Publicado por: estrelaselvagem | Abril 7, 2010

Tertulia in vitro − Os Detetives Selvagens

Comala.com − 26 de julho de 1999

Literatura, América-Latina e o Prêmio Rômulo Gallegos

Roberto Bolaño, em sua visita a Caracas para receber o Prêmio Rômulo Gallegos por seu romance Os Detetives Selvagens, conversou conosco sobre literatura latino-americana, sua “iniciação ao realismo visceral” e a importância de se ganhar prêmios.

Tertulia in vitro − Os Detetives Selvagens



Rubén Wisotzki (moderador): Dizem que é muito difícil para o autor literário não estar presente em suas obras. Onde podemos encontrar Bolaño em Os Detetives Selvagens?

Roberto Bolaño: Em todas as partes e em nenhuma. Tudo isso é muito relativo.

Lucas Ramírez: Me questionava se o senhor concorda com Savater que a forma mais ética de viver é amar a si mesmo antes de tudo para poder realmente amar os demais, sem falsos moralismos ou a tão na moda solidariedade.

Roberto Bolaño: Creio que é muito bom amar a si mesmo. Mas creio que é muito mais “ético” o compromisso com os demais. Por outro lado, não creio que a solidariedade seja uma moda. Minha geração, por exemplo, fez da solidariedade uma prática da aventura, e ainda que finalmente tudo tenha saído mal, a experiência em si não foi tão má assim. O hedonismo, na verdade, me parece fastidioso. Mas, claro, tudo é uma questão de conceitos.

Rubén Wisotzki (moderador): Por acaso as experiências amorosas de seus personagens são ou foram as suas experiências?

Roberto Bolaño: Muitas das experiências sexuais de meus personagens foram minhas experiências, é claro.

Florangel Gómez: Seu romance me pareceu muito masculino, para ser melhor desfrutado por homens. A isto relacionei o fato de que a única mulher do júri retirou seu voto. O que o senhor pensa a respeito?

Roberto Bolaño: Não creio que meu romance seja um romance masculino. Efetivamente, não creio que existam “romances masculinos” ou romances femininos. O fato de que Ángeles Mastretta não tenha gostado do meu romance, pois se queres que eu te diga, não creio que seja uma questão de sexo senão uma questão de gosto literário. Eu li algumas páginas de Mastretta e até me pareceu uma literatura bastante masculina.

Zuleiva Vivas: Estão todas as suas obras “amarradas” umas com as outras, os personagens dos romances sempre aparecem pelos cantos?

Roberto Bolaño: Não, Zuleiva, alguns personagens aparecem e se repetem, e só em algumas novelas e em alguns contos, não em toda a minha obra.

Teófilo Policastro: Enquanto que para o senhor a literatura é como um trabalho, árduo, pesado, fastidioso, igualmente você a entende como uma área em que há de se ser tremendamente competitivo?

Roberto Bolaño: No mercado da literatura há que ser tremendamente competitivo. O que acontece é que eu não me sinto parte do mercado, ainda que de certa forma esteja nele. Com isto quero dizer que meus livros são vendidos, entram no circuito das navalhas, mas também quero dizer que eu não faço nada para estar e para permanecer nele. O mercado da literatura, por outra parte, não tem nada a ver com a literatura real, aquela que se faz na solidão, sem pensar nos leitores e muito menos nas vendas, como um exercício de liberdade e como um exercício que envolve altas doses de perigo.

Teófilo Policastro: Quais são as doses de perigo que “envolvem escrever na solidão”?

Roberto Bolaño: Escrever é perigoso. Se a literatura não é perigo, não é nada. E te repito, Teófilo, que não tenho nada a ver com o mercado. Cobro, me preocupam seus cheques, mas não tenho nada a ver com ele.

Ricardo Bello: Quais são os cinco autores da literatura que mais leu? Quais são os autores que mais te influenciaram em sua maneira de ver o mundo como construtores de realidade?

Roberto Bolaño: Primeira pergunta: Mark Twain, Victor Hugo, Stendhal, Flaubert, Balzac. Creio. Em outro momento poderia dar outros cinco nomes. Segunda pergunta: não sei.

Nanda López: Como se sente quando o consideram um dos escritores de relevância do boom latino-americano?

Roberto Bolaño: Quem me considera assim?

Zuleiva Vivas: Você explorou a escritura idealizando estratégias “para fazer leitores”?

Roberto Bolaño: Para nada. Para nada!

Amambay Guevara: Olá, obrigado por estar no cyberespaço, gostaria de saber qual o romance que sonha em escrever?

Roberto Bolaño: Um romance que se chamará 2666.

Sonia González: Você falou de compromisso: qual o compromisso que sente com mais força, Bolaño?

Roberto Bolaño: O compromisso com meu filho Lautaro, de nove anos.

Ricardo Bello: Conhece as obras do escritor norte-americano Don De Lillo?

Roberto Bolaño: Claro. De Lillo é um dos melhores escritores vivos que há no mundo. Gosto de De Lillo.

Marisela Huerta: Venezuela recebeu muitos exilados do Sul. Sei das decisões que se tomam quando se escolhe um novo país. Quais foram suas considerações, se houve, no momento de deixar o Chile e decidir por um novo destino?

Roberto Bolaño: Nenhuma. Eu então tinha 20 anos e acreditava que em todas as partes seria mal recebido e então dava na mesma qualquer lugar. Em qualquer caso, estivesse onde estivesse estaria melhor que no Chile.

Ruben Wisotzki (moderador): Quem é o De Lillo da literatura latino-americana para o senhor?

Roberto Bolaño: Esta é uma pergunta difícil. Às vezes, Rodrigo Rey Rosa. Acontece que RRR escreve contos, a maioria, além do mais, muitos breves, e De Lillo escreve romances, a maioria extensos.

Ricardo Bello: Gosto de Underworld, seu último romance, mas gostei muito de Mao II. Qual mais te agradou?

Roberto Bolaño: Não conheço Underworld. Mao II é realmente esplêndido. Tanto quanto Ruído Branco, de que já ia dizer.

Ricardo Bello: Se gosta de De Lillo, te agradaria ler Bruce Sterling, um escritor de ficção científica com muito humor. Seu romance Holy Fire é fabuloso. Acaba de publicar outro, Distraction, mas ainda não li. Luz igual de ácido, ácido como hiper-realista, sem piedade nas imagens e diálogos.

Roberto Bolaño: Não conheço Sterling. Tomo nota. Meu escritor favorito de ficção científica é Philip K. Dick. E um esquecido: James Tiptree Jr., que na realidade é uma mulher, uma das maiores dos EUA, chamada Alice Sheldon.

Ricardo Bello: Philip K. Dick é o mestre de todos eles, é verdade, mas na nova geração, e quase igual aos bons, creio que os melhores são Sterling e William Gibson. Uma pergunta: este romance 2666 seria uma ficção científica? Se passa na América Latina?

Roberto Bolaño: Em partes, será de ficção científica. Transcorre no estado de Sonora, no norte do México, e no Arizona.

Zueiva Vivas: Se considera um escritor latino-americano?

Roberto Bolaño: Sim. Ficaria encantado em ser um escritor belga. Mas sou latino-americano.

Zueiva Vivas: A respeito de cinema e literatura, alguns filmes influenciaram sua escrita?

Roberto Bolaño: Em minha escrita, poucos, talvez nenhum. Na minha vida, muitos. Sin aliento (À bout de souffle, 1959), de Godard, por exemplo.

Nury Jiménez: Vejo por suas respostas e pela entrevista ao El Nacional que o senhor é, como dizemos por aqui, muito ácido ou descrente. O senhor enfrenta a vida com desconfiança?

Roberto Bolaño: Enfrento a vida com muitos temores.

Zueiva Vivas: A que horas escreve? Quantas horas ao dia? Consome algum tipo de estimulante para concentrar-se na escrita, café, etc?

Roberto Bolaño: Pela manhã. Muitas, demasiadas para o meu gosto. Fumo.

Teófilo Policastro: Posso parecer um pouco obstinado, mas já não me meto com o assunto do mercado. Mas, qual o perigo de escrever?

Roberto Bolaño: O de perder a cabeça, em mais de um sentido.

Luis Martínez: Sr. Bolaño, já teve a ocasião, seguramente, de conhecer algo do presidente Chávez, muito dado a citar escritores. Se lhe pedisse uma recomendação literária, que lhe diria?

Roberto Bolaño: Poemas y antipoemas, de Nicanor Parra.

Maurica Salazar: Não lhe parece que há muitos livros? Não lhe angustia estar contribuindo com mais? Um beijo e felicidades.

Roberto Bolaño: Eu creio que nunca há livros demais. Há livros ruins, péssimos, piores, etc., mas nunca livros demais.

Ruben Wisotzki (moderador): Que defeito encontra em sua literatura e qual acerto?

Roberto Bolaño: Querido Wisotzki, a verdade é que eu não sei, mas prometo que vou investigar.

Ruben Wisotzki (moderador): Até aqui Roberto Bolaño se conectou com todos os internautas. Em poucos segundos partirá para se informar da saúde de seu filho. Para finalizar, que livro já leu para seu filho que deseja seguir lendo para sempre?

Roberto Bolaño: Peter Pan. Adeus. Obrigado.

Encontrado em: http://www.comala.com/modelo/tertulia-comala.asp?toc=4

Publicado por: estrelaselvagem | Março 25, 2010

Estrangeiro me sinto em todas as partes

El Tiempo, Colômbia, 3 de janeiro de 2003.

Literatura / Roberto Bolaño fala com El Tiempo na Espanha

‘Estrangeiro me sinto em todas as partes’


O autor de Os Detetives Selvagens e Putas Assassinas, entre outras obras, é um dos escritores mais importantes da atual literatura hispano-americana. Obteve os prêmios Herralde de romance e o Rômulo Gallegos.

Roberto Bolaño vive a duas quadras do mar, em Blanes, um povoado de trinta mil habitantes a meia hora de Barcelona. Vive na casa de sua mulher com os dois filhos, que agora dormem. Prefere a tranquilidade ao barulho, prefere o cárcere silencioso e às vezes insuportável da escritura. Lá fora, uma lua outonal ilumina o resto da noite. Nos corredores da casa há uns três mil livros. Bolaño fuma ansioso e toma uma Coca-cola, porque o licor lhe prejudicou o fígado. A ironia brilha em seus olhos. O escritor chileno de 54 anos não gosta de entrevistas, pensa que tudo o que importa está nos seus livros, mas aceitou conversar sobre alguns assuntos.

A princípio você trabalhou com poesia, gênero cada dia mais isolado do mundo editorial. Que pensa da poesia como arte e como fenômeno nos tempos atuais?

Não creio que a poesia vá desaparecer. A cada certo tempo, suspeito, a poesia sofre metamorfoses, transformações, hibridismos. É claro, não há como vender muitos livros de poesia, como acontecia com os livros de Byron, mas segue-se sendo possível ser Lord Byron, o que é suficiente. Talvez a poesia sobreviva agora em alguns romances. Ou em formas que não são consideradas artísticas, formas bastardas, produto do gueto e da marginalização. Talvez quando morrer o último poeta lírico a poesia renasça de suas cinzas.

Em Os Detetives Selvagens há eixos que se sobressaem. Um é o exílio, um exílio que abarca, entre outros países, México e Espanha.

Curiosamente nunca me senti exilado. Talvez se tivesse vivido na Suécia, ainda que suspeito que nem na Suécia. Me senti, sim, estrangeiro; mas estrangeiro me senti em todas as partes, começando pelo Chile. Como fui uma criança pedante, já desde criança me sentia estrangeiro.

Você é um desencantado da política ou seu exílio buscou mais a liberdade individual?

A única liberdade em que creio é a liberdade individual. Ou no conjunto das liberdades individuais. Uma liberdade individual, a que temos na mão, bastante vicária, bastante turva, mas que no momento é a única que temos. E não sou um desencantado da política, ainda que motivos não me faltam, nem a mim nem a ninguém, pois a política por regra geral é um ninho de serpentes. Sigo sendo de esquerda e sigo crendo que a esquerda, desde mais de sessenta anos, mantém em pé um discurso vazio, uma representação oca que só pode soar bem (essa catarata de lugares comuns) à canalha sentimental. Na realidade, a esquerda real é a canalha sentimental quintessenciada.

Muitos anos depois da queda violenta de Salvador Allende, como vê o Chile à distância?

Tenho a impressão que a democracia está assentando, o que é uma grande coisa, e de que a sociedade lentamente volta a aprender a conviver. É claro, a custa de algumas perdas de memória, de algumas lobotomias.

Em Os Detetives Selvagens se narra o mundo dos poetas jovens de duas décadas, suas penúrias e sonhos, é como uma desmistificação do intelectual, uma humanização do artista. Que pensa disto?

Quando entrego um romance ao meu editor, não volto a pensar nele.

Que escritores foram chaves de sua educação sentimental literária e quais não aconselharia a leitura?

Cervantes, Stendhal, Rimbaud, Poe. E que cada um leia o quiser e puder. Eu, ao menos esta noite, me sinto incapaz de desaconselhar qualquer coisa.

Da narrativa atual, o que o atrai?

Da narrativa latino-americana: Rodrigo Rey Rosa, Daniel Sada, Rodrigo Fresán, Alan Pauls.

Que pensa do autobiográfico na literatura?

Tudo, de alguma maneira, é autobiográfico, o que demonstra, por acaso, a inutilidade de se escrever autobiografias.

Que significa para você a data de 11 de setembro?

Uma putaria. O início de um baile parecido com o de San Vito. A queda de Allende mais a festa nacional da Catalunha, que comemora outra derrota, mais o ataque dos suicidas às Torres Gêmeas, que vem a ser uma terceira derrota da cultura frente à religião. O 11 de setembro catalão eu não vivi na carne, e se tivesse vivido não calaria, pois isso significaria que sou um vampiro ou um imortal. O 11 chileno eu vivi e padeci, e como tinha vinte anos, também o desfrutei. Os jovens ignoram a morte. Só querem sua dose de adrenalina e sexo, e eu também. O 11 novaiorquino me pegou em Milão, com minha mulher e meus dois filhos, e quando vi a explosão, no primeiro momento, pensei nas imagens que tínhamos nos anos 80 sobre a Terceira Guerra Mundial. É claro que voltamos para o hotel de imediato.

Está escrevendo um romance extenso. Que pode dizer a respeito?

O romance tem mais de mil páginas, e, como pode imaginar, é impossível resumi-lo. Escrever algo tão longo cansa. Trabalhar cansa, como disse Pavese. E eu me canso, além disso, com uma facilidade incrível. Mas este é meu trabalho, e tenho que seguir.

Que te vem à cabeça ao escutar estes nomes?

César Vallejo: a virtude e a torção. A lírica que se autodevora.

Juan Carlos Onetti: para maiores de trinta e três anos.

Jorge Luis Borges: o centro do cânone da América Latina.

Pablo Neruda: dois livros extraordinários e nada mais.

Gabriel García Márquez: um homem encantado de ter conhecido tantos presidentes e arcebispos.

Mario Vargas Llosa: o mesmo, só que mais polido.

Guillermo Cabrera Infante: um escritor estranho.

Na verdade, de todos os escritores que me citou, só me interessam Vallejo, Onetti e Borges.

***

Por Alfonso Carvajal
Especial para EL TIEMPO
Blanes (España)

Encontrado em: http://www.eltiempo.com/archivo/documento/MAM-1032529

Publicado por: estrelaselvagem | Março 22, 2010

O Questionário de Proust

O questionário de Proust – As Respostas de Bolaño

Roberto Bolaño, escritor chileno residente na Espanha, autor de Llamadas Telefónicas, Monsieur Pain e Os Detetives Selvagens, acaba de produzir Los Perros Románticos, uma seleção de livros anteriores e poemas inéditos. Em uma visita recente ao Chile se autoqualificou como o melhor narrador de sua geração.

“Aos 46 anos, se algo me desagradasse em minha imagem, seria um palerma. Tudo me desagrada, mas o assumo com resignação”

___________

Qual seu defeito mais deplorável?

Sou uma pessoa cheia de defeitos, e todos são deploráveis.

Qual defeito mais deplora nos outros?

A intransigência, a prepotência, a intolerância.

Qual seu estado mental mais comum?

Nos limites da idiotez, como quase todos os seres humanos.

Como gostaria de morrer?

Fazendo amor. (Na verdade qualquer um gostaria de morrer assim).

Se depois de morto tivessse que voltar à Terra, gostaria de voltar convertido em que coisa ou pessoa?

Um colibri, que é o menor dos pássaros e cujo peso, em algumas ocasiões, não chega a duas gramas. A mesa de um escritor suíço. Um réptil do deserto de sonora.

E se pudesse escolher um personagem de ficção, qual escolheria?

Super Mouse. Pernalonga. Ligeirinho.

Qual a sua maior extravagância?

Minha grande coleção de wargames de mesa e minha pequena coleção de wargames de computador.

Em que ocasiões você mente?

Quando falo de pintura abstrata. Quando falo de poesia metafísica.

Que pessoa viva te inspira mais desprezo?

São muitos, e já sou demasiado velho para estabelecer um ranking.

Que pessoa viva admira?

Admiro as mães e avós da Praça de Maio. Pessoas como elas.

Que palavras ou frases usa mais?

“Foder” e “boceta”

Qual sua idéia de felicidade perfeita?

Minha felicidade imperfeita: estar com meu filho e que ele esteja bem. A felicidade perfeita, sua busca, gera imobilidade ou campos de concentração.

Qual seu maior medo ?

Qualquer coisa que cause algum dano ao meu filho.

Qual seu maior remorso?

São muitos, e se deitam, e levantam comigo, e escrevem comigo porque meus remorsos sabem escrever.

Qual a virtude mais valorizada socialmente?

O êxito, mais o êxito não é nenhuma virtude, é só um acidente.

O que te desagrada mais em sua aparência?

Aos 46 anos, se algo me desagradasse em minha imagem, seria um palerma. Tudo me desagrada, mas o assumo com resignação.

Quais são seus nomes favoritos?

De homem, Lautaro. De mulher, Carolina, Lola, Maria. De cachorro, Laika, Duque, Popi.

Que talento desejaria ter?

Saber tocar violão. Saber jogar futebol. Ser um bom jogador de bilhar.

O que te desagrada mais?

A má educação.

Quando e onde você foi mais feliz?

Eu sempre fui feliz. Ao menos, razoavelmente feliz. E em lugares e datas nas quais a felicidade não era precisamente o que mais abundava.

Se pudesse, o que mudaria em sua família?

Nada. Primeiro porque não posso. Segundo porque é impossível.

Qual é seu maior objetivo?

Meu maior objetivo seria que meu filho se recorde de mim com carinho. E que meus amigos, de vez em quando, também. Mas isto é uma batalha futura.

Qual sua posse mais valiosa?

Meus livros.

Qual a manifestação mais clara da miséria?

As crianças que morrem de fome, os que morrem por enfermidades fáceis de combater, as crianças que sofrem abusos sexuais, as crianças que têm que trabalhar, as que são matratadas por seus pais. A manifestação mais clara de nossa miséria e de nosso fracasso como seres humanos é isto e Auschwitz.

Onde desejaria viver?

Se tivesse muito dinheiro, em Andaluzia, sem escrever nem fazer nada, passar o dia nos bares, conversando.

Qual seu passatempo favorito?

Ver vídeos até as cinco da manhã.

Qual a qualidade que você mais aprecia em uma mulher?

A inteligência e a bondade, igual nos homens. Em terceiro lugar o humor, ainda que sem inteligência e bondade o humor se dá por acréscimo.

Qual a qualidade que você aprecia mais em um homem?

Creio que esta pergunta já esteja respondida. Acrescentemos uma quarta qualidade, desejável, mas não exigível: o humor.

Qual seu herói de ficção favorito?

Julien Sorel. O Pijoaparte de Marsé. Horácio Oliveira de Cortázar. O Superman. O padre Brown. Don Isidro Parodi. O Cristo de Elqui.

Quais são seus heróis da vida real?

Os mesmos que já mencionei. Acrescentaria Misael Escuti e Honorino Landa. Acrescentaria Baudelaire e Oscar Wilde.

Encontrado em: http://www.tercera.cl/diario/2000/03/19/t-19.01.3a.REP.BOLANOS.html

Publicado por: estrelaselvagem | Março 16, 2010

O Território do Risco

Clarín, 11.05.2002

ENTREVISTA COM ROBERTO BOLAÑO

O Território do Risco

Contra a vanguarda e suas máscaras, o narrador chileno expõe aqui sua teoria da literatura como um campo de colisões e desastres. Também traz um comentário sobre seu último livro de contos.

GONZALO AGUILAR.

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Há anos que Roberto Bolaño (Santiago de Chile, 1953) vive em Barcelona. Ali escreveu quase todos os seus livros – A literatura nazi na América, Estrela Distante, Noturno do Chile, entre outros – e ali se transformou em um dos escritores latino-americanos mais importantes dos últimos tempos. Traduzido a uma dezena de idiomas, ganhador do Prêmio Rômulo Gallegos em 1999 por seu romance Os Detetives Selvagens, Bolaño é um dos expoentes desta geração de escritores latino-americanos que lograram narrar os horrores dos anos 70, fazendo uso das potências virtuais da boa literatura. Esta conversa – feita em parte por telefone, em parte por email –, o autor de Putas Assassinas parece falar como se tivesse saído de um sonho.

A propósito da globalização, a crítica Pascale Casanova falou de uma “república mundial das letras”. No seu caso, você se considera um escritor chileno no estrangeiro, um representante latino-americano na Espanha, ou alguém a quem todas estas denominações pesam?

− Lamentavelmente não posso considerar-me nenhuma dessas três coisas. A primeira, um escritor chileno no estrangeiro, se relaciona de algum modo ao que, segundo os controles burocráticos, sou ou pretendo ser. Mas a verdade é que se vivesse no Chile, se nunca tivesse saído do Chile ou houvesse retornado ao Chile depois de um tempo prudencial, agora me sentiria, de igual maneira, um escritor Chileno no estrangeiro. Dizer: sou chileno, é algo com o que vivo com a maior resignação, mas esse ser chileno não me remete, necessariamente, ao que, quase sempre com pouca sorte, se dá em chamar pátria. E se vivesse no Chile me sentiria no estrangeiro. Desde que tenho uso da razão sempre me senti no estrangeiro. Às vezes, em algumas casas, me senti em meu próprio país. Ou em algumas habitações. Ou em algumas camas. Durante um tempo tive um sonho recorrente, e aquele sonho, enquanto o sonhei, era de alguma maneira meu país. Um lugar onde a regulamentação da violência, e, sobretudo, suas consequências, eram diferentes.

− No romance Os Soldados de Salamina, de Javier Cercas, não só você aparece como personagem, mas também se produz uma certa “afinidade eletiva”. Essas afinidades chegam a constituir um grupo em Barcelona, uma nova camada de escritores?

− Não creio que no caso de Cercas haja afinidade eletiva, nem de nenhuma classe. Em todo caso, se há, é em uma só direção, e não de minha parte. A visão que Cercas tem da literatura é diferente da minha. Para mim, a literatura não é só uma eleição estética, mas também uma aposta ética. Não tento conciliar a esquerda com a direita. Para mim, a literatura ultrapassa o espaço da página cheia de letras e frases e se instala no território do risco, e eu diria do risco permanente. A literatura se instala no território das colisões e dos desastres, naqulio que Pascal chamava, se não me engano, o parêntese, que é a existência de cada indivíduo, rodeado de nada antes do princípio e depois do fim. Minhas afinidades neste sentido estão com alguns escritores latino-americanos. Se formamos ou não formamos um grupo que seja algo mais que um grupo de amigos, isto é algo que se verá no futuro.

− Neste grupo está Rodrigo Fresán, sobre cujo último romance, Mantra, você escreveu uma resenha muito elogiosa.

− Me agradou muito, provavelmente é o melhor livro de Fresán, um livro desmesurado, cheio de humor, em algumas ocasiões superviolento, que trata em primeira instância do México, mas que na realidade fala de toda a Latino-américa: o México, neste caso, funciona como os olhos da Latino-américa.  E para mim foi uma dupla felicidade este romance de que tanto gostei: felicidade como leitor e felicidade porque sou amigo de Fresán.

− Em sua literatura parece haver uma visão desencantada das vanguardas. Como viu os atos vanguardistas que levaram a cabo em seu momento no Chile o grupo de Zurita, Diamela Eltit e outros?

A verdade é que não me inteirei, ou me inteirei bastante tarde do que faziam. E tampouco me interessei o bastante. Quase todas as vanguardas artísticas, de alguma maneira, serviram de refúgio para mediocridades impressionantes. Há uma classe de pessoas que necessitam participar do que chamamos arte, mas não estão aptas a qualquer ato de valor, e para acender à arte a primeira coisa de que se necessita, até mesmo antes do talento, é o valor.

− Em vários dos relatos de Putas Assassinas, seu último livro, os suicidas se convertem em heróis de sua literatura. O que o atrai no suicídio?

− Sempre me recordo de uma frase de Cortázar: é preferível ser um suicida que ser um zumbi. Não me atrai nada o suicídio. Mas reconheço nele a liberdade soberana, a possibilidade de o próprio ser escrever ou tenta escrever a última linha. É claro, me refiro ao suicida, não ao assassino. Não me inspira nenhum respeito Hitler se dando um tiro, nem os pobres jovens carregados de explosivos que se fazem explodir nas portas de uma sinagoga. Salvador Allende ou Gabriel Ferrater, que disse que viver além dos cinquenta anos não tinha sentido, e quando fez cinquenta se suicidou. Ou Rodrigo Lira, o melhor poeta chileno da minha geração, que alguns dizem que se suicidou para protestar contra a alta no preço do pão. Todos esses suicídios empedoclianos, que deixam perguntas, mas que também deixam muitas respostas, só que não as sabemos ler.

Encontrado em: http://www.clarin.com/suplementos/cultura/2002/05/11/u-00601.htm

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