que perguntando que diabos era esse cara que o tinha nos braços.

Lautaro será escritor?

Só espero que seja feliz. Se for assim, é melhor que seja outra coisa. Piloto de avião, por exemplo, ou cirurgião plástico, ou editor.

Que coisas vê nele como suas?

Por sorte ele se parece muito mais com sua mãe que comigo.

Fica preocupado com as listas de vendas de seus livros?

O mínimo possível.

Pensa alguma vez em seus leitores?

Quase nunca

Que coisas das que dizem seus leitores sobre os seus livros chegaram a te comover?

Me comovem os leitores verdadeiros, os que ainda se atrevem a ler o Dicionário Filosófico de Voltaire, que é uma das obras mais amenas e modernas que conheço. Me comovem os jovens de ferro que leem Cortázar e Parra, tal como eu os li e como pretendo seguir os lendo. Me comovem os jovens que dormem com um livro debaixo da cabeça. Um livro é a melhor almofada que existe.

Quais coisas te enojam?

A essa altura, enojar-se é perder tempo. E, lamentavelmente, na minha idade o tempo conta.

Já teve medo alguma vez de seus fãs?

Já tive medo dos fãs de Leopoldo María Panero, o qual, por outro lado, me parece um dos três maiores poetas vivos da Espanha. Em Pamplona, durante um ciclo organizado por Jesús Ferrero, Panero fechava o ciclo, e à medida que se aproximava o dia de sua leitura a cidade ou o bairro onde estava nosso hotel foi sendo tomada de freaks que pareciam recém escapados de um manicômio, que, por outro lado, é o melhor público que pode desejar qualquer poeta. O problema é que alguns não só pareciam loucos senão também assassinos, e Ferrero e eu tememos que alguém, em algum momento, se levantasse e dissesse: eu matei Leopoldo María Panero e depois lhe desse quatro balaços na cabeça do poeta, e já aproveitando, um em Ferrero e outro em mim.

Que sente quando críticos como Darío Osses dizem que consideram que você é o escritor latino-americano com mais futuro?

Deve ser uma brincadeira. Eu sou o escritor latino-americano com menos futuro. Sou um dos que têm mais passado, isso sim, que no fim das contas é só o que importa.

Te desperta curiosidade o livro crítico que sua compatriota Patricia Espinoza está preparando?

Nenhuma. Espinoza me parece uma crítica muito boa, independente de como constarei em seu livro, suponho que não muito bem, mas o trabalho de Espinoza é necessário no Chile. Na verdade, a necessidade de uma, digamos assim, nova crítica, é algo que começa a ser urgente em toda a América Latina.

E o da argentina Celina Manzoni?

Celina conheço pessoalmente e a quero muito bem. A ela dediquei um dos contos de Putas Assassinas.

Que coisas te aborrecem?

O discurso vazio da esquerda. O discurso vazio da direita já é de se esperar.

Que coisas te divertem?

Ver brincar minha filha Alexandra. Tomar café da manhã num bar ao lado do mar e comer um croissant lendo um jornal. A literatura de Borges. A literatura de Bioy. A literatura de Bustos Domecq. Fazer amor.

Escreve à mão?

A poesia, sim. O resto, em um computador velho de 1993.

Feche os olhos. Qual das paisagens da América Latina pelos quais você percorreu te vem primeiro na memória?

Os lábios de Lisa em 1974. O velho caminhão do meu pai em uma estrada no deserto. O pavilhão de tuberculosos de um hospital de Cauquenes e minha mãe dizendo a mim e à minha irmã para que prendêssemos a respiração. Uma excursão a Popocatépetl com Lisa, Mara e Vera e alguém mais de que não me lembro, ainda que lembre dos lábios de Lisa, seu sorriso extraordinário.

Como é o paraíso?

Como Veneza, espero, um lugar cheio de italianas e italianos. Um lugar que se usa e se desgasta e que se sabe que nada perdura, nem o paraíso, e que isto ao fim e ao cabo não importa.

E o inferno?

Como Ciudad Juárez, que é nossa maldição e nosso espelho, o espelho inquieto de nossas frustrações e de nossa infame interpretação da liberdade e de nossos desejos.

Quando soube que estava gravemente enfermo?

Em 1992.

Que coisas no seu caráter mudaram com a enfermidade?

Nenhuma. Soube que não era imortal, o que, aos 38 anos, já era hora que soubesse.

Que outras coisas deseja fazer antes de morrer?

Nenhuma em especial. Bom, preferia não morrer, claro. Mas cedo ou tarde a distinta dama chega, o problema é que às vezes não é uma dama, muito menos distinta, senão é, como disse Nicanor Parra em um poema, é uma puta ardente, que é algo que faz o mais corajoso bater os dentes.

Com quem gostaria de se encontrar do outro lado?

Não creio no outro lado. Se existir, que surpresa. Me matricularia de imediato em algum curso que Pascal estivesse dando.

Já pensou alguma vez em suicídio?

Com certeza. Em alguma ocasião sobrevivi somente porque sabia como me suicidar caso as coisas piorassem.

Acreditou alguma vez que estava ficando louco?

Com certeza. Mas o que sempre me salvou foi o senso de humor. Contava histórias a mim mesmo que me faziam enlouquecer de tanto de rir. Ou recordava situações que me faziam rolar no chão em risos.

A loucura, a morte e o amor. Qual dessas três coisas você mais teve em sua vida.

Espero de todo o coração que tenha sido o amor.

Que coisas o fazem trincar os dentes de rir?

As desgraças próprias e alheias.

Que coisas o fazem chorar?

As mesmas: as desgraças próprias e alheias.

Gosta de música?

Muito.

Você vê sua obra como os seus leitores e críticos veem: acima de tudo Os Detetives Selvagens, e logo todo o restante?

O único romance do qual não me envergonho é Amberes, talvez porque segue sendo ininteligível. As críticas negativas que recebi são minhas medalhas de combate, não em brigas simuladas. O resto de minha “obra”, pois bem, não vai mal, são romances divertidos, o tempo dirá se são algo mais. Por ora me dão dinheiro, traduzem, servem para que eu faça amigos, que são muito generosos e simpáticos, posso viver, e bastante bem, de literatura, de modo que me queixar seria algo gratuito e ingrato. Mas a verdade é que não dou muita importância aos meus livros. Estou muito mais interessado nos livros dos outros.

Não tiraria algumas páginas de Os Detetives Selvagens?

Não, para retirar eu teria que relê-lo, e isto minha religião não permite.

Não lhe dá medo que alguém queira fazer a versão cinematográfica deste romance?

Olha, Mônica, tenho medo é de outras coisas. Digamos, coisas mais assustadoras, infinitamente mais assustadoras.

O conto “El Ojo Silva” é uma homenagem a Julio Cortázar?

De maneira alguma.

Quando terminou de escrever “El Ojo Silva”, não sentiu que havia escrito um conto capaz de estar a altura, por exemplo, de “Casa Tomada”?

Quando terminou de escrever “El Ojo Silva” parei de chorar ou algo parecido. Quisera eu que se parecesse com algum conto de Cortázar, ainda que “Casa Tomada” não é um dos meus favoritos.

Quais são os cinco livros de sua vida?

Meus cinco livros são na realidade cinco mil. Menciono estes só à ponta de lança ou por uma representação perversa: O Quixote, de Cervantes. Moby Dick, de Melville. A Obra Completa, de Borges. O Jogo da Amarelinha, de Cortázar. La conjura de los necios [A Confederacy of Dunces], de Kennedy Toole. Mas também devo citar: Nadja, de Breton. As cartas de Jacques Vaché. Todo Ubú, de Jarry. A vida, instruções de uso, de Perec. O Castelo e O Processo, de Kafka. Os aforismos de Lichtenberg. O Tractatus, de Wittgenstein. A invenção de Morel, de Bioy Casares.  Satiricón, de Petronio. A Historia de Roma, de Tito Livio. Os Pensamentos, de Pascal.

Se dá bem com seu editor?

Bastante bem. Herralde é uma pessoa inteligente e muito encantadora. Talvez a mim me conviesse que não fosse tão encantador. O certo é que faz oito anos que o conheço e, ao menos de minha parte, o carinho não faz mais nada além de crescer, como diz um bolero. Ainda que talvez fosse conveniente não gostar tanto assim dele.

Que acha dos que pensam que Os Detetives Selvagens é o grande romance mexicano da contemporaneidade?

Que o dizem por lástima, me veem caído ou desmaiado nas praças públicas e não lhes ocorre nada melhor que uma mentira piedosa, que a propósito é o mais indicado nestes casos e nem sequer chega a ser um pecado venial.

É verdade que foi Juan Villoro quem te convenceu a não intitular Tormentas de Merda seu romance Noturno do Chile?

Villoro e Herralde.

De quem mais escuta conselhos sobre sua obra?

Não escuto conselhos de ninguém, nem sequer de meu médico. Eu dou conselhos a torto e à direita, mas não escuto nenhum.

Como é Blanes?

Um povoado bonito. Ou uma cidade pequenina, de trinta mil habitantes, bem bonita. Foi fundada há dois mil anos pelos romanos, e logo passaram por aqui gente de todos os lugares. Não é um balneário de ricos, e sim de proletários. Trabalhadores do norte de do leste. Alguns chegam para viver para sempre. A baía é belíssima.

Sente saudade de algo da sua vida no México?

Minha juventude e minhas caminhadas intermináveis com Mario Santiago.

Que escritor mexicano admira profundamente?

Muitos. Da minha geração admiro Sada, cujo projeto de escrita me parece o mais arriscado; Villoro, Carmen Boullosa, entre os mais jovens me interessa muito o que fazem Alvaro Enrigue e Mauricio Montiel, ou Volpi e Ignacio Padilla. Sigo lendo Sergio Pitol, que a cada dia escreve melhor. E Carlos Monsivais, que segue com as unhas afiadas. Também gosto muito do que Sergio González Rodríguez faz.

O mundo tem remédio?

O mundo está vivo, e nada vivo tem remédio, e essa é nossa sorte.

Você tem esperanças? Em quê?

Minha querida Maristain, volta você a me empurrar às pastagens do sentimentalismo, que são minhas pastagens de origem. Eu tenho esperanças nas crianças. Nas crianças e nos guerreiros. Nas crianças que trepam como crianças e nos guerreiros que combatem como os bravos. Por quê? Me remeto à lápide de Borges, como diria o ilustre Gervasio Montenegro, da Academia (como Pérez Reverte, veja você) e não falemos mais neste assunto.

Que sentimentos te despertam a palavra póstumo?

Soa como o nome de um gladiador romano. Um gladiador invicto. Ou ao menos assim quer crer o pobre Póstumo, para dar-se o valor.

Que pensa dos que opinam que você ganhará o Prêmio Nobel?

Estou certo, querida Maristain, de que não ganharei, como também estou certo de que algum vagabundo da minha geração o ganhará e nem sequer me mencionará de passagem no seu discurso de Estocolmo.

Em que momento você foi mais feliz?

Fui feliz em quase todos os momentos de minha vida, ao menos durante um período, inclusive nas circunstâncias mais adversas.

Que gostaria de ser se não fosse escritor?

Gostaria de ter sido detetive de homicídios, muito mais que escritor. Disto estou absolutamente seguro. Um policial de homicídios, alguém que pode voltar só, de noite, da cena do crime, e não se assustar com fantasmas. Talvez então teria ficado louco, mas isto, sendo policial, se soluciona com um tiro na boca.

Confessa que viveu?

Bom, sigo vivo, sigo lendo, sigo escrevendo e vendo filmes, e como disse Arturo Prat aos suicidas de Esmeralda, enquanto eu viver, esta bandeira não baixará.

Publicado por: estrelaselvagem | Maio 14, 2010

“Prefiro Allende a Teitelboim”

“Prefiro Allende a Teitelboim”

Com sua descontração habitual, o autor de Os Detetives Selvagens se pronuncia sobre o Prêmio Nacional de Literatura.

por Carolina Andonie Dracos

El Mercurio 10 de agosto de 2002


Em Blanes (Espanha) faz um calor sufocante, e o estúdio de Roberto Bolaño não possui ar condicionado. Este cenário torna mais tediosa a tarefa de lidar cada dia com as mil páginas que terá seu próximo romance 2666, cujo título merece “uma extenuante explicação”.

Já na contagem regressiva para a entrega do Prêmio Nacional de Literatura, ninguém se exime de colocar seu grãozinho de areia quando se trata de disputas.

Quem cala, consente.

A Roberto Bolaño o tema não incomoda, embora a crítica o considere uma das grandes vozes narrativas do momento, vencedor do Prêmio Rômulo Gallegos, que em uma ocasião assinalou: “Ficaria feliz que no Chile me quisessem e não saíssem os imbecis dizendo que não sou chileno. Nesse sentido uma boa crítica não me deixa indiferente, mas tenho a pele dura e sei aguentar os golpes”.

Contudo, o assunto da maior premiação literária nacional não lhe tira o sono.

“Não fui nomeado para o Prêmio Nacional. A verdade é que uma vez disse o que pensava de Skármeta e de Isabel Allende, como escritores. Se devo optar entre ele e ela, fico com Allende, mas esta é uma escolha entre a espada e a parede. Não me parecem candidatos muito representativos do que pode ser a literatura chilena, o que alguma vez foi ou pretende ser. Nem um nem outro fizeram grandes esforços para fazer literatura”, assegura o escritor.

“Como isto parece uma espécie de eleição em meio a uma tribo de canibais, há que se escolher o menos pior, por isso fico com Allende a ter que ficar com Volodia Teitelboim. Que obra de Teitelboim tem algum valor literário? Em vez disso, com sua atitude dogmática, era um gênio – falo do Volodia jovem – da antologia famosa, mas claro, não vai ficar a vida toda com uma obra que fez aos 20 anos.”

- Considera que este prêmio ganhou um descarado traço político?

Me parece nefasto, mas isto não é mais nada além do que gente que cospe pra cima. A única coisa que Zurita faz é alimentar um certo desprestígio, porque mereceu o Prêmio Nacional, mas sua atitude atual aponta para a de um burocrata, um funcionário, sei lá, um “fofoqueiro”. Suponho que deve ser próprio do masoquismo de Zurita, ampliadamente demonstrado.

- O que acontece com a produção?

O Prêmio Nacional não me causa nenhuma reação, não me interessa nem um pouco. Há dois grandes poetas que leio e releio: Enrique Lihn e Jorge Teillier, que não ganharam o Prêmio. Não farei nenhum lobby para que me postulem.

- Muitos críticos valorizam Os Detetives Selvagens e sua intervenção no México, onde se falava das coisas que dizia o “garoto Bolaño”.

O “garoto” Bolaño em 2003 fará 50 anos. O que vier a se dizer de minha obra no México, não me importa. Agora estão traduzindo a minha obra na França, Suíça, Alemanha, Itália e se me preocupasse com o que dissessem, deixaria de escrever. Minha última viagem foi a Paris, onde publicaram três romances meus de uma só vez, tiveram uma crítica acolhedora que eu não esperava. Apareci na capa do Suplemento Cultural do Le Monde. Me dá vergonha, pois a Hans Georg Gadamer, um intelectual que admiro, só lhe deram uma resenha.

E o que vem agora?

Este romance compridíssimo, uma obra monstruosa, que serve por tudo. Às vezes me preocupa a recepção do público, já que é um salto para o vazio, porque a aposta é muito alta. Tem que ser com uma estrutura inovadora, os argumentos são sempre os mesmos, mas a estrutura condiciona a prosódia, e isto é realmente um pesadelo.

Fonte: http://www.letras.s5.com/bolano140802.htm

Publicado por: estrelaselvagem | Abril 25, 2010

Discurso de Caracas

Discurso de Caracas

Os detetives selvagens ganhou o prêmio Rômulo Gallegos de romance. Este discurso não é simplesmente algumas palavras de gratidão;  ao contrário, com o humor e leveza que o caracteriza, Bolaño faz uma homenagem a sua geração, aquela que aposta a vida à uma causa mal-aventurada.

Outubro de 1999

Sempre tive um problema com a Venezuela. Um problema infantil, fruto de minha educação desordenada, um problema mínimo mas problema após problema. O cerne deste problema é de índole verbal e geográfica. Também é provável que se deva a uma espécie de dislexia não diagnosticada.

Não quero dizer com isso que minha mãe não me levava nunca ao médico, ao contrário, até os dez anos fui um assíduo visitante de consultas e até de hospitais, mas a partir de então minha mãe creu que eu era forte o suficiente para aguentar tudo. Entretanto, voltemos ao problema. Quando era pequeno, jogava futebol. Meu número era o 11, o número de Pepe e Zagalo no mundial da Suécia, e fui um jogador entusiasmado, mas bastante ruim, já que minha perna boa era a esquerda e se supõe que os canhotos não decepcionam numa partida. No meu caso, isso não era certo e eu decepcionava quase sempre, embora, de vez em quando, uma vez a cada seis meses, por exemplo, fazia uma ótima partida e recobrava uma parte, ao menos, do crédito perdido. Pelas noites, como é natural, antes de dormir, pensava e dava voltas a me lamentar a condição de jogador de futebol. E foi então quando tive o primeiro pressentimento quanto a minha dislexia. Eu chutava com a perna esquerda, mas escrevia com a direita. Isso era um fato. Teria gostado de escrever com a esquerda, mas fazia-o com a direita. E aí estava o problema. Por exemplo, quando o técnico dizia: venha para o seu lado direito, Bolaño, eu não sabia para que lado teria que passar a bola. E outras vezes, inclusive, jogando pela ponta esquerda, diante da voz rouca de meu treinador eu me parava e tinha que pensar: esquerda-direita. Direita era o campo de futebol, esquerda era chutar para fora: havia poucos espectadores, crianças como eu, que rodeavam os miseráveis gramados dos campos de futebol de Quilpué, o de Cauquenes, o da província de Bio-Bio. Com o tempo, supostamente, aprendi a ter uma referência cada vez que me perguntavam ou me informavam de uma rua que estava à direita ou à esquerda, e essa referência foi a mão com que escrevo, se não o pé com que eu chuto a bola. E com a Venezuala tive, mais ou menos pelas mesmas épocas, ou seja, até ontem mesmo, um problema parecido. O problema era sua capital. Para mim, o mais lógico era que a capital da Venezuela fosse Bogotá. E a capital da Colômbia, Caracas.

Por quê? Pois então, uma lógica verbal ou uma lógica das letras. A letra v do nome Venezuela é similar, para não dizer familiar, ao b de Bogotá. E o c de Colômbia é primo e irmão da letra c de Caracas. Isto parece intransigente e provavelmente o é, mas para mim se constituiu em um problema de primeira ordem, chegando em certa ocasião, no México, durante uma conferência sobre poetas urbanos da Colômbia, a falar da potência dos poetas de Caracas, e a gente, gente tão amável e educada como vocês, caiu calada a espera de que depois da fala sobre os poetas caraquenhos, passasse a falar dos poetas bogotanos, mas o que fiz foi seguir falando dos poetas caraquenhos, de sua estética da destruição, e inclusa a comparação com os futuristas italianos, resguardando as distâncias, é claro, e com os primeiros letrados, o grupo de Isidore Isou e Maurice Lemaître, o grupo de onde sairia o germe do situacionismo de Guy Debord e a gente que a essas alturas começou a fazer adivinhações. Não creio que pensavam que os bogotanos haviam migrado em massa para Caracas, já que os caraquenhos tiveram um papel determinante neste grupo de novos poetas bogotanos. Tanto que quando dei a conferência por terminada, com um final abrupto, tal como eu então gostava de acabar qualquer conferência, as pessoas se levantaram, aplaudiram timidamente e marcharam correndo para consultar o cartaz na entrada, e quando eu saí, acompanhado do poeta mexicano Mario Santiago, que sempre ia comigo e que seguramente se deu conta do meu erro embora não tenha me contado: para Mario os erros, os garranchos e os equívocos eram como as nuvens de Baudelaire que passam pelo céu, sabe que deve olhá-las, mas não corrigi-las. Ao sair, dizia, nos encontramos com um velho poeta venezuelano, e quando digo velho relembro esse momento e o poeta venezuelano mais jovem do que vou agora, que nos deixou com lágrimas nos olhos dizendo que devia haver um erro, que ele jamais havia ouvido nem uma palavra sobre esses poetas misteriosos de Caracas.

A esta altura do discurso, pressinto que Dom Rômulo deve estar revirando-se em sua tumba. Mas a quem deram o meu prêmio, estará pensando. Desculpe-me, Dom Rômulo. Mas é que inclusive Dona Bárbara, com b, suena a Venezuela e Bogotá, e também Bolívar suena a Venezuela e a Dona Bárbara; Bolívar e Bárbara, que bela dupla formariam, ainda que os outros dois romances de Dom Rômulo, Cantaclaro e Canaima, poderiam perfeitamente serem colombianas, o que me leva a pensar que talvez o sejam, e que sob minha dislexia se esconda um método semiótico bastardo, ou grafológico, ou metassintático, ou fonemático, ou simplesmente um método poético, e que a verdade das verdades é que Caracas é a capital da Venezuela, da mesma maneira que Bolívar, que é venezuelano, morreu na Colômbia, que também é Venezuela e México e Chile. Não sei se entendem aonde quero chegar. Pobre negro, por exemplo, de Dom Rômulo, é um romance eminentemente peruano. La casa Verde, de Vargas Llosa, é um romance colombiano-venezuelano. Terra nostra, de Fuentes, é um romance argentino e advirto que mais não me perguntem em que baseio esta afirmação porque a resposta será prolixa e fastidiosa. A academia patafísica ensina, de forma por demais misteriosa, a ciência das soluções imaginárias que é, como sabem, aquela que estuda as leis que regulam as exceções. E este sobressalto de letras, de alguma maneira, é uma solução imaginária que exige uma solução imaginária. Mas voltemos a Dom Rômulo antes de enfiar-nos em Jarry e notemos, de passagem, alguns estranhos sinais. Eu acabo de ganhar o décimo-primeiro prêmio Rômulo Gallegos. O 11. Eu jogava com o 11 na camisa. Isto, a vocês, parece uma casualidade, mas a mim me deixa trêmulo. O 11 que não sabia distinguir a esquerda da direita e que portanto confundia Caracas com Bogotá, acaba de ganhar (e aproveito este parêntese para agradecer mais uma vez ao jurado desta distinção, principalmente Ángeles Mastretta) o décimo-primeiro  prêmio Rômulo Gallegos. Que pensaria Dom Rômulo disto? Outro dia, falando por telefone, Pere Gimferrer, que é um grande poeta e que além do mais sabe tudo e já leu tudo sobre ele, me disse que há duas placas comemorativas em Barcelona, nas casas onde viveu Dom Rômulo. Segundo Gimferrer, ainda que não tenha posto as mãos no fogo sobre o assunto, emuma destas casas o grande escritor venezuelano começou a escrever Canaima. A verdade é que 99,9% das coisas que Gimferrer disse, me jurou de pés juntos, e então, enquanto Gimferre falava (uma das casas em que havia uma placa não era uma casa, e sim um banco, o que plantava uma série de dúvidas, por exemplo se Dom Rômulo em sua estância em Barcelona — e digo estância, e não exílio, porque um latino-americano jamais está exilado na Espanha — havia trabalhado em um banco ou se o banco veio depois instalar-se na casa onde viveu o romancista), como dizia, enquanto o poeta catalão falava, eu me pus a pensar em minha já distante, mas não por isto menos desgastantes, sobre tudo que há na memória, passeios pelo Ensanche, e me vi outra vez ali, aos trancos em 1977, 1978, talvez 1982, e de repente acreditei ver rua ao entardecer, perto de Muntaner, e vi um número, vi o número 11 e logo caminhei um pouco mais, uns passos mais, e ali estava a placa. Isto é o que vi mentalmente. Mas também é provável que nos anos que vivi em Barcelona passei por esta rua, e vi a placa, uma placa que possivelmente dizia Aquí viveu Rômulo Gallegos, romancista e político, nascido em Caracas em 1884 e falecido em Caracas em 1969 e depois, em letras menores, outras coisas, os livros, os prêmios, etc., e é possível, que eu pensasse, sem deter-me: outro escritor colombiano famoso, e e isto só é possível que eu pensasse se eu não me detivesse, insisto, pois a verdade é que então já havia lido algo de Dom Rômulo como leitura obrigatória não sei se em um liceu chileno ou em uma escola mexicana e gostei de Dona Bárbara, ainda que segundo Gimferrer Canaima seja melhor, e, é claro, sabia que Dom Rômulo era venezuelano e não colombiano. O que realmente significa pouco, ser colombiano ou ser venezuelano, e neste ponto voltamos de rebote como um raio ao b de Bolívar, que não era dislexo e ao que não desgostaria ver uma América Latina unida, um gosto que compartilho com o Libertador, pois a mim dá no mesmo que digam que sou chileno, ainda que alguns colegas chilenos prefiram ver-me como mexicano, ou que digam que sou mexicano, ainda que alguns amigos mexicanos preferem considerar que sou espanhol, ou, plenamente, desaparecido em combate, e inclusive a mesma coisa que me chamem espanhol, ainda que alguns colegas espanhóis gritem aos céus e a partir de agora digam que sou venezuelano, nascido em Caracas ou Bogotá, coisa que muito menos me desgosta, muito pelo contrário. O certo é que sou chileno e também sou muitas outras coisas.

E neste momento eu tenho que abandonar Jarry e Bolívar e tentar lembrar daquele escritor que dizia que a pátria de um escritor é a sua língua. Eu não me lembro o nome dele. Talvez tenha sido um escritor que escreveu em espanhol. Talvez tenha sido um escritor que escreveu em Inglês ou Francês. A pátria de um escritor, disse ele, é a sua língua. Parece um pouco demagógico, mas concordo plenamente com ele, e eu sei que às vezes não temos outro remédio, a não ser sermos demagógicos, e às vezes não temos escolha senão a dançar um bolero à luz de uma lanterna ou uma lua vermelha. Embora seja verdade que a pátria de um escritor não é a sua língua, não apenas a sua língua, mas as pessoas que queremos bem. E às vezes a pátria de um escritor não são as pessoas, mas a sua memória. E às vezes a única casa do escritor é a sua lealdade e seu valor. De fato, muitas podem ser as pátrias de um escritor, e às vezes a identidade desta pátria pode ser a terra natal do escritor, por vezes, a identidade deste país depende muito do que se está escrevendo naquele momento. Muitos podem ser os países de origem, ocorre-me agora, mas há apenas um passaporte e o passaporte é obviamente a qualidade da escrita. Isso não significa escrever bem, porque isso qualquer um pode fazer, mas escrever maravilhosamente bem, e nem sequer isto, pois escrever maravilhosamente bem também qualquer um pode. Então o que é uma escritura de qualidade? Pois, o que sempre foi: saber enfiar a a cabeça no escuro, saber pular no vazio, ou seja, saber que a literatura é basicamente um ofício perigoso. Correndo ao longo da borda do precipício: de um lado o abismo sem fundo, e do outro todas as faces que você quer, os rostos sorridentes que você quer, e livros, e amigos, e os alimentos. E aceitar esta evidência, ainda que às vezes nos pese mais que o sepulcro que cobre os restos de todos os escritores mortos. Literatura, como diria o folclore andaluz, é um perigo.

E agora volto, por fim, sobre o número 11, que é o número dos que correm por fora, e já que mencionei o pergio, me lembro daquele capítulo do Quixote onde se discute sobre os méritos da milícia e da poesia, e suponho que o fundo do que se está discutindo é sobre o grau de perigo que também é falar que envolve a natureza de ambos os ofícios. E Cervantes, que foi um soldado, faz o militar ganhar, faz o soldado ganhar ante o honroso ofício de poeta, e se lemos estas páginas bem (algo que agora, enquanto escrevo este discurso, eu não faço, apesar estar vendo da mesa onde escrevo as minhas duas edições de Don Quixote) percebemos nelas um forte aroma de melancolia, porque Cervantes ganha sua própria juventude, o fantasma de sua juventude perdida, diante da realidade do seu exercício de prosa e poesia, até então adversas. E isto me vem à cabeça porque em grande medida tudo o que escrevi é uma carta de amor ou de despedida à minha própria geração, aos que nascíamos na década de cinquenta e os que preferimos emum momento dado o exercício da milícia, neste caso seria mais correto dizer a militância, e entregamos o pouco que tínhamos, o muito que tínhamos, que era nossa juventude, a uma causa em que acreditávamos a mais generosa das causas do mundo, e que de certa forma o era, mas que na realidade não era.

Seria demais dizer que lutamos com unhas e dentes, mas tivemos líderes corruptos, covardes, uma máquina de propaganda que foi pior do que um leprosário, lutamos por partidos que por terem vencido nos mandaram de imediato a um campo de trabalhos forçados, lutamos e pusemos todas a nossa generosidade em um ideal que há mais de cinqüenta anos que estava morto, e alguns já sabíamos, e como nós não saberíamos se lemos Trótski ou éramos trotskistas, mas não fizemos igual, porque fomos estúpidos e generosos, como são os jovens, que tudo dão e não pedem nada em troca, e agora destes jovens não sobrou nada, os que não morreram na Bolívia foram mortos na Argentina ou no Peru, e aqueles que sobreviveram foram morrer no Chile ou no México, e aos que não mataram lá, mataram depois na Nicarágua, na Colômbia, em El Salvador. Toda a América Latina está semeada com os ossos destes jovens esquecidos. E essa é a mola que move a Cervantes para escolher os militares em descrédito da poesia. Seus companheiros também estavam mortos. Ou velhos e abandonados, na miséria e na indiferença. Escolher era escolher a juventude e escolher os derrotados e os que não tinham nada. E isso faz Cervantes, escolhe a juventude. E mesmo nesta debilidade melancólica, neste vazio da alma, Cervantes é o mais lúcido, pois ele sabe que os escritores não precisavam de ninguém para lhes exaltar o ofício. Nós nos exaltamos a nós mesmos. Muitas vezes a nossa forma de exaltação é maldizer o momento em que decidimos ser escritores, mas no geral aplaudimos e dançamos quando estamos sozinhos, porque este é um ofício solitário, e recitamos a nós mesmos nossas páginas, que é a forma de nos exaltarmos, e não precisamos que ninguém nos diga o que precisamos fazer e muito menos que após um levantamento o nosso ofício é eleito o mais honroso de todos. Cervantes, que não era disléxico, mas que o exercício da milícia deixou aleijado, sabia perfeitamente o que dizia. Literatura é um ofício perigoso. O que nos leva diretamente ao Alfred Jarry, que tinha uma arma e gostava de disparar, e ao número 11, do lado esquerdo, olhando de lado enquanto passa como uma bala a placa e a casa onde morou Dom Rômulo, que a esta altura do discurso já não está tão zangado comigo, nem vai aparecer em sonhos a Domingo Miliani para perguntar por que eles me deram o prêmio que leva seu nome, um prêmio muito importante para mim, eu sou o primeiro chileno a obtê-lo, um prêmio que dobra o desafio, se isso for possível, se o desafio pela sua própria natureza, em prol da sua própria virtude, não foi anteriormente dobrado ou triplicado. Um prêmio, segundo este, seria um ato gratuito e agora que eu o penso, penso que é verdade, algo tem de ato gratuito. É um ato gratuito de não falar sobre o meu romance ou os seus méritos, mas da generosidade de um júri. (A propósito: até ontem não sabia de nada). Devemos ser claros, porque, como os veteranos de Lepanto, em Cervantes, e como os veteranos das guerras floridas na América Latina, minha única riqueza é a minha honra. Eu leio e não creio. Eu falando de honra. Pode ser que o espírito de Dom Rômulo apareça no domingo não a Miliani, mas a mim. Estas palavras são escritas em Caracas (Venezuela) e uma coisa é clara: Dom Rômulo não pode me aparecer em sonhos, pela simples razão de que eu não consigo dormir. Lá fora os grilos cantam. Calculo, de uma olhada, que sejam cerca de dez mil ou vinte mil. O canto de um desses grilos é, talvez, a voz de Dom Rômulo, confuso, ditosamente confuso, na noite venezuelana, na noite americana, na noite de todos nós, aqueles que dormem e aqueles que não conseguem dormir. Eu me sinto como Pinóquio.

http://www.letraslibres.com/index.php?art=6011

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Lo leo y no lo creo. Yo hablando de honra

Publicado por: estrelaselvagem | Abril 7, 2010

Tertulia in vitro − Os Detetives Selvagens

Comala.com − 26 de julho de 1999

Literatura, América-Latina e o Prêmio Rômulo Gallegos

Roberto Bolaño, em sua visita a Caracas para receber o Prêmio Rômulo Gallegos por seu romance Os Detetives Selvagens, conversou conosco sobre literatura latino-americana, sua “iniciação ao realismo visceral” e a importância de se ganhar prêmios.

Tertulia in vitro − Os Detetives Selvagens



Rubén Wisotzki (moderador): Dizem que é muito difícil para o autor literário não estar presente em suas obras. Onde podemos encontrar Bolaño em Os Detetives Selvagens?

Roberto Bolaño: Em todas as partes e em nenhuma. Tudo isso é muito relativo.

Lucas Ramírez: Me questionava se o senhor concorda com Savater que a forma mais ética de viver é amar a si mesmo antes de tudo para poder realmente amar os demais, sem falsos moralismos ou a tão na moda solidariedade.

Roberto Bolaño: Creio que é muito bom amar a si mesmo. Mas creio que é muito mais “ético” o compromisso com os demais. Por outro lado, não creio que a solidariedade seja uma moda. Minha geração, por exemplo, fez da solidariedade uma prática da aventura, e ainda que finalmente tudo tenha saído mal, a experiência em si não foi tão má assim. O hedonismo, na verdade, me parece fastidioso. Mas, claro, tudo é uma questão de conceitos.

Rubén Wisotzki (moderador): Por acaso as experiências amorosas de seus personagens são ou foram as suas experiências?

Roberto Bolaño: Muitas das experiências sexuais de meus personagens foram minhas experiências, é claro.

Florangel Gómez: Seu romance me pareceu muito masculino, para ser melhor desfrutado por homens. A isto relacionei o fato de que a única mulher do júri retirou seu voto. O que o senhor pensa a respeito?

Roberto Bolaño: Não creio que meu romance seja um romance masculino. Efetivamente, não creio que existam “romances masculinos” ou romances femininos. O fato de que Ángeles Mastretta não tenha gostado do meu romance, pois se queres que eu te diga, não creio que seja uma questão de sexo senão uma questão de gosto literário. Eu li algumas páginas de Mastretta e até me pareceu uma literatura bastante masculina.

Zuleiva Vivas: Estão todas as suas obras “amarradas” umas com as outras, os personagens dos romances sempre aparecem pelos cantos?

Roberto Bolaño: Não, Zuleiva, alguns personagens aparecem e se repetem, e só em algumas novelas e em alguns contos, não em toda a minha obra.

Teófilo Policastro: Enquanto que para o senhor a literatura é como um trabalho, árduo, pesado, fastidioso, igualmente você a entende como uma área em que há de se ser tremendamente competitivo?

Roberto Bolaño: No mercado da literatura há que ser tremendamente competitivo. O que acontece é que eu não me sinto parte do mercado, ainda que de certa forma esteja nele. Com isto quero dizer que meus livros são vendidos, entram no circuito das navalhas, mas também quero dizer que eu não faço nada para estar e para permanecer nele. O mercado da literatura, por outra parte, não tem nada a ver com a literatura real, aquela que se faz na solidão, sem pensar nos leitores e muito menos nas vendas, como um exercício de liberdade e como um exercício que envolve altas doses de perigo.

Teófilo Policastro: Quais são as doses de perigo que “envolvem escrever na solidão”?

Roberto Bolaño: Escrever é perigoso. Se a literatura não é perigo, não é nada. E te repito, Teófilo, que não tenho nada a ver com o mercado. Cobro, me preocupam seus cheques, mas não tenho nada a ver com ele.

Ricardo Bello: Quais são os cinco autores da literatura que mais leu? Quais são os autores que mais te influenciaram em sua maneira de ver o mundo como construtores de realidade?

Roberto Bolaño: Primeira pergunta: Mark Twain, Victor Hugo, Stendhal, Flaubert, Balzac. Creio. Em outro momento poderia dar outros cinco nomes. Segunda pergunta: não sei.

Nanda López: Como se sente quando o consideram um dos escritores de relevância do boom latino-americano?

Roberto Bolaño: Quem me considera assim?

Zuleiva Vivas: Você explorou a escritura idealizando estratégias “para fazer leitores”?

Roberto Bolaño: Para nada. Para nada!

Amambay Guevara: Olá, obrigado por estar no cyberespaço, gostaria de saber qual o romance que sonha em escrever?

Roberto Bolaño: Um romance que se chamará 2666.

Sonia González: Você falou de compromisso: qual o compromisso que sente com mais força, Bolaño?

Roberto Bolaño: O compromisso com meu filho Lautaro, de nove anos.

Ricardo Bello: Conhece as obras do escritor norte-americano Don De Lillo?

Roberto Bolaño: Claro. De Lillo é um dos melhores escritores vivos que há no mundo. Gosto de De Lillo.

Marisela Huerta: Venezuela recebeu muitos exilados do Sul. Sei das decisões que se tomam quando se escolhe um novo país. Quais foram suas considerações, se houve, no momento de deixar o Chile e decidir por um novo destino?

Roberto Bolaño: Nenhuma. Eu então tinha 20 anos e acreditava que em todas as partes seria mal recebido e então dava na mesma qualquer lugar. Em qualquer caso, estivesse onde estivesse estaria melhor que no Chile.

Ruben Wisotzki (moderador): Quem é o De Lillo da literatura latino-americana para o senhor?

Roberto Bolaño: Esta é uma pergunta difícil. Às vezes, Rodrigo Rey Rosa. Acontece que RRR escreve contos, a maioria, além do mais, muitos breves, e De Lillo escreve romances, a maioria extensos.

Ricardo Bello: Gosto de Underworld, seu último romance, mas gostei muito de Mao II. Qual mais te agradou?

Roberto Bolaño: Não conheço Underworld. Mao II é realmente esplêndido. Tanto quanto Ruído Branco, de que já ia dizer.

Ricardo Bello: Se gosta de De Lillo, te agradaria ler Bruce Sterling, um escritor de ficção científica com muito humor. Seu romance Holy Fire é fabuloso. Acaba de publicar outro, Distraction, mas ainda não li. Luz igual de ácido, ácido como hiper-realista, sem piedade nas imagens e diálogos.

Roberto Bolaño: Não conheço Sterling. Tomo nota. Meu escritor favorito de ficção científica é Philip K. Dick. E um esquecido: James Tiptree Jr., que na realidade é uma mulher, uma das maiores dos EUA, chamada Alice Sheldon.

Ricardo Bello: Philip K. Dick é o mestre de todos eles, é verdade, mas na nova geração, e quase igual aos bons, creio que os melhores são Sterling e William Gibson. Uma pergunta: este romance 2666 seria uma ficção científica? Se passa na América Latina?

Roberto Bolaño: Em partes, será de ficção científica. Transcorre no estado de Sonora, no norte do México, e no Arizona.

Zueiva Vivas: Se considera um escritor latino-americano?

Roberto Bolaño: Sim. Ficaria encantado em ser um escritor belga. Mas sou latino-americano.

Zueiva Vivas: A respeito de cinema e literatura, alguns filmes influenciaram sua escrita?

Roberto Bolaño: Em minha escrita, poucos, talvez nenhum. Na minha vida, muitos. Sin aliento (À bout de souffle, 1959), de Godard, por exemplo.

Nury Jiménez: Vejo por suas respostas e pela entrevista ao El Nacional que o senhor é, como dizemos por aqui, muito ácido ou descrente. O senhor enfrenta a vida com desconfiança?

Roberto Bolaño: Enfrento a vida com muitos temores.

Zueiva Vivas: A que horas escreve? Quantas horas ao dia? Consome algum tipo de estimulante para concentrar-se na escrita, café, etc?

Roberto Bolaño: Pela manhã. Muitas, demasiadas para o meu gosto. Fumo.

Teófilo Policastro: Posso parecer um pouco obstinado, mas já não me meto com o assunto do mercado. Mas, qual o perigo de escrever?

Roberto Bolaño: O de perder a cabeça, em mais de um sentido.

Luis Martínez: Sr. Bolaño, já teve a ocasião, seguramente, de conhecer algo do presidente Chávez, muito dado a citar escritores. Se lhe pedisse uma recomendação literária, que lhe diria?

Roberto Bolaño: Poemas y antipoemas, de Nicanor Parra.

Maurica Salazar: Não lhe parece que há muitos livros? Não lhe angustia estar contribuindo com mais? Um beijo e felicidades.

Roberto Bolaño: Eu creio que nunca há livros demais. Há livros ruins, péssimos, piores, etc., mas nunca livros demais.

Ruben Wisotzki (moderador): Que defeito encontra em sua literatura e qual acerto?

Roberto Bolaño: Querido Wisotzki, a verdade é que eu não sei, mas prometo que vou investigar.

Ruben Wisotzki (moderador): Até aqui Roberto Bolaño se conectou com todos os internautas. Em poucos segundos partirá para se informar da saúde de seu filho. Para finalizar, que livro já leu para seu filho que deseja seguir lendo para sempre?

Roberto Bolaño: Peter Pan. Adeus. Obrigado.

Encontrado em: http://www.comala.com/modelo/tertulia-comala.asp?toc=4

Publicado por: estrelaselvagem | Março 25, 2010

Estrangeiro me sinto em todas as partes

El Tiempo, Colômbia, 3 de janeiro de 2003.

Literatura / Roberto Bolaño fala com El Tiempo na Espanha

‘Estrangeiro me sinto em todas as partes’


O autor de Os Detetives Selvagens e Putas Assassinas, entre outras obras, é um dos escritores mais importantes da atual literatura hispano-americana. Obteve os prêmios Herralde de romance e o Rômulo Gallegos.

Roberto Bolaño vive a duas quadras do mar, em Blanes, um povoado de trinta mil habitantes a meia hora de Barcelona. Vive na casa de sua mulher com os dois filhos, que agora dormem. Prefere a tranquilidade ao barulho, prefere o cárcere silencioso e às vezes insuportável da escritura. Lá fora, uma lua outonal ilumina o resto da noite. Nos corredores da casa há uns três mil livros. Bolaño fuma ansioso e toma uma Coca-cola, porque o licor lhe prejudicou o fígado. A ironia brilha em seus olhos. O escritor chileno de 54 anos não gosta de entrevistas, pensa que tudo o que importa está nos seus livros, mas aceitou conversar sobre alguns assuntos.

A princípio você trabalhou com poesia, gênero cada dia mais isolado do mundo editorial. Que pensa da poesia como arte e como fenômeno nos tempos atuais?

Não creio que a poesia vá desaparecer. A cada certo tempo, suspeito, a poesia sofre metamorfoses, transformações, hibridismos. É claro, não há como vender muitos livros de poesia, como acontecia com os livros de Byron, mas segue-se sendo possível ser Lord Byron, o que é suficiente. Talvez a poesia sobreviva agora em alguns romances. Ou em formas que não são consideradas artísticas, formas bastardas, produto do gueto e da marginalização. Talvez quando morrer o último poeta lírico a poesia renasça de suas cinzas.

Em Os Detetives Selvagens há eixos que se sobressaem. Um é o exílio, um exílio que abarca, entre outros países, México e Espanha.

Curiosamente nunca me senti exilado. Talvez se tivesse vivido na Suécia, ainda que suspeito que nem na Suécia. Me senti, sim, estrangeiro; mas estrangeiro me senti em todas as partes, começando pelo Chile. Como fui uma criança pedante, já desde criança me sentia estrangeiro.

Você é um desencantado da política ou seu exílio buscou mais a liberdade individual?

A única liberdade em que creio é a liberdade individual. Ou no conjunto das liberdades individuais. Uma liberdade individual, a que temos na mão, bastante vicária, bastante turva, mas que no momento é a única que temos. E não sou um desencantado da política, ainda que motivos não me faltam, nem a mim nem a ninguém, pois a política por regra geral é um ninho de serpentes. Sigo sendo de esquerda e sigo crendo que a esquerda, desde mais de sessenta anos, mantém em pé um discurso vazio, uma representação oca que só pode soar bem (essa catarata de lugares comuns) à canalha sentimental. Na realidade, a esquerda real é a canalha sentimental quintessenciada.

Muitos anos depois da queda violenta de Salvador Allende, como vê o Chile à distância?

Tenho a impressão que a democracia está assentando, o que é uma grande coisa, e de que a sociedade lentamente volta a aprender a conviver. É claro, a custa de algumas perdas de memória, de algumas lobotomias.

Em Os Detetives Selvagens se narra o mundo dos poetas jovens de duas décadas, suas penúrias e sonhos, é como uma desmistificação do intelectual, uma humanização do artista. Que pensa disto?

Quando entrego um romance ao meu editor, não volto a pensar nele.

Que escritores foram chaves de sua educação sentimental literária e quais não aconselharia a leitura?

Cervantes, Stendhal, Rimbaud, Poe. E que cada um leia o quiser e puder. Eu, ao menos esta noite, me sinto incapaz de desaconselhar qualquer coisa.

Da narrativa atual, o que o atrai?

Da narrativa latino-americana: Rodrigo Rey Rosa, Daniel Sada, Rodrigo Fresán, Alan Pauls.

Que pensa do autobiográfico na literatura?

Tudo, de alguma maneira, é autobiográfico, o que demonstra, por acaso, a inutilidade de se escrever autobiografias.

Que significa para você a data de 11 de setembro?

Uma putaria. O início de um baile parecido com o de San Vito. A queda de Allende mais a festa nacional da Catalunha, que comemora outra derrota, mais o ataque dos suicidas às Torres Gêmeas, que vem a ser uma terceira derrota da cultura frente à religião. O 11 de setembro catalão eu não vivi na carne, e se tivesse vivido não calaria, pois isso significaria que sou um vampiro ou um imortal. O 11 chileno eu vivi e padeci, e como tinha vinte anos, também o desfrutei. Os jovens ignoram a morte. Só querem sua dose de adrenalina e sexo, e eu também. O 11 novaiorquino me pegou em Milão, com minha mulher e meus dois filhos, e quando vi a explosão, no primeiro momento, pensei nas imagens que tínhamos nos anos 80 sobre a Terceira Guerra Mundial. É claro que voltamos para o hotel de imediato.

Está escrevendo um romance extenso. Que pode dizer a respeito?

O romance tem mais de mil páginas, e, como pode imaginar, é impossível resumi-lo. Escrever algo tão longo cansa. Trabalhar cansa, como disse Pavese. E eu me canso, além disso, com uma facilidade incrível. Mas este é meu trabalho, e tenho que seguir.

Que te vem à cabeça ao escutar estes nomes?

César Vallejo: a virtude e a torção. A lírica que se autodevora.

Juan Carlos Onetti: para maiores de trinta e três anos.

Jorge Luis Borges: o centro do cânone da América Latina.

Pablo Neruda: dois livros extraordinários e nada mais.

Gabriel García Márquez: um homem encantado de ter conhecido tantos presidentes e arcebispos.

Mario Vargas Llosa: o mesmo, só que mais polido.

Guillermo Cabrera Infante: um escritor estranho.

Na verdade, de todos os escritores que me citou, só me interessam Vallejo, Onetti e Borges.

***

Por Alfonso Carvajal
Especial para EL TIEMPO
Blanes (España)

Encontrado em: http://www.eltiempo.com/archivo/documento/MAM-1032529

Publicado por: estrelaselvagem | Março 22, 2010

O Questionário de Proust

O questionário de Proust – As Respostas de Bolaño

Roberto Bolaño, escritor chileno residente na Espanha, autor de Llamadas Telefónicas, Monsieur Pain e Os Detetives Selvagens, acaba de produzir Los Perros Románticos, uma seleção de livros anteriores e poemas inéditos. Em uma visita recente ao Chile se autoqualificou como o melhor narrador de sua geração.

“Aos 46 anos, se algo me desagradasse em minha imagem, seria um palerma. Tudo me desagrada, mas o assumo com resignação”

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Qual seu defeito mais deplorável?

Sou uma pessoa cheia de defeitos, e todos são deploráveis.

Qual defeito mais deplora nos outros?

A intransigência, a prepotência, a intolerância.

Qual seu estado mental mais comum?

Nos limites da idiotez, como quase todos os seres humanos.

Como gostaria de morrer?

Fazendo amor. (Na verdade qualquer um gostaria de morrer assim).

Se depois de morto tivessse que voltar à Terra, gostaria de voltar convertido em que coisa ou pessoa?

Um colibri, que é o menor dos pássaros e cujo peso, em algumas ocasiões, não chega a duas gramas. A mesa de um escritor suíço. Um réptil do deserto de sonora.

E se pudesse escolher um personagem de ficção, qual escolheria?

Super Mouse. Pernalonga. Ligeirinho.

Qual a sua maior extravagância?

Minha grande coleção de wargames de mesa e minha pequena coleção de wargames de computador.

Em que ocasiões você mente?

Quando falo de pintura abstrata. Quando falo de poesia metafísica.

Que pessoa viva te inspira mais desprezo?

São muitos, e já sou demasiado velho para estabelecer um ranking.

Que pessoa viva admira?

Admiro as mães e avós da Praça de Maio. Pessoas como elas.

Que palavras ou frases usa mais?

“Foder” e “boceta”

Qual sua idéia de felicidade perfeita?

Minha felicidade imperfeita: estar com meu filho e que ele esteja bem. A felicidade perfeita, sua busca, gera imobilidade ou campos de concentração.

Qual seu maior medo ?

Qualquer coisa que cause algum dano ao meu filho.

Qual seu maior remorso?

São muitos, e se deitam, e levantam comigo, e escrevem comigo porque meus remorsos sabem escrever.

Qual a virtude mais valorizada socialmente?

O êxito, mais o êxito não é nenhuma virtude, é só um acidente.

O que te desagrada mais em sua aparência?

Aos 46 anos, se algo me desagradasse em minha imagem, seria um palerma. Tudo me desagrada, mas o assumo com resignação.

Quais são seus nomes favoritos?

De homem, Lautaro. De mulher, Carolina, Lola, Maria. De cachorro, Laika, Duque, Popi.

Que talento desejaria ter?

Saber tocar violão. Saber jogar futebol. Ser um bom jogador de bilhar.

O que te desagrada mais?

A má educação.

Quando e onde você foi mais feliz?

Eu sempre fui feliz. Ao menos, razoavelmente feliz. E em lugares e datas nas quais a felicidade não era precisamente o que mais abundava.

Se pudesse, o que mudaria em sua família?

Nada. Primeiro porque não posso. Segundo porque é impossível.

Qual é seu maior objetivo?

Meu maior objetivo seria que meu filho se recorde de mim com carinho. E que meus amigos, de vez em quando, também. Mas isto é uma batalha futura.

Qual sua posse mais valiosa?

Meus livros.

Qual a manifestação mais clara da miséria?

As crianças que morrem de fome, os que morrem por enfermidades fáceis de combater, as crianças que sofrem abusos sexuais, as crianças que têm que trabalhar, as que são matratadas por seus pais. A manifestação mais clara de nossa miséria e de nosso fracasso como seres humanos é isto e Auschwitz.

Onde desejaria viver?

Se tivesse muito dinheiro, em Andaluzia, sem escrever nem fazer nada, passar o dia nos bares, conversando.

Qual seu passatempo favorito?

Ver vídeos até as cinco da manhã.

Qual a qualidade que você mais aprecia em uma mulher?

A inteligência e a bondade, igual nos homens. Em terceiro lugar o humor, ainda que sem inteligência e bondade o humor se dá por acréscimo.

Qual a qualidade que você aprecia mais em um homem?

Creio que esta pergunta já esteja respondida. Acrescentemos uma quarta qualidade, desejável, mas não exigível: o humor.

Qual seu herói de ficção favorito?

Julien Sorel. O Pijoaparte de Marsé. Horácio Oliveira de Cortázar. O Superman. O padre Brown. Don Isidro Parodi. O Cristo de Elqui.

Quais são seus heróis da vida real?

Os mesmos que já mencionei. Acrescentaria Misael Escuti e Honorino Landa. Acrescentaria Baudelaire e Oscar Wilde.

Encontrado em: http://www.tercera.cl/diario/2000/03/19/t-19.01.3a.REP.BOLANOS.html

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