Publicado por: estrelaselvagem | 27 de Março de 2012

Deixo-me plagiar com total tranquilidade

Deixo-me plagiar com total tranquilidade

por Álvaro Matus

“Não estou dando entrevistas por telefone, porque mexo com a língua e sempre me saio como um idiota. Vamos conversar por e-mail… o meu meio é a escritura”, diz Roberto Bolaño, com um tom descontraído, típico de quem está voltando para casa em Blanes (Espanha), após um período de férias em Veneza com sua esposa e dois filhos. Antes disso, comento: “Estranho que o autor de Chamadas telefônicas não goste de conversar por telefone… ao menos não com jornalistas” Bolaño ri e repete que seu meio é a escritura. E tem toda a razão: Bolaño, prêmio Romulo Gallegos de 1999, é um escritor quimicamente puro, um homem que se sente mais confortável escrevendo do que falando. Como os personagens de seus romances e contos, vive em torno da literatura, a ponto de transformar boa parte de sua leituras, viagens e histórias em experiências literárias. Isso se reafirma em Putas Assassinas, livro recém lançado na Espanha e que chega no fim do mês no Chile, do qual oferecemos uma prévia aqui.

São 13 contos, vários deles com seu alter ego, Arturo Belano, e B, que já havia aparecido em Chamadas telefônicas, seu livro anterior de contos. Ambos os personagens vagam pelo México, Espanha e África. Eles se encontram com velhos companheiros, com indivíduos desesperados ou, no caso de B, com revistas literárias que o motivam – como só pode ocorrer a um escritor quimicamente puro – a seguir no rastro de um autor que se encontra abaixo da poeira de uma biblioteca antiga. Como o próprio nome do livro indica, existem prostitutas. Nem todas, porém, são assassinas.

Poderia falar um pouco sobre as motivações do conto “Putas assassinas”, por que do título do livro e o que pensa delas?

Para mim é difícil responder por que escrevo um livro. Seguramente porque é o melhor que sei fazer. O que penso das putas? Bem, eu sempre tive em grande consideração com o ofício e as profissionais, que desfrutam de todo o meu respeito. Todas as putas. As pobres e as de salto alto. Mulheres virtuosas e trabalhadoras, mulheres que parecem saídas simultaneamente de um melodrama mexicano dos anos cinquenta, como das páginas da bizantina Anna Comnena. E, além disso, como se isso não bastasse, eles são a coisa mais próxima de um relógio. Prostitutas são mulheres-relógio por excelência. De Catulo a Baudelaire, todos os poetas as amaram. E quem não as amam ou é um impotente ou um fodido puritano hipócrita da pior espécie.

Tal como acontece em Chamadas telefônicas, há vários personagens à beira da loucura e do suicídio. São preocupações para você?

A loucura e o suicídio, eu acho, são fantasmas muito mais comuns do que as pessoas pensam. De uma maneira que pensamos na loucura e no suicídio como uma forma de escapar da morte ou enganar a morte. É claro que, para mim, a loucura é uma doença que pode ser tratada com drogas e suicídio é uma alternativa tão válida quanto qualquer outra que nós exercitamos no exercício da nossa liberdade de escolha. Mas isso não impede que, em certas ocasiões, se materializem como figuras fantasmagóricas.

Em um dos contos, Enrique Lihn aparece para ti enquanto dormes. Uma vez você disse que ele era importante para você, porque o admirava e respondia tuas cartas. Você respondeu a jovens escritores?

Bem, algumas cartas foram respondidas, outras, a maioria, não; ademais, sempre tenho a impressão que não é a mim que deveriam escrever mas sim para García Márquez, Vargas Llosa, Fuentes e Sabato. Por outro lado, Lihn não era importante para mim por suas cartas, mas sim por sua poesia. Naturalmente, para todo jovem escritor, é envaidecedor que um escritor como Lihn se torne, da noite para o dia, seu correspondente e também envaidece (embora a palavra que melhor se adapta é reconforte) que muitas de suas idéias são compartilhadas com um escritor deste calibre. Quais eram essas idéias? Basicamente, uma visão negra da literatura chilena e literatura em geral.

Você realmente acha que a literatura chilena é só uma literatura imaginária, como você diz no no conto “Carnê de baile”?

Toda literatura nacional é, por sua natureza, literatura imaginária, isso no melhor dos casos; geralmente é apenas uma literatura artificial.

* * *

Bolaño tem a reputação de dizer o que pensa com a mesma facilidade com que fuma um charuto. Seus comentários têm gerado mais de uma polêmica e sempre desconcertam por essa mescla de afirmações relativizadas com juízos categóricos. Agora, está irritado com os escritores que só pensam em si mesmos:

“Todo escritor parece obcecado em se promover e a autopromoção ou o arrivismo, como todo mundo sabe, não deixa tempo para mais nada. Bem, sim, deixa tempo para ser covarde.”

* * *

Se sente parte do mercado literário?

Nem um pouco. Não aceito todos os convites que me fazem nem faço todas as viagens promocionais como fazem outros escritores com vida social. Pelo contrário. Eu moro em uma cidade pequena, sou independente, nunca recebi ajuda oficial de nenhum governo, não vou atrás de publicações ou subvenções. Deixo-me plagiar com total tranquilidade. Meus inimigos (gratuitos) crescem como a grama.

Por que em tuas obras, como La Literatura Nazi en América, por exemplo, adentras o campo da extrema-direita?

Como disse Nicanor Parra, para foder a paciência. Basicamente para foder a paciência. Para rir muito.

* * *

Os 13 contos de Putas Assassinas

O olho Silva: Arturo Belano se encontra em Berlim com um velho amigo que lhe conta como raptou dois garotos em um bordel na Índia.

Gomez Palacios: A breve estadia de um professor de literatura na pequena cidade que dá nome ao relato. Seus dias no México estão contados.

Últimos entardeceres na terra: B., um adolescente que vai de férias para Acapulco com seu pai, entra em um inferno que mudará para sempre a relação dos dois.

Dias de 1978: O protagonista novamente é B., vive na Espanha em companhia de exilados chilenos.

Vagabundo na França e na Bélgica: B é um escritor de algum renome e viaja para a França. Passeia por bordéis e livrarias, onde encontra uma revista que fala sobre Henri Lefebvre. Parte para Bruxelas para conhecer onde viveu o escritor.

Prefiguração de Lalo Cura: Filho de um padre com uma atriz colombiana, Lalo Cura faz uma divertida revisão das fitas em que atuou sua mãe na companhia de Pajarito Gómez. O encontro entre Lalo e Pajarito é algo mais do que um ajuste de contas.

Putas assassinas: “As mulheres são putas assassinas, Max, são macacos enregelados de frio que contemplam de uma árvore doente o horizonte, são princesas que procuram você na escuridão, chorando, indagando as palavras que nunca poderão dizer”*, diz o protagonista antes de assassinar sua nova vítima.

O Retorno: Um fantasma segue o caminho de seu corpo a partir da boate onde morreu até a casa de um prestigiado desenhista necrófilo.

Buba: A história de um jogador de futebol chileno, um espanhol e um africano que levam seu clube ao título graças a um misterioso ritual.

Dentista: Um professor de literatura e seu amigo se impressionam com as histórias de um jovem indiano.

Fotos: Arturo Belano, perdido na África, folheia um álbum de fotografias onde poetas franceses celebram a si mesmos.

Carnê de baile: 69 razões para não dançar com Pablo Neruda. Pares de baile da jovem poesia chilena: “os nerudianos na geometria com os huidobrianos na crueldade, os mistralianos no humor com os rokhianos na humildade, os parrianos no osso com os lihbeanos no olho.”*

Encontro com Enrique Lihn: Roberto Bolaño sonha com escritores jovens que o levam a ver Lihn, que está em uma Santiago que poderia ser de outro tempo, “um tempo atroz que seguia vivendo sem nenhuma razão, só por inércia.”*

em Que Pasa, 22 de setembro de 2001

Tradução de Thiago Candido

Em: http://www.letras.s5.com/bolano1811.htm


                * Trechos da tradução de Eduardo Brandão para a edição da Companhia das Letras.


Responses

  1. Belíssimo trabalho deste blog. Parabéns pelas traduções certeiras!


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