Publicado por: estrelaselvagem | 13 de Julho de 2012

Um narrador em sua intimidade

Um narrador em sua intimidade

Clarín, 25.03.2001

Neste texto exclusivo, o escritor chileno mostra os segredos de sua escritura com humor cortante. Um tom irreverente que volta a aparecer em Noturno do Chile, seu romance mais recente publicado pela Anagrama.

por Roberto Bolaño

Minha cozinha literária é, frequentemente, uma sala vazia onde nem sequer há janelas. Eu gostaria, é claro, que houvesse algo, uma lâmpada, alguns livros, um ligeiro aroma de coragem, porém a verdade é que não há nada.

Às vezes, no entanto, quando sou vítima de incontroláveis ataques de otimismo (que acabam, por sua vez, em alergias espantosas), minha cozinha literária se transforma em um castelo medieval (com cozinha) ou em um apartamento em Nova Iorque (com cozinha e vista privilegiada) ou em uma cabana nas montanhas (sem cozinha, porém com uma fogueira). Metido nestes transes geralmente faço o que faz qualquer um: perco o equilíbrio e penso que sou imortal. Não quero dizer imortal literariamente falando, pois assim só um imbecil pode pensar e a tanto não chego, e sim literalmente imortal, como os cães e as crianças e os bons cidadãos que ainda não ficaram doentes. Por sorte ou por desgraça, todo ataque de otimismo tem um princípio e um final. Se não tivesse fim, o ataque de otimismo se converteria em vocação política. Ou em mensagem religiosa. E daí a sepultar livros (prefiro não dizer “queimá-los” porque seria exagerar) há apenas um passo. O certo é que, ao menos no meu caso, os ataques de otimismo acabam, e com eles se acaba a cozinha literária, se desvanece no ar a cozinha literária, e só fico eu, convalescente, e um suave aroma de panelas sujas, pratos mal lavados, molhos podres.

A cozinha literária, digo a vocês, é uma questão de gosto, ou seja, é um campo em que a memória e a ética (ou a moral, se me permitem usar esta palavra) jogam um jogo cujas regras desconheço. O talento e a excelência contemplam, absortas, o jogo, porém não participam. A audácia e o valor participam, porém só em momentos pontuais, o que equivale dizer que não participam muito. O sofrimento participa, a dor participa, a morte participa, porém com a condição de que jogam rindo. Digamos, como um detalhe indesculpável, de cortesia.

Muito mais importante que a cozinha é a biblioteca literária (apesar da redundância). Uma biblioteca é muito mais confortável que uma cozinha. Uma biblioteca se assemelha a uma igreja como uma cozinha cada dia se assemelha mais a um necrotério. Ler, diz Gil de Biedma, é mais natural do que escrever. Eu acrescentaria, que pese a redundância, que também é muito mais sadio, digam o que quiserem os oftalmologistas. Na verdade, a literatura é uma longa luta de redundância em redundância, até a redundância final.

Se tivesse que escolher uma cozinha literária para instalar-me durante uma semana, escolheria a de uma escritora, com a ressalva de que esta escritora não seja chilena. Viveria com gosto na cozinha de Silvina Ocampo, na de Alejandra Pizarnik, na da romancista e poeta mexicana Carmen Boullosa, na de Simone de Beauvoir. Entre outras razões, porque são cozinhas que estão mais limpas.

Algumas noites sonho com minha cozinha literária. É enorme, como três estádios de futebol, com tetos abobadados e mesas intermináveis onde se amontoam todos os seres vivos da terra, os extintos  e os que dentro de não muito tempo se extinguirão, iluminada de forma heterodoxa, em algumas áreas com refletores antiaéreos e em outras com teias e, óbvio, não faltam zonas escuras onde somente se vislumbram sombras impacientes ou ameaçadoras, e grandes telas nas quais se observam, com o rabo do olho, filmes mudos ou exposições de fotos, e no sonho, ou no pesadelo, passeio por minha cozinha literária e às vezes acendo o fogão e me preparo um ovo frito, às vezes incluo uma torrada. E depois acordo com uma enorme sensação de cansaço.

Não sei o que se deve fazer em uma cozinha literária, porém sei o que não se deve fazer. Não se deve plagiar. O plagiário merece ser enforcado em praça pública. Quem diz isto é Swift, e Swift, como todos sabemos, tem mais razão que um santo.

Portanto este ponto é claro: não se deve plagiar, a menos que deixe que te enforquem em praça pública. Hoje em dia, contudo, não se enforcam plagiários. Pelo contrário, recebem bolsas, prêmios, cargos públicos, e, no melhor dos casos, se convertem em best-sellers e formadores de opinião. Que fim mais estranho e feio: formador de opinião. Suponho que significará o mesmo que pastor de rebanho, guia espiritual de escravos ou poeta nacional, ou pai da pátria, ou mãe da pátria, ou tio da pátria.

Em minha cozinha literária ideal vive um guerreiro, que algumas vozes (vozes sem corpo nem sombra) chamam de escritor. Este guerreiro está sempre lutando. Sabe que ao final, aconteça o que acontecer, será derrotado. Contudo, recorre à cozinha literária, que é de cimento, e enfrenta seu oponente sem dar nem pedir ajuda.

* * *

Retirado de Clarín.com.

Tradução de Thiago Candido

Publicado por: estrelaselvagem | 27 de Junho de 2012

O último romance de Javier Cercas

O último romance de Javier Cercas

Quarta-feira, 18 de abril de 2001

Chama-se Soldados de Salamina [Espanha — Tusquets, 2001; Brasil — Biblioteca Azul, 2012] e o narrador é um tal Javier Cercas que evidentemente não é o Javier Cercas que eu conheço e com o qual costumo ter longas conversas sobre os temas mais peregrinos do mundo.

Aquele que conheço está casado, tem um filho, seu pai ainda está vivo. Ao contrário, o narrador de Soldados de Salamina apresenta a si mesmo, desde as primeiras linhas do romance, desta forma: “Três importantes acontecimentos tinham então acabado de se produzir em minha vida: meu pai havia morrido, minha mulher me abandonara e eu abandonara minha carreira de escritor”. As três asseverações são falsas, ou melhor dizendo, neste cruzamento de possibilidades que para maior comodidade chamamos realidade, são falsas, ainda que provavelmente em outra disposição da realidade, ou do pesadelo, sejam verdadeiras.

Este Cercas hipotético prepara uma reportagem sobre o escritor Sánchez Mazas, personagem perfeitamente real e que foi um dos fundadores do fascismo espanhol. Tudo que se conta sobre Sánchez Mazas no romance se cinge irrestritamente (ainda que com Cercas nada é irrestrito) à realidade histórica: a juventude de Sánchez Mazas no romance, seus livros, seus amigos, sua atividade política, suas desgraças. Logo chega a guerra civil e o escritor fascista é encarcerado na zona republicana.

O estopim do romance acontece ao final da guerra e hoje talvez possa parecer-nos uma anedota singular (ou não), mas naqueles tempos era uma prática usual e feroz: Sánchez Mazas e um grupo de prisionairos nacionais são levados a uma pequena localidade catalã e fusilados. Todos morrem, menos Sánchez Mazas, que escapa e que é perseguido sem muito entusiasmo. Em um determinado momento, um dos soldados que o perseguem o encontra, oculto atrás dos matagais. O chefe da tropa pergunta se há algo ali. O soldado republicano observa Sánchez Mazas, olha-o nos olhos e diz que ali não há ninguém. Logo dá a volta e marcha.

A segunda parte do romance conta a história de Sánchez Mazas (que para minha alegria não fez nada de bom exceto dar origem a Sánchez Ferlosio, um dos melhores prosadores espanhóis do século XX) e o interminável desencanto intelectual que nunca se traduziu em desencanto vital de muitos dos falangistas espanhóis.

A terceira parte se concentra no desconhecido soldado republicano que salvou a vida de Sánchez Mazas e aqui aparece um personagem novo, um tal Bolaño, que é escritor e chileno e vive em Blanes, mas que não sou eu, da mesma maneira que o Cercas narrador não é Cercas, ainda que ambos são possíveis e inclusive são prováveis.

Através deste Bolaño o leitor tem acesso à história de Miralles, que passou de soldado em retirada pelo lugar no qual assassinaram os falangistas e tentaram assassinar Sánchez Mazas, e que logo cruzou a fronteira da França e esteve uma temporada num campo de concentração nos arredores de Argeles, e que se alistou, para sair do campo, na Legião Estrangeira Francesa, e que após a derrota da França em 1940 seguiu o general Leclerc na marcha prodigiosa do Magreb até o Chade e que participou de várias batalhas contra os italianos e o Afrika Korps, e que logo, enquadrado na 2ª Divisão blindada francesa, lutou na batalha da Normandia e entrou em Paris e logo combateu na zona de Estrasburgo até que uma mina, já em território alemão, o retirou definitivamente da guerra.

A busca deste Mirales, a quem Bolaño visitou durante três verões em um camping próximo a Barcelona, converte-se na chave do romance. É evidente, Cercas não sabe (seu amigo tampouco) se Mirales estará vivo ou não. Somente sabe que vivia em Dijon, que havia adquirido a nacionalidade francesa e que naquele momento devia ter mais de oitenta anos ou estar morto. A terceira parte do romance é a busca de Mirales, a quem Cercas só quer fazer uma pergunta, na suposição de que aquele seja o soldado que não quis matar Sánchez Mazas: por quê?

Com este romance, saudado com entusiasmo pela crítica e cuja tradução ao francês e ao italiano se concretizou dias antes de que aparecesse nas livrarias espanholas, Javier Cercas se coloca no reduzido grupo de proa da narrativa espanhola. Seu romance joga com o hibridismo, com o relato real (que o mesmo Cercas inventou), com o romance histórico, com a narrativa hiperobjetiva, sem importar-se em trair cada vez que lhe convém estes mesmos pressupostos genéricos para deslizar-se sem nenhum rubor à poesia, à épica, aonde seja, mas sempre adiante.

*

Texto originalmente publicado no livro Entre Paréntesis.

Encontrado em: http://sololiteratura.com/bol/bolanosobresoldados.htm

Tradução de Lucas de Sena Lima

Publicado por: estrelaselvagem | 4 de Maio de 2012

Sempre quis ser um escritor político

Sempre quis ser um escritor político

 

Roberto Bolaño tinha 43 anos quando publicou seu primeiro romance. A crítica espanhola se rendeu incondicionalmente à força estranha de La Literatura Nazi en América (1996), e desde então o nome do autor não deixou de reverberar num sistema de ecos que se resumem na palavra consagração. A euforia poderia parecer excessiva se Bolaño não tivesse se encarregado de responder a provocação de cada elogio com livros cada vez mais ousados e mais sólidos.

Em 1999 publicou Tres (poemas) e seu romance Os Detetives Selvagens levou os prêmios Herralde e Rómulo Gallegos. No ano 2000, o escrito chileno voltou a se iluminar, com Noturno do Chile, e sua narrativa este ano se encerra com a aparição de Putas Assassinas, recém editado pela Anagrama.

Na sua casa em Blanes, uma cidadezinha da Costa Brava, a uma hora de trem de Barcelona, o autor de Chamadas Telefônicas levanta o bocal, escuta, faz silêncio e logo diz que prefere evitar conversas “ao vivo e a cores, nas quais me arrisco a dizer idiotices demais”. Realizar a entrevista por correio eletrônico aparece como saída natural. É tarde, caímos na armadilha de um interlocutor tão lúcido quanto escorregadio, mestre em desmontar as perguntas intrincadas ou pretensiosas demais. Vejamos.

Em Putas Assassinas nos deparamos de novo com a sua própria vida. Nesse trabalho com a autobiografia há uma tentativa de diálogo com o seu destino?

Nunca planejei “trabalhar” com a minha autobiografia. Viver sem trabalhar é algo que para mim parece com a felicidade. De maneira que eu procuro evitar esse e qualquer esforço. Não trabalhar com a minha autobiografia (a palavra autobiografia me dá arrepios), não trabalhar com a escrita, não lavar os pratos, deixar meus filhos fazerem o que quiserem e ficar sentado na frente da tevê assistindo programas de porcaria e resmungando ou rindo. Acho, por outro lado, que as únicas autobiografias interessantes, na verdade as únicas biografias interessantes, são as dos grandes policiais ou a dos grandes assassinos (estas últimas, claro, publicadas com pseudônimo ou anonimamente, ou publicadas post-mortem), porque de alguma maneira quebram esse molde deprimente e real de que o destino dos seres humanos é respirar e um dia parar de fazer isso. O policial e o detetive parecem alheios a essa mecânica. Nas biografias ou autobiografias deles sempre há outra coisa: uma proposta, um jogo, uma palavra cruzada que diz se aproxime do espelho e olhe.

Seu livro novo incorpora elementos inéditos a isso que a crítica já chama de “planeta Bolaño”?

Não não, lamentavelmente tem muito pouca coisa inédita. Na realidade, nenhuma. Já disse Borges, que Wojtyla deveria santificar antes de ser, por sua vez, santificado, desde os gregos os assuntos, pelo menos no Ocidente, são quatro, com sorte cinco. O planeta Bolaño parece muito divertido. Mas não é um planeta. Só um meteorito e além do mais bem inofensivo, desses que caem na Terra e ninguém percebe que caíram a não ser que perfurem o crânio de uma vaca, e aí é o dono da vaca que percebe.

Um pedaço do inferno

Bolaño nasceu em 1953 em Santiago do Chile. Aos quinze anos se mudou para o México, onde viveu de jornalismo e começou a escrever poesia. Desde 1977 mora na Espanha. Tanto por suas declarações quanto por seus livros, nos quais propõe um eterno ajuste de contas com seu país natal, suas relações com o ambiente literário do Chile sempre foram no mínimo tensas. Mais de uma vez Bolaño já se referiu à literatura chilena como entelequia, como um planeta vazio que gira em torno de um sol morto chamado Neruda.

*

O que o Chile representa para você? Parece que seu país se tornou um lugar que você só se interessa em visitar na escrita, e nisso só para apontar zonas obscuras, esse pedaço de inferno que persiste lá.

Bom, o pedaço chileno de inferno é a minha infância e a minha adolescência. E depois o golpe de estado. Mas eu gosto da comida chilena. Não sei se você provou: é uma culinária bem boa. As empanadas, o bolo de milho, as humitas, a caçarola chilena, os mariscos, que talvez sejam os melhores que já comi na vida, esse molho que ali eles chamam de pebre e que é muito simples mas também muito eficaz, o charquicán, que é um prato que vem de antes da Guerra da Independência e que dizem que era o prato preferido de Manuel Rodríguez.

Quando Noturno do Chile foi publicado, você afirmou que se ainda estivesse morando no seu país natal, ninguém teria te perdoado por esse romance…

Suponho que haja pessoas para as quais literatura não seja questão de perdoar ou não perdoar. À direita chilena, pacata e clerical, não acho que tenha sentado muito bem Noturno do Chile.

No conto “Dias de 1978”, o personagem narra o filme Andrei Rublev, de Tarkovski. Te interessa que esse tipo de metáfora oculta funcione como chave?

Não sei se foi Borges quem disse. Talvez tenha sido Platão. Ou talvez Georges Perec. Toda história remete a outra história que por sua vez remete a outra história que por sua vez remete a outra história. Há histórias que são os entes protetores de uma história, há histórias que são as chaves de uma história e histórias que nos levam à beira do vazio e nos obrigam a nos fazermos as grandes perguntas. Eu só conheço uma das perguntas. Como construir uma ponte? E ainda por cima ignoro a resposta.

Nos seus contos há uma violência que nunca termina de se desdobrar, como se estivesse disseminada pelo texto, mas cuja manifestação plena fica depois do ponto final, fora da página…

É que isso é que é o pior da violência. Uma presença que se aproxima. Depois não há violência. Há dor, há humilhação, há coragem ou há morte ou tudo junto, inclusive em algumas ocasiões há liberação, mas não mais a violência.

Seus textos falam frequentemente desse “Vietnã secreto que durante muito tempo foi a América Latina”, com o que sua literatura ganha um matiz político.

Sempre quis ser um escritor político, de esquerda, que fique claro, mas os escritores políticos da esquerda me pareciam infames. Se eu tivesse sido Robespierre, ou não, melhor Danton, numa dessas os enviava para a guilhotina. A América Latina, dentre muitas desgraças, também contou com um time de escritores de esquerda verdadeiramente miseráveis. Quero dizer, miseráveis como escritores. E hoje em dia tendo a pensar que também foram miseráveis como homens. E provavelmente miseráveis como amantes e como maridos ou pais. Uma desgraça. Pedaços de merda aspergidos pelo destino para testar nossa temperança, suponho, porque se pudéssemos viver e resistir a esses livro, com certeza seríamos capazes de resistir a tudo. Enfim, não vamos exagerar. O século 20 foi pródigo em escritores mais que maus, perversos.

No geral, há também uma espécie de erotismo fétido, uma compreensão do sexo pela qual ele quase nunca aparece como festa dos corpos ou gozo mas sim como sujeira ou elemento escuro…

Não acredito nisso. Para azar meu, minha natureza tende ao apolíneo, não ao dionisíaco. E digo com sinceridade, para azar meu, para azar meu.

Apesar das viagens e das mudanças de cenários, há um não sei que de claustrofóbico nestes contos. Talvez pelo ir e vir permanente entre ridículo e desolação, ou talvez porque os personagens suicidas dão ao conjunto uma sensação de beco sem saída?

Desacredito por princípio nos becos sem saída. Não existem becos sem saída. O suicídio é uma saída. E, aliás, uma saída muito civilizada, se bem extrema. O assassino em massa ou o assassino em série ou o assassino passional configuram basicamente um problema de saúde pública. A única coisa que um suicida, seja discreto ou não, configura são umas poucas (mas interessantes) perguntas, e em alguns casos até alguma resposta. O problema é que muito pouca gente sabe ler a escritura dos suicidas e, pelo contrário, muita gente está convencida, entusiasticamente convencida, de que conhece a escritura dos assassinos. Eu gostaria de morar em outro planeta. Mas aguento as pontas.

Mais de uma vez, você afirmou que vem da poesia. Bolaño é no fundo um poeta e um narrador a despeito de si mesmo?

Não sei se a despeito de mim mesmo. Se eu pudesse ter escolhido, provavelmente agora seria um cavaleiro rural belga, de saúde de ferro, solteirão, assíduo dos bordéis de Bruxelas (onde estão as mulheres mais belas da Europa), leitor de romances policiais e que desperdiçaria, com senso comum, uma riqueza acumulada durante gerações. Mas sou chileno, de classe média baixa e vida bastante nômade, e provavelmente a única coisa que eu poderia ter feito era virar escritor, chegar como escritor e principalmente como leitor a uma ordem de cavalaria que eu acreditava cheia de jovens, digamos, temerários, e na qual finalmente, aos 48 anos, me vejo sozinho. Mas estas palavras não são mais que retórica. Meus livros estão lá e eu estou aqui e aqui o mais importante, muito mais importante que a literatura, são meus filhos, meu filho Lautaro, de 11 anos, e minha filha Alexandra, de 8 meses.

Você acredita em que pode acontecer um novo boom da literatura latinoamericana?

Minha religião não me permite responder essa pergunta.

Bem, mas qual é a sua opinião de quando o suplemento Babelia afirma que a “nova literatura do Cone Sul” substitui “a fantasia lírica do realismo mágico por um surrealismo muito mais subversivo, atraído por uma imagética do grotesco?

Eu não posso endossar essa definição de jeito nenhum. A imagética surrealista está tão difundida quanto a televisão. Uma das coisas que eu aprecio na Patricia Highsmith, quem estou relendo por esses dias com um tremendo prazer, é a aparente falta de imagética lírica, de realismo mágico, de fantasia surreal. Para o Natal, nada melhor que uma literatura objetiva, embora Highsmith não seja tão objetiva assim. Também não dá para dizer que o grotesco seja um dos sinais distintivos em relação à narrativa do boom. Onetti, Donoso, o próprio García Marquez, aprofundaram o grotesco como nenhum escritor da minha geração chegou a fazer. Na verdade, a obra desses escritores, digamos, de Borges a Puig e Arenas, é extremamente sólida e rica. Existem muitos poucos romancistas atuais que possuam a ambição de Fernando del Paso, por exemplo, ou o humor e a exatidão de Cortázar. No fim, veremos. Por outro lado, em uma geração cabem escritores de 25 anos e também de 50. Suponho que mais adiante no século 21 já se poderá fazer um balanço, quando a maioria de nós já estiver morta, e se poderá ver se a nossa literatura valeu ou não valeu a pena.

“Pablo Neruda foi o grande poeta enganado”

Frequentemente, as ficções de Bolaño nos permitem adentrar o mundo de suas devoções literárias, e até imaginar quais são os livros que ele já teve e que hoje não suportaria em sua biblioteca.

*

Em Putas Assasinas, quem leva os louros da sua ironia é Neruda. Ele te desagrada como poeta em geral ou o seu mal estar tem mais a ver com a influência dele no sistema literário chileno?

Eu, como digo nesse continho, gosto bastante de Neruda. Um grande poeta americano. Muito enganado, por outro lado, claro, como quase todos os poetas. Não era o sucessor de Whitman, em muitos de seus poemas, na estrutura desses poemas, só conseguimos ver agora um plagiador de Whitman. Mas a literatura é assim, uma selva meio que de pesadelo onde a grande maioria, a imensa maioria dos escritores são plagiadores. Há alguns jovens com voz própria, mas não sabem escrever, o que é um desastre. Aí esses jovens vão a oficinas literárias e quando aprendem a escrever já não têm voz própria. Enfim, que que se pode fazer? Neruda, em algum momento da sua vida, achou que era o paradigma do poeta, e se enganou. Mas a verdade é que todos os poetas, em algum momento de suas vidas, se acham a morte.

Em: http://archivo.lavoz.com.ar/2001/1226/suplementos/cultura/nota73286_1.htm

Tradução de Hugo Crema

Publicado por: estrelaselvagem | 27 de Março de 2012

Deixo-me plagiar com total tranquilidade

Deixo-me plagiar com total tranquilidade

por Álvaro Matus

“Não estou dando entrevistas por telefone, porque mexo com a língua e sempre me saio como um idiota. Vamos conversar por e-mail… o meu meio é a escritura”, diz Roberto Bolaño, com um tom descontraído, típico de quem está voltando para casa em Blanes (Espanha), após um período de férias em Veneza com sua esposa e dois filhos. Antes disso, comento: “Estranho que o autor de Chamadas telefônicas não goste de conversar por telefone… ao menos não com jornalistas” Bolaño ri e repete que seu meio é a escritura. E tem toda a razão: Bolaño, prêmio Romulo Gallegos de 1999, é um escritor quimicamente puro, um homem que se sente mais confortável escrevendo do que falando. Como os personagens de seus romances e contos, vive em torno da literatura, a ponto de transformar boa parte de sua leituras, viagens e histórias em experiências literárias. Isso se reafirma em Putas Assassinas, livro recém lançado na Espanha e que chega no fim do mês no Chile, do qual oferecemos uma prévia aqui.

São 13 contos, vários deles com seu alter ego, Arturo Belano, e B, que já havia aparecido em Chamadas telefônicas, seu livro anterior de contos. Ambos os personagens vagam pelo México, Espanha e África. Eles se encontram com velhos companheiros, com indivíduos desesperados ou, no caso de B, com revistas literárias que o motivam – como só pode ocorrer a um escritor quimicamente puro – a seguir no rastro de um autor que se encontra abaixo da poeira de uma biblioteca antiga. Como o próprio nome do livro indica, existem prostitutas. Nem todas, porém, são assassinas.

Poderia falar um pouco sobre as motivações do conto “Putas assassinas”, por que do título do livro e o que pensa delas?

Para mim é difícil responder por que escrevo um livro. Seguramente porque é o melhor que sei fazer. O que penso das putas? Bem, eu sempre tive em grande consideração com o ofício e as profissionais, que desfrutam de todo o meu respeito. Todas as putas. As pobres e as de salto alto. Mulheres virtuosas e trabalhadoras, mulheres que parecem saídas simultaneamente de um melodrama mexicano dos anos cinquenta, como das páginas da bizantina Anna Comnena. E, além disso, como se isso não bastasse, eles são a coisa mais próxima de um relógio. Prostitutas são mulheres-relógio por excelência. De Catulo a Baudelaire, todos os poetas as amaram. E quem não as amam ou é um impotente ou um fodido puritano hipócrita da pior espécie.

Tal como acontece em Chamadas telefônicas, há vários personagens à beira da loucura e do suicídio. São preocupações para você?

A loucura e o suicídio, eu acho, são fantasmas muito mais comuns do que as pessoas pensam. De uma maneira que pensamos na loucura e no suicídio como uma forma de escapar da morte ou enganar a morte. É claro que, para mim, a loucura é uma doença que pode ser tratada com drogas e suicídio é uma alternativa tão válida quanto qualquer outra que nós exercitamos no exercício da nossa liberdade de escolha. Mas isso não impede que, em certas ocasiões, se materializem como figuras fantasmagóricas.

Em um dos contos, Enrique Lihn aparece para ti enquanto dormes. Uma vez você disse que ele era importante para você, porque o admirava e respondia tuas cartas. Você respondeu a jovens escritores?

Bem, algumas cartas foram respondidas, outras, a maioria, não; ademais, sempre tenho a impressão que não é a mim que deveriam escrever mas sim para García Márquez, Vargas Llosa, Fuentes e Sabato. Por outro lado, Lihn não era importante para mim por suas cartas, mas sim por sua poesia. Naturalmente, para todo jovem escritor, é envaidecedor que um escritor como Lihn se torne, da noite para o dia, seu correspondente e também envaidece (embora a palavra que melhor se adapta é reconforte) que muitas de suas idéias são compartilhadas com um escritor deste calibre. Quais eram essas idéias? Basicamente, uma visão negra da literatura chilena e literatura em geral.

Você realmente acha que a literatura chilena é só uma literatura imaginária, como você diz no no conto “Carnê de baile”?

Toda literatura nacional é, por sua natureza, literatura imaginária, isso no melhor dos casos; geralmente é apenas uma literatura artificial.

* * *

Bolaño tem a reputação de dizer o que pensa com a mesma facilidade com que fuma um charuto. Seus comentários têm gerado mais de uma polêmica e sempre desconcertam por essa mescla de afirmações relativizadas com juízos categóricos. Agora, está irritado com os escritores que só pensam em si mesmos:

“Todo escritor parece obcecado em se promover e a autopromoção ou o arrivismo, como todo mundo sabe, não deixa tempo para mais nada. Bem, sim, deixa tempo para ser covarde.”

* * *

Se sente parte do mercado literário?

Nem um pouco. Não aceito todos os convites que me fazem nem faço todas as viagens promocionais como fazem outros escritores com vida social. Pelo contrário. Eu moro em uma cidade pequena, sou independente, nunca recebi ajuda oficial de nenhum governo, não vou atrás de publicações ou subvenções. Deixo-me plagiar com total tranquilidade. Meus inimigos (gratuitos) crescem como a grama.

Por que em tuas obras, como La Literatura Nazi en América, por exemplo, adentras o campo da extrema-direita?

Como disse Nicanor Parra, para foder a paciência. Basicamente para foder a paciência. Para rir muito.

* * *

Os 13 contos de Putas Assassinas

O olho Silva: Arturo Belano se encontra em Berlim com um velho amigo que lhe conta como raptou dois garotos em um bordel na Índia.

Gomez Palacios: A breve estadia de um professor de literatura na pequena cidade que dá nome ao relato. Seus dias no México estão contados.

Últimos entardeceres na terra: B., um adolescente que vai de férias para Acapulco com seu pai, entra em um inferno que mudará para sempre a relação dos dois.

Dias de 1978: O protagonista novamente é B., vive na Espanha em companhia de exilados chilenos.

Vagabundo na França e na Bélgica: B é um escritor de algum renome e viaja para a França. Passeia por bordéis e livrarias, onde encontra uma revista que fala sobre Henri Lefebvre. Parte para Bruxelas para conhecer onde viveu o escritor.

Prefiguração de Lalo Cura: Filho de um padre com uma atriz colombiana, Lalo Cura faz uma divertida revisão das fitas em que atuou sua mãe na companhia de Pajarito Gómez. O encontro entre Lalo e Pajarito é algo mais do que um ajuste de contas.

Putas assassinas: “As mulheres são putas assassinas, Max, são macacos enregelados de frio que contemplam de uma árvore doente o horizonte, são princesas que procuram você na escuridão, chorando, indagando as palavras que nunca poderão dizer”*, diz o protagonista antes de assassinar sua nova vítima.

O Retorno: Um fantasma segue o caminho de seu corpo a partir da boate onde morreu até a casa de um prestigiado desenhista necrófilo.

Buba: A história de um jogador de futebol chileno, um espanhol e um africano que levam seu clube ao título graças a um misterioso ritual.

Dentista: Um professor de literatura e seu amigo se impressionam com as histórias de um jovem indiano.

Fotos: Arturo Belano, perdido na África, folheia um álbum de fotografias onde poetas franceses celebram a si mesmos.

Carnê de baile: 69 razões para não dançar com Pablo Neruda. Pares de baile da jovem poesia chilena: “os nerudianos na geometria com os huidobrianos na crueldade, os mistralianos no humor com os rokhianos na humildade, os parrianos no osso com os lihbeanos no olho.”*

Encontro com Enrique Lihn: Roberto Bolaño sonha com escritores jovens que o levam a ver Lihn, que está em uma Santiago que poderia ser de outro tempo, “um tempo atroz que seguia vivendo sem nenhuma razão, só por inércia.”*

em Que Pasa, 22 de setembro de 2001

Tradução de Thiago Candido

Em: http://www.letras.s5.com/bolano1811.htm


                * Trechos da tradução de Eduardo Brandão para a edição da Companhia das Letras.

Publicado por: estrelaselvagem | 28 de Fevereiro de 2012

Roberto Bolaño, presente e infinito

Roberto Bolaño, presente e infinito

por Alberto Ojeda

El Cultural.es 23.11.2010


El Cultural senta Jorge Herralde, Ignacio Echevarría, Rubén Medina, Patricio Pron e Alejandro Zambra numa mesma mesa para dissecar sua poliédrica figura.


Na prospecção das infinitas camadas de que se compõem a obra de Bolaño, é possível que estejamos ainda escavando a superfície. Assim acredita, por exemplo, Alejandro Zambra: “Bolaño é infinito; estamos muito longe de esgotá-lo”. O escritor chileno fala em uma mesa redonda organizada por ElCultural.es para dissecar a figura do incomensurável autor de 2666. A ocasião coroa a Semana de Autor, celebrada durante esta semana na Casa de América (local também desta conversa de muitas vozes), e que este ano se concentra exclusivamente nele. Com Zambra, tomam lugar também o editor Jorge Herralde, o crítico Ignacio Echevarría, o poeta e professor mexicano Rubén Medina e o escritor argentino Patricio Pron.

Para radiografar Bolaño, nunca é demais começar pela pessoa além do escritor, embora, como adverte no começo Pron, “seja a parte menos interessante de Bolaño”. Não cabe colocá-lo em dúvida, até porque não lhe falta razão: o mais interessante dos escritores, por mais que alguns se alegrem mergulhando em suas biografias, costuma estar nos papeis que mancharam com suas canetas, em suas máquinas de escrever ou em seus computadores. Mas a mitomania que está inflando sua imagem borrou os contornos da pessoa para convertê-la em ícone, e frente a este fenômeno, convém escutar aos que estiveram com ele cara a cara e com certa habitualidade.

“Generoso e Cruel”

Todos coincidem em dois adjetivos: “generoso” e “cruel”. Generoso na hora de prestar apoio a jovens escritores que lutavam por se fazer escutar. E cruel ao atacar a todos os que tivessem se aboletado no cume da pirâmide do prestígio literário. “Era muito divertido e um excelente e incansável conversador. A prova é que quando o entrevistavam e faziam várias vezes uma mesma pergunta, ele sempre conseguia responder sem se repetir. E também tinha conhecimento enciclopédico de tudo: de poesia francesa, de programas de televisão, de escalações do Barça”, explica Ignacio Echevarría, homem a quem Bolaño confiou a administração de seu legado literário após sua morte.

Herralde reforça aquilo de grande conversador: “Cada vez que se aproximava da editora para me contar seus projetos, fazia um tour por todos os departamentos que durava horas. Depois entrava no meu escritório e nós jogávamos campeonatos de maldades literárias”. Se as paredes desse escritório falassem…

A literatura: o único vício

Nessa deformação da figura de Bolaño, existe um assunto especialmente tenebroso: seu suposto vício em heroína e em outras substâncias. É um rumor em voz baixa que se levou muito em consideração nos Estados Unidos. Nesse país, Bolaño foi acolhido como um escritor marginalizado, indisposto com seus contemporâneos, pobre, viciado em drogas e obsessivo em sua dedicação à literatura. Rubén Medina, companheiro de presepadas infrarrealistas no México, quando os dois eram jovens e pretendiam subverter estamentos literários, nega com tranquilidade: “Ele, quando visitávamos o poeta da vez, estava muito mais interessado em aprender e em fazer perguntas que poderiam depois ser úteis ao escrever do que nos licores. Era muito moderado: tomava uma cerveja no tempo em que os outros já tínhamos tomado várias tequilas”. Jorge Herralde aponta a origem do falatório em um de seus contos, que tem como protagonista um viciado em heroína e que muitos acreditaram ser biográfico, mas que o próprio Bolaño negou que fosse.

“Me parece muito difícil acreditar nisso”, complementa Pron, “porque ele sempre dizia para eu me cuidar, não abusar do álcool e comer muitas frutas e verduras” [risos na sala]. Pron explica que Bolaño dava esses conselhos para que ele roubasse tempo à morte e pudesse escrever mais livros. Bolaño também aplicava essa receita a si mesmo, com o desespero de saber que a morte o esperava na volta da esquina, mas impôs a si mesmo finalizar sua obra magna, 2666, um romance de mais de mil páginas. “Seu compromisso com a literatura”, continua, “era total”. A não ser da própria sobrevivência, estava acima de tudo. “Escrever era um fim em si mesmo, não um meio de obter benefícios políticos nem de ascender socialmente”, conclui Pron, que entrevistou Bolaño na Universidade de Göttingen quando ele andava de turnê pela Alemanha e depois manteve com ele uma intensa correspondência digital. “Os dias em que tinha mensagem dele eram mais felizes”.

A conversão de Bolaño em um “fetiche pop”, como adverte Ignacio Echeverría, é um risco que corre o escritor morto prematuramente e alçado ao altares da literatura de forma quase unânime. Nas ruas de algumas cidades, como Santiago do Chile ou Barcelona, se veem grafites com sua cara pintada. Mas o autor de Os detetives selvagens tem o antídoto mais eficaz contra esse processo de banalização: sua própria obra. “Sua essência é múltipla. Não criou um universo fechado, como a Macondo de García Marquez, ele abre portas e portas, por isso não dá para reduzir nem simplificar, é impossível”. Está dito: Bolaño é um autor infinito.

In: http://garciamadero.blogspot.com/2011/08/roberto-bolano-presente-e-infinito.html

Tradução de Hugo Crema


Publicado por: lucadisena | 13 de Dezembro de 2011

Bolaño volta à carga com “Putas Assassinas”

Bolaño volta à carga com “Putas Assassinas”

Javier Aspurúa

Um poeta herbívoro e suicida, um narcotraficante ilustrado, um ex-futebolista africano e outro chileno e uns quantos fantasmas protagonizam os contos que o autor de Os Detetives Selvagens lança agora.

“Não esperem nada pornográfico”, avisa de cara Roberto Bolaño, para evitar ansiedades enganosas a respeito do título de seu novo livro, Putas Assassinas. Editado pela Anagrama, o volume – que dará entrada por esses dias nas livrarias espanholas, e chegará no fim do mês às chilenas – consta de treze contos e marca o retorno de Bolaño ao conto, gênero em que tinha entregue – em 1997 – um espécime magnífico, Llamadas Telefónicas.

Enquanto isso, como se sabe, entregou diversos livros de poemas e romances – entre elas, a mais do que premiada Os Detetives Selvagens –, e agora está embarcando numa narrativa monumental que poderia vir a superar as mil páginas. A expressão “putas assassinas”, esclarece o escritor chileno radicado na Espanha, corresponde a um comentário feito em algum trecho do conto que dá nome ao livro (um conto “feminista e violento”, segundo Bolaño), e pronto.

Nos outros contos circulam personagens tão díspares quanto um ex-futebolista africano e outro chileno que foram companheiros no Barcelona, o poeta Enrique Lihn, um fotógrafo homossexual – el Ojo Silva – cara a cara com a prostituição infantil na Índia, um narcotraficante colombiano extremamente ilustrado, um poeta herbívoro que se suicida após a morte de sua mãe, outro suicida, alguns fantasmas e, como não podia faltar, Arturo Belano, o alter ego de Bolaño, que já apareceu em vários livros do autor.

Putas e assassinas. No geral, o sexo é uma entrada ou uma saída?

Tenho a impressão de que é uma entrada; pelo menos depois dos 25 anos é uma entrada. O ruim é que é uma entrada a zonas onde se põem em funcionamento outros fatores, outras emoções, quase todas negativas, como a posse ou os ciúmes ou a uniformização. As pessoas, ao falar de sexo, ficam idiotas. Talvez sempre tenha sido, mas o sexo, o monólogo sexual ou o diálogo sexual, para não falar da relação sexual, as torna ainda mais idiotas e se limita a balbuciar uma série de ideias pré-concebidas, ideias cujo fundo difere em nada do antigo Deus, Rei e Pátria, que, como todos suspeitam (mas não falam), significa Medo, Amo e Jaula.

Que perrengue específico uma puta deve padecer para virar uma assassina?

Não sei, mas sinto muito respeito pelas putas. Trabalhadoras esforçadas como ninguém, e também, com algumas exceções, um grande respeito pelas assassinas.

Como em quase todos os seus livros, em “Putas Asesinas” aparecem muitos personagens chilenos nos lugares mais inverossímeis do mundo. Quando você os encontra em carne e osso, você acha uma coisa terrível, se entusiasma ou fica indiferente?

Os chilenos, como os chineses ou como os norte-americanos ou como os espanhóis, me são totalmente indiferentes, quando não profundamente desagradáveis, como, por exemplo, os funcionários de embaixadas ou essas histéricas que fingem, com uma vontade digna de causa melhor, ser adidos culturais.

O protagonista de um dos seus contos é descrito como “estoico e amável”, um “exemplar de chileno que nunca foi muito abundante no Chile”. Por causa dessa escassez foi que você deixou de vir ao Chile?

Claro que não. Na verdade, minha saúde não me permite fazer viagens longas demais. E quando não é a minha saúde é o meu trabalho. E quando não é o meu trabalho é a minha religião.

Mas pelo menos deve ter lido algo do que se publicou aqui ultimamente.

Minha religião não me permite.

O que você achou da polêmica sobre o lesbianismo de Gabriela Mistral?

Confirma mais uma vez o que todo mundo sabe ou deveria saber: que a esquerda e a direita têm a mesma política em matéria de sexo, assim como têm a mesma política em matéria de cultura, e de economia e de educação e em muitas outras coisas. E também me faz me perguntar em que sessão espírita do Kremlin o fantasma de Gabriela Mistral apareceu a Volodia Teitelboim para designá-lo testamenteiro de suas preferências eróticas.

E você acha que o tempo da Gabriela Mistral está passando?

Eu acho que Gabriela Mistral era uma extraterrestre e, portanto, não tinha nem as nossas necessidades nem os nossos desejos (e acrescentaria que também não tem o talento literário que lhe atribuem com uma facilidade espantosa). Era uma mera extraterrestre extraviada no Chile, na América Latina, que não conseguia se comunicar com a nave mãe para que viessem resgatá-la. E, lógico, sua vida se assemelhou a um pesadelo em algum momento. Suas peregrinações (como costumam dizer os vulgares estudiosos da sua obra) não passam de tentativas de encontrar outros náufragos do seu planeta.

Em Putas Assassinas, em alguns contos aparecem personagens suicidas. Considera atrativo o mistério que todo suicida deixa? Ou o suicídio é um ato de impaciência puro e simples.

É verdade que todo suicida deixa um ou dois mistérios atrás de si, mas também é verdade que deixa, inevitavelmente, quatro ou cinco respostas, o que costumamos temer nos suicidas não é o mistério, quero dizer, as perguntas que essas mortes propõem, senão as respostas que essas mortes põem diante de nós e para as quais, automaticamente, fechamos os olhos. Sobre se o suicídio é um ato de impaciência, não sei, acho que não. Em primeiro lugar (e o bom do suicídio é que não há um segundo lugar), é um ato de liberdade.

No seu livro há um conto sobre futebol. Você teve alguma experiência como jogador?

Minha experiência como jogador de futebol nunca foi totalmente compreendida nem pelos espectadores nem pelos meus companheiros de time. Eu sempre achei mais interessante marcar um gol contra do que um gol. Um gol, a não ser que o sujeito se chame Pelé ou Didi ou Garrincha, é algo eminentemente vulgar e de muito má-educação com o goleiro adversário, que você não conhece e que não te fez nada, enquanto um gol contra é um gesto de independência. Você deixa claro para os seus companheiros e para o público que o seu jogo é outro.

O futebol é uma entrada ou uma saída?

É um circo.

* * *

Em Las Últimas Noticias, terça-feira, 4 de setembro de 2001.

http://www.letras.s5.com/bolano1210.htm

Tradução de Hugo Crema


Publicado por: lucadisena | 4 de Novembro de 2011

Bolaño à volta da esquina.

Bolaño à volta da esquina.

Por Rodrigo Pinto.

O escritor chileno mais reconhecido pela crítica e pelos leitores exigentes fala de seu novo romance, onde finca os dentes, bem fundo, na história e na literatura nacionais do último meio século. Claro que fala também de outras coisas.

Noturno do Chile, o último romance de Roberto Bolaño – que já tem uma dezena de livros publicados – é um extenso monólogo de Sebastián Urrutia Lacroix, sacerdote da Opus Dei e importante crítico literário chileno, que se inicia no começo dos anos 1950, quando era recém-saído do seminário, e termina no ano 2000.

No começo da história, Urrutia Lacroix está doente, com febre, e rememora sua vida, os marcos mais importantes da sua vida, que também são os marcos mais importantes da história de seu país. Pelo monólogo desfilam personagens tiradas tanto da história quanto da imaginação do autor, embora o maior peso recaia sobre o próprio Urrutia Lacroix – que usa o pseudônimo de H. Ibacache, o padre Ibacache, para escrever suas críticas literárias – e Farewell, outra vaca sagrada da crítica nacional. As 150 páginas do romance, embora se tratem apenas de dois parágrafos (o primeiro abrange a totalidade do livro menos uma linha; o segundo é, justamente, essa linha), se leem com extraordinária facilidade.

O título que você pensou originalmente para Noturno do Chile foi “Tempestade de Merda”. Por que mudou?

Basicamente porque meu editor, Jorge Herralde, não gostava, e depois de falar com ele repetidas vezes e dizer o nome do livro repetidas vezes, eu comecei a sentir nojo; tanta “Tempestade de Merda” pode inclusive acabar com a paciência do próprio autor. Juan Villoro também desaconselhou o título original. E não me arrependo. Noturno do Chile expressa com maior fidelidade o que é o romance.

O protagonista de Noturno do Chile, o padre e crítico literário Sebastián Urrutia Lacroix, fala da “falta de ambição e infinito desespero de meus compatriotas”. Um defeito e uma virtude, respectivamente, dos chilenos?

Urrutia Lacroix é bastante lúcido. Nem sempre, mas em ocasiões sim, embora sua lucidez não seja muito diferente da de Farewell, quero dizer, a lucidez de um fazendeiro ilustrado. Geralmente a falta de ambição vem acompanhada de medo ou malevolência. Prefiro acreditar que a falta de ambição do Chile vem acompanhada de desespero infinito. A falta de ambição do Chile ou do México ou da Rússia. A realidade, no entanto, nos indica uma e outra vez que a falta de ambição vem acompanhada de malevolência, no melhor dos casos de uma espécie de letargia que pode nos levar, uma vez mais, a uma certa esperança. Podemos recordar o conto “A Bela Adormecida” e chegar a todo tipo de conclusões. Ou a história da lâmpada mágica, que durante séculos permanece oculta, quero dizer, dormindo.

Os três reconhecidos como grandes da crítica literária chilena são – foram – celibatários, dois padres e um solteirão: Omer Emeth, Alone e Ignacio Valente. Para além do tratamento do exercício crítico que você faz no seu romance, qual é a sua opinião sobre esse fato?

Bom, eu não me atreveria a vê-lo como celibatários, é difícil ser celibatário. Em qualquer caso: ser não é nenhuma maldição. É um transe permanente e que envolve alguma dificuldade. Lewis Carroll era celibatário. As letras inglesas do século XIX estão cheias de escritores para os quais o sexo parecia algo sem interesse. Aí tem algo que tem a ver com a educação, porque os elisabetanos, por exemplo, são pessoas bastante interessadas em sexo. E quase nenhum elisabetano foi ao colégio, como bem se sabe. A única resposta séria que eu posso pensar é que a poesia e a narrativa sempre tiveram os críticos que mereceram.

Em Os Detetives Selvagens, você oferece, entre outras coisas, um olhar global sobre a literatura latino-americana. Vê alguma equivalência entre esse aspecto daquele romance e sua perspectiva sobre a narrativa chilena em Noturno do Chile?

Noturno do Chile tem a mesma estrutura de Amuleto e de outro romance que eu possivelmente já não vá escrever e cujo título seria “Corrida”. São romances musicais, de câmara, e também são peças teatrais, de uma só voz, instável e mimada, entregue a seu destino, em diálogo com seu destino, e talvez, embora nisso último eu provavelmente tenha falhado, em diálogo com a tridimensionalidade que é parte do nosso destino. Essa trilogia virou um dueto.

É fácil interpretar Noturno do Chile como uma romance cifrado, sobretudo tendo em vista o título original que você pensou; mas obviamente se trata de algo mais. Você poderia dizer qual é o núcleo do romance?

Há uma estrutura, como eu dizia antes, que é basicamente musical. E também, é claro, está a tentativa de escrever um romance-rio de 150 páginas, tal como queria Giorgio Manganelli, um dos grandes escritores do século XX, que muitos poucos leram. Noturno do Chile é a tentativa de escrever a vida de uma pessoa em seis, sete ou oito quadros. Cada quadro é arbitrário e ao mesmo tempo, paradoxalmente, é exemplar, se presta à extração de um discurso moral. Cada quadro pode ser lido de forma independente. Todos os quadros estão unidos por galhinhos ou pequenos tubos, que em ocasiões são muito mais velozes, e necessariamente muito mais independentes, do que os quadros em si. Mas temo que explicar a estrutura e o travejamento interno de uma romance não faça muito sentido. Todo romance, basicamente, tem de ir direto ao prazer, o prazer da leitura. E a partir daí aonde possa ou queira.

Roberto Matta saiu faz mais de sessenta anos do Chile, nunca voltou e é considerado uma das glórias da pátria. Em compensação, consideram que você, que está fora há menos tempo e que voltou várias vezes nos últimos anos, não é chileno. Apreciação correta, ingratidão humana ou puxa-saquismo puro e simples?

Matta é um clássico, em uma acepção errada da palavra, porque clássico, o que se considera clássico, é Rembrandt, não?, e mesmo aí haveria reparos a fazer. Mas admitamos, para entendermos que Matta é um clássico, um surrealista que está na superfície quando hoje o surrealismo vive no subsolo e provavelmente não se chama mais surrealismo; talvez Matta seja o último surrealista sub sole e suas obras, como se sabe, se cotam aos olhos da cara nos mercados de arte de Nova York, Paris e Milão. Tudo isso, essa virtude cuja tradução mais justa seria a do ouro, pesa muito na hora das apropriações nacionais. Em todo caso o assunto é absolutamente irrelevante. Não acho que Matta aprecie muito seus defensores pátrios.

Numa entrevista recente, você opinou que não é o objeto da escrita que define a chilenidade. O que é, então?

Não me lembro dessa entrevista. Provavelmente, como sempre, disse muitas bobagens. Não me preocupo com a definição de chilenidade. Também não me interessa a definição – a fixação de fronteiras, quando a natureza das fronteiras é naturalmente difusa – da americanidade, nem da espanholidade, nem da ocidentalidade. Acredito que já temos o suficiente com o mistério do ser humano e suas construções mentais, para não mencionar suas construções reais, tangíveis, que em ocasiões se assemelham à loucura pura e em ocasiões, mais raras, a algo que poderia parecer com a felicidade, a resignação, o vazio.

Vários críticos e escritores opinam que César Aira, Rodrigo Rey Rosa, Juan Villoro e você (e mais um ou outro escritor, dependendo do ponto de vista) são os escritores latino-americanos mais relevantes de sua geração. Você está de acordo?

No que diz respeito a Villoro, Aira e Rey Rosa, completamente de acordo. Eu me excluiria imediatamente. E acrescentaria Rodrigo Fresán, em cuja obra começa a se refletir o grande escritor que é e, sobretudo, que será, e Horacio Castellanos Moya e Carmen Boullosa.

Tirando os recém-mencionados, quais são os escritores de que você mais gosta na sua geração?

Gosto de Padilla e Volpi, do crack mexicano. Do também mexicano Mauricio Montiel. Dos espanhóis José Carlos Somoza, Javier Cercas, Pablo D’Ors. Piglia e Alan Pauls, argentinos. Gosto do peruano Bayly. Do colombiano Santiago Gamboa. Do salvadorenho Castellanos Moya (que eu já mencionei), recentemente publicado na Espanha, e que é o único dos escritores da minha geração que sabe narrar o horror, o Vietnam secreto que a América Latina foi durante muito tempo. Fresán e Boullosa já mencionei. Com certeza estou esquecendo agora de alguém muito bom, e isso que só fiquei no âmbito da narrativa em língua espanhola. Obviamente, faltam Javier Marías e Vila-Matas, herdeiros primogênitos do boom.

Você disse alguma vez que se definia como poeta em primeiro lugar e como romancista em segundo plano. Continua pensando assim? Porque está claro que a narrativa demanda mais tempo de você.

Num país como o Chile, onde nem os especialistas em poesia sabem o que é um dímetro coriâmbico, é perigoso se definir como poeta. Digo que à maioria dos, assim chamados, poetas chilenos é suficiente executar (mal) e entender (pior) o blank verse elisabetano. Acrescento que no Chile se dança a dança do pentâmetro iâmbico não rimado, mas todo mundo (acadêmico) ignora as virtudes do hendecassílabo solto, que vem a ser a mesma coisa que o blank verse. Se somos todos filhos de tigre, por que nos comportamos como gatos?, se perguntava Nicanor Parra. A cada dia tenho suspeitas mais fundadas de que não somos, afinal, filhos de tigre, senão de gatos. E assim nos comportamos como filhotes, e por aí vai.

Um escritor sul-americano, Hernán Rivera Letelier, disse que acha suas obras repetitivas, pouco originais e chatas, que sempre falam das mesmas coisas. O que você acha desse parecer crítico.

Hernán Rivera Letelier está vivendo seu sonho, que ninguém, por outra parte, presenteou, e meu único desejo é que o viva até o final, e que aproveite como um valente. Por outro lado, duvido muito de que Rivera Letelier tenha lido dois livros meus. Na verdade, duvido muito de que tenha lido qualquer livro meu.

Você parece manter uma relação de amor e ódio com o conjunto da literatura chilena. Você se sente parte de uma tradição ou veio fundar uma nova com base nos mesmos materiais?

Eu só espero ser considerado um escritor sul-americano mais ou menos decente que morou em Blanes (perto de Barcelona) e que amou essa cidadezinha. O conjunto da literatura chilena é lamentável. Mas isso não sou eu dizendo, é qualquer um que já leu mais de cem livros na vida. O conjunto da atual literatura francesa, salvo exceções notáveis, também é lamentável, os próprios franceses dizem isso e ninguém, absolutamente ninguém, se mata por isso.

Desculpa te fazer uma pergunta muito repetida: quem você resgataria de verdade da atual narrativa chilena? Sabemos que recomendou Pedro Lemebel ao Jorge Herralde, seu editor espanhol. Existe para você mais alguém que valha a pena?

Não só uma pessoa, mas várias. Acho o Roberto Brodsky um escritor magnífico, e também Gonzalo Contreras. Eu diria que Contreras e Brodsky são os melhores, o primeiro é bem conhecido, e é bom que seja assim, enquanto Brodsky opera num nível mais secreto, construindo uma obra em duas direções aparentemente díspares, por um lado difícil, onde se pode rastrear o peso de Onetti, e por outro lado leve. O melhor conto policial que eu já li, escrito por um autor chileno, é do Brodsky.

Além da sua crítica pela exclusão do Rodrigo Lira, o que você achou da antologia de poesia chilena que o Marcelo Rioseco organizou há pouco?

Ruim. Mas esse é o adjetivo que quase todas as antologias merecem. É muito difícil fazer uma antologia. E quando se trata de poesia, as dificuldades são ainda maiores.

* * *

Em Las últimas Noticias, Domingo, 28 de janeiro de 2001

http://www.letras.s5.com/bolao1.htm

Tradução de Hugo Crema.

Publicado por: estrelaselvagem | 15 de Julho de 2011

Em literatura é quase impossível manter-se a salvo

Em literatura é quase impossível manter-se a salvo

Por Sebastián Noejovich
Revista Lea. Buenos Aires, Argentina. Nº13 – maio de 2001, pág. 44.

O escritor chileno Roberto Bolaño (1953) é hoje uma das figuras mais atrativas das letras latinoamericanas. Em Noturno do Chile, aborda a extraordinária vida de um padre da Opus Dei que se torna crítico literário. A partir disto, propõe uma aproximação paródica com o passado recente de seu país. No povoado catalão de Blanes, onde atualmente reside, ele conversou com Lea sobre seu novo romance.

Suas ficções em geral desenvolvem como espaço narrativo o mundo literário de algumas de nossas cidades latinoamericanas. O que você encontra nesses ambientes que tanto te entusiasma?

O que gosto é de observar a relação que se estabelece entre os homens e seus trabalhos, o que aparentemente carece de mistérios, mas que resulta determinante na hora de se achar um destino, entre outras coisas porque quase sempre a pessoa se equivoca ao eleger um trabalho ou reconhecer uma vocação. Neste sentido, às vezes escolho a literatura como fundo laboral de alguns de meus personagens por uma razão muito simples: porque a conheço. Mas se eu fosse um açougueiro, por exemplo, a decoração de fundo seria a dos açougues, os matadouros, os caminhões frigoríficos. Talvez eu devesse fazê-lo. Não cairia mal um romance de matadores, estripadores, escaupeladores.

O tom sempre paródico com o qual você cerca esses âmbitos literários não será uma forma de suplício, uma maneira de manter-se a salvo dessa grandiloquência e gravidade que é tão característica de alguns “homens das letras”?

Creio que, no fundo, a paródia somente disfarça o desejo enorme de se pôr a chorar. E sobre manter-se a salvo do que seja, não sei o que te dizer, na literatura é quase impossível manter-se a salvo. Tudo é mancha. Suponho que há romancistas que acham o contrário. Deus lhes conserve sua candura (ou sua estupidez) por muito tempo.

Camuflados por esta intenção paródica costumam aparecer, como de contrabando, dados ou anedotas surpreendentemente reais relacionadas com este âmbito: no caso de Noturno do Chile, os saraus literários que se realizavam em uma casa na periferia de Santiago que servia, paralelamente e de forma sub-reptícia, como centro clandestino de interrogatórios durante a ditadura de Pinochet. De onde vem essa predileção sua pelos elementos quase bizarros da história?

Porque isto também é história. O encontro casual de uma chuva de datas e um desfile monstruoso de feitos monstruosos. A história como registro psiquiátrico. Ou como quebra-cabeças, teria dito Perec. Em qualquer caso, como um enigma no que há que se internar e onde há que se tentar manter a lucidez, que neste caso quer dizer que há que se tentar ser valente, algo que resulta tão incômodo, tão inútil nestes tempos e onde o mais normal é ser razoavelmente covarde e fugir como uma alma que o diabo leva de qualquer vislumbre de pesadelo que perturba o grande pesadelo plácido no qual estamos todos bem ou mal instalados.

Deu muito trabalho construir em Noturno do Chile a voz de seu único e estranho narrador, o cura da Opus Dei, Urrutia Lacroix, que além de ter veleidades de poeta decidiu converter-se em crítico literário? Você teve, nesse sentido, algum modelo?

Não, nenhum problema. O Chile é generoso nesta classe de personagens, algo que talvez na Argentina ou no México pareça excepcional, ou estranho ou caricaturesco, porque há algo ali que se pode chamar “tradição literária”, coisa que no Chile não ocorre. Os modelos da canalha literária abundam no meu país. Não quero dizer com isto que tenhamos exclusivamente a canalha literária, o do ridículo mais espantoso e patético, mas digamos que somos autossuficientes no consumo interno e que inclusive poderíamos começar a exportar algo.

A que escritores de sua geração você se sente hoje em dia mais afinado?

A muitos, ainda que não saiba com certeza qual é minha geração. Costumo ver Rodrigo Fresán quando vou a Barcelona, com quem posso conversar de Melville, ou Philip K. Dick. Gosto da afeição que Fresán tem pelos paradoxos e pelos encontros azarados e pelas resoluções imaginárias. Também mentenho compridas conversas telefônicas com Javier Cercas sobre Borges e o Quixote, e costumamos rir juntos e discutir sobre os assuntos mais peregrinos. Sinto um grande carinho por Rodrigo Rey Rosa, o escrito guatemalteco, que sempre está viajando e, suponho, expondo-se constantemente a perigos. Gosto de pensar que Rey Rosa é irredutível. Ainda que, claro, ninguém é irredutível totalemente. Creio que na minha geração há alguns escritores muito bons. Entre a Espanha e a América Latina uns 12 ou 13.

* * *

Título: Noturno do Chile
Autor: Roberto Bolaño
Editorial: Anagrama. 150 págs.
Sebastián Urrutia Lacroix é um padre da Opus Dei que um belo dia decide se tornar crítico literário. Tendo como padrinho Farewell, se mistura então ao ambiente intelectual de Santiago e vive distintas aventuras, que evoca a partir de sua aparente agonia.

Fonte: http://www.letras.s5.com/rb260505.htm

Tradução de Lucas de Sena Lima

Publicado por: estrelaselvagem | 21 de Junho de 2010

Primeiro Manifesto Infrarrealista

LARGUEM TUDO, NOVAMENTE

Primeiro Manifesto Infrarrealista

Desde os confins do sistema solar há quatro horas-luz; desde a estrela mais próxima, quatro anos-luz. Um desmedido oceano de vazio. Mas estamos realmente certos de que há somente um vazio? Unicamente sabemos que neste espaço não há estrelas luminosas; e se existissem, seriam visíveis? E se existissem corpos não-luminosos ou escuros? Não poderia acontecer nos mapas celestes, igualmente aos da terra, que estejam destacadas as estrelas-cidades e omitidas as estrelas-povoados?

– Escritores soviéticos de ficção científica arranhando-se na cara à meia-noite.

– Os infrassóis (Drummond diria os alegres garotos proletários).

– Peguero e Boria solitários num quarto lumpen pressentindo a maravilha atrás da porta.

– Free Money

*

Quem atravessou a cidade e por única música teve os assovios de seus semelhantes, suas próprias palavras de assombro ou a raiva?

O tipo belo que não sabia

que o orgasmo das garotas é clitoral

(Busquem, não é somente nos museus que há merda) (Um processo de museificação individual) (Certeza de que tudo está nomeado, revelado) (Medo da descoberta) (Medo dos desequilíbrios não previstos)

*

Nossos parentes mais próximos:

os francoatiradores, os planeiros solitários que assolam os cafés dos mestiços da latino-américa, os massacrados em supermercados, em suas tremendas desjuntivas indivíduo-coletividade; a impotência da ação e da busca (a níveis individuais ou bem enlameados em contradições estéticas) da ação poética.

*

Pequeninas estrelas luminosas guiando-nos eternamente o olho a um lugar do universo chamado Os labirintos.

– Dancing club da miséria

– Pepito Tequila soluçando seu amor por Lisa Underground.

– Chupe-se-o, chupe-te-o, chupe-mo-no

-E o Horror

*

Cortinas de água, cimento ou lata, separam uma maquinaria cultural, a que o mesmo lhe serve de consciência ou o cu da classe dominante, de um acontecer cultural vivo, esfregado, em constante morte ou nascimento, ignorante de grande parte da história e das belas-artes (criador cotidiano de sua louquíssima história e de suas alucinantes velhas-artes), corpo que de imediato experimenta em si mesmo sensações novas, produto de uma época em que nos aproximamos a 200 km/h da privada ou da revolução.

“Novas formas, raras formas”, como dizia entre curioso e risonho o velho Bertold.

*

As sensações que não surgem do nada (obviedade de obviedades), senão da realidade condicionada, de mil maneiras, a um constante fluir.

– Realidade múltipla, marés a nós!

Assim é possível que por um lado nasçamos e por outro estejamos nas primeiras poltronas dos últimos estertores. Formas de vida e formas de morte passeiam entre si cotidianamente pela retina. Seu choque constante dá vida às formas infrarrealistas: O OLHO DA TRANSIÇÃO.

*

Enfiem toda a cidade no manicômio. Doce irmã, barulhos de tanque, canções hermafroditas, desertos de diamante, só viveremos uma vez e as visões a cada dia mais brutas e escorregadias. Doce irmã, passeio para Monte Albán. Apertem os cintos porque se regam os cadáveres. Um movimento a menos.

*

E a boa cultura burguesa? E a academia e os incendiários? E as vanguardas e suas retaguardas? E certas concepões do amor, a boa paisagem, a Colt precisa e multinacional?

Como me disse Saint-Just num sonho que tive faz tempo: Até as cabeças dos aristocratas podem nos servir de armas.

*

Uma boa parte do mundo vai nascendo e outra boa parte vai morrendo, e todos sabemos que todos temos que viver ou todos morrer: e nisto não há meio-termo.

Chirico disse: é necessário que o pensamento se alheie de tudo o que se chama lógica e bom sentido, que se alheie de todas as travas humanas de tal modo que as coisas lhe apareçam sob um novo aspecto, como que iluminadas por uma constelação aparecida pela primeira vez. Os infrarrealistas dizem: vamos cair de cabeça em todas as travas humanas, de tal modo que as coisas comecem a se mover dentro de si mesmas, uma visão alucinante do homem.

– A constelação do Belo Pássaro.

– Os infrarrealistas propõem ao mundo o indigenismo: um índio louco e tímido.

– Um novo lirismo, que na América Latina começa a crescer, a se sustentar em maneiras que não deixam de nos maravilhar. O começo do assunto é o começo da aventura: o poema como uma viagem e o poeta como um herói desvendador de heróis. A ternura como um exercício de velocidade. Respiração e calor. A experiência disparada, estruturas que vão se devorando a si mesmas, contradições loucas.

Se o poeta está imiscuído, o leitor terá que imiscuir-se.

“livros eróticos sem ortografia

*

Nos antecedem as MIL VANGUARDASD ESQUARTEJADAS DOS ANOS 60.

As 99 flores abertas como uma cabeça aberta.

As matanças, os novos campos de concentração.

Os brancos rios subterrâneos, os ventos violetas.

São tempos duros para a poesia, dizem alguns, tomando chá, escutando música em seus departamentos, falando (escutando) os velhos maestros. São tempos duros para o homem, dizemos nós, voltando às trincheiras depois de uma jornada cheia de merda e gases lacrimogênios, descobrindo/criando música  para os departamentos, olhando longamente os cemitérios-que-se-expandem, onde tomam desesperadamente uma xícara de chá ou se embriagam de pura raiva ou inércia os velhos maestros.

Nos antecede a HORA ZERO.

((Crie cafuzos e eles te morderão os calos))

Ainda estamos na era quaternária. Ainda estamos na era quaternária?

Pepito Tequila beija os mamilos fosforescentes de Lisa Underground e a vê afastar-se por uma praia onde brotam pirâmides negras.

*

Repito:

o poeta como um herói desvendador de heróis, como a árvore vermelha caída que anuncia o princípio do bosque.

– As intenções de uma ética-estética consequente estão empedrados de traições ou sobrevivências patéticas.

– E é que o indivíduo poderá andar mil quilômetros, mas ao largo do caminho ele o come.

– Nossa ética é a Revolução, nossa estética a vida: uma só coisa.

*

Os burgueses e os pequenos-burgueses estão em festa. Todos os finais de semana têm uma. O proletariado não tem festa. Somente funerais com ritmo. Isto vai mudar. Os explorados terão uma grande festa. Memória e guilhotinas. Intuí-la, atuá-la certas noites, inventar-lhe arestas e cantos úmidos, é como acariciar os olhos ácidos do novo espírito.

*

Deslocamento do poema através das temporadas dos motins: a poesia produzindo poetas produzindo poemas produzindo poesia. Não um corredor elétrico / o poeta com os braços separados do corpo / o poema deslocando-se lentamente de sua Visão a sua Revolução. O corredor é um ponto múltiplo: “Vamos inventar para descobrir sua contradição, suas formas invisíveis de negar-se, até esclarecê-lo”. Deslocamento do ato de escrever para zonas nada propícias ao ato de escrever.

Rimbaud! Volte pra casa!

Subverter a realidade cotidiana da poesia atual. Os encadeamentos que conduzem a uma realidade circular do poema. Uma boa referência: o louco Kurt Schwitters. Lanke trr gll, o, upa kupa arggg, sucedem em linha oficial, investigadores fonéticos codificando o uivo. As pontes do Noba Express são anticodificantes: deixem que grite, deixem que grite, (por favor, não vão pegar um lápis nem um papel, nem o gravem, se querem participar, gritem também), sendo assim, deixem que grite, pra ver que cara faz quando acabar, por qual outra coisa incrível passamos.

Nossas pontes para as temporadas ignoradas. O poema inter-relacionando realidade e irrealidade.

Convulsivamente.

*

Que posso pedir à atual pintura latino-americana? Que posso pedir ao teatro?

Mais revelador e plástico é parar em um parque demolido pelo smog e ver as gentes cruzando em grupos (que se comprimem e que se expandem) as avenidas, quando tanto aos automobilistas quanto aos pedestres é urgente chegar às suas casas, e é a hora em que os assassinos saem e as vítimas os seguem.

Realmente, que histórias me contam os pintores?

O vazio interessante, a forma e a cor fixas, no melhor dos casos a paródia do movimento. Pinturas que só servirão de anúncios luminosos nas salas dos engenheiros e médicos que as colecionam.

O pintor que se acomoda em uma sociedade que a cada dia é mais “pintora” que ele mesmo, e aí é onde ele se encontra desarmado e passa por palhaço.

Se um quadro de X é encontrado em alguma rua por Mara, esse quadro adquire a categoria de coisa divertida e comunicante; é um salão tão decorativo como as cadeiras de ferro do jardim do burguês / questão de retina? / sim e não / mas melhor seria encontrar (e por um tempo sistematizar aleatoriamente) o fator detonante, classista, cem por cento propositivo da obra, em justaposição aos valores de “obra” que a estão precedendo e condicionando.

O pintor deixa o estúdio e QUALQUER status quo e cai de cabeça na maravilha / ou se põe a jogar xadrez como Duchamp / uma pintura didática para a mesma pintura / E uma pintura da pobreza, grátis ou bastante barata, inacabada, de participação, de questionamento na participação, de extensões físicas e espirituais ilimitadas.

A melhor pintura da América Latina é a que ainda se faz a níveis inconscientes, o jogo, a festa, o experimento que nos dá uma visão real do que somos e nos abre ao que podemos será a melhor pintura da América Latina é a que pintamos com verdes e vermelhos e azuis sobre nossos rostos, para reconhecer-nos na criação incessante da tribo.

*

Experimentem largar tudo diariamente.

Que os arquitetos deixem de construir cenários para dentro e que abram as mãos (ou que as empunhem, depende do lugar) para esse espaço de fora. Um muro e um telhado adquirem utilidade quando não só servem para dormir ou evitar chuvas senão quando estabelecem, a partir, por exemplo, do ato cotidiano do sonho, pontes inconscientes entre o homem e suas criações, ou a impossibilidade momentânea destas.

Para a arquitetura e a escultura os infrarrealistas partimos de dois pontos: a trincheira e a cama.

*

A verdadeira imaginação é aquela que dinamita, elucida, injeta micróbios esmeraldas em outras imaginações. Em poesia e no que seja, o começo do assunto tem que ser o começo da aventura. Criar as ferramentas para a subversão cotidiana. As temporadas subjetivas do ser-humano, com suas belas árvores gigantes e obscenas, como laboratórios de experimentação. Fixar, entrever situações paralelas e tão dilacerantes como um grande arranhão no peito, no rosto. Analogia sem fim dos gestos. São tantas que quando aparecem os novos nem nos damos conta, ainda que estejamos fazendo/olhando em frente a um espelho. Noites de tormenta. A percepção se abre mediante uma ética-estética levada até às últimas.

*

As galáxias do amor estão aparecendo na palma de nossas mãos.

– Poetas, joguem as tranças (se as tiverem)

– Queimem suas porcarias e comecem a amar até que cheguem aos poemas incalculáveis.

Não queremos pinturas cinéticas, mas sim enormes entardeceres cinéticos.

Cavalos correndo a 500 quilômetros por hora.

Esquilos de fogo pulando de árvores de fogo.

Uma aposta para ver quem pisca primeiro, entre o nervo e a pílula sonífera.

*

O risco sempre está em outra parte. O verdadeiro poeta é o que sempre está abandonando-se a si mesmo. Nunca por muito tempo no mesmo lugar, como os guerrilheiros, como os ovnis, como os olhos brancos dos prisioneiros da prisão perpétua.

Fusão e explosão de duas margens: a criação como um graffiti resolvido e aberto por um menino louco.

*

Nada mecânico. As escalas do assombro. Alguém, talvez o Bosco, rompe o aquário do amor. Dinheiro grátis. Doce irmã. Visões levianas como cadáveres. Little boys talhando de beijos a dezembro.

*

Às duas da manhã, depois de ter estado na casa de Mara, escutamos (Mario Santiago e alguns de nós) risos que saíam da penthouse de um edifício de 9 andares. Não paravam, riam e riam enquanto nós embaixo dormíamos apoiados em várias cabines telefônicas. Chegou um momento em que só Mario seguia prestando atenção aos risos (a penthouse é um bar gay ou algo parecido e Darío Galicia havia nos contado que está sempre vigiado por policiais). Nós fazíamos chamadas telefônicas mas as moedas eram feitas de água. Os risos continuavam. Depois que nos fomos desta colônia, Mario me contou que realmente ninguém havia rido, eram risos graduais e lá em cima, na penthouse, um grupo reduzido, ou talvez só um homossexual, havia escutado em silêncio seu disco e nos havia feito escutá-lo.

– A morte do cisne, o último canto do cisne, o último canto do cisne negro, não estão no Bolshoi senão na dor e na beleza insuportável das ruas.

– Um arco-íris que começa num filme de má morte e que termina numa fábrica em greve.

– Que a amnésia nunca nos beije na boca. Que nunca nos beije.

– Sonhávamos com utopia e acordamos gritando.

– Um pobre vaqueiro solitário que retorna à sua casa, que é a maravilha.

*

Fazer surgir as novas sensações – subverter a cotidianidade.

O.K.

LARGUEM TUDO NOVAMENTE

LANCEM-SE PELOS CAMINHOS.


Roberto Bolaño, México, 1976.

Fonte: http://manifiestos.infrarrealismo.com/primermanifiesto.html

Publicado por: estrelaselvagem | 20 de Maio de 2010

A última entrevista de Roberto Bolaño

Estrela Distante – A última entrevista de Roberto Bolaño

Por Monica Maristain – Playboy México, 2003

***

No impreciso panorama da literatura de língua espanhola, um espaço em que todos os dias aparecem jovens escritores mais preocupados em ganhar bolsas e postos nos consulados que contribuir com algo para a criação artística, se destaca a figura de um homem enxuto, mochila azul nas costas, grande óculos, cigarro sempre entre os dedos, ironia fina à disposição sempre que necessário.

Roberto Bolaño, nascido no Chile em 1953, é o melhor que tem acontecido há muito tempo no ofício da escrita. Desde que com seu monumental Os Detetives Selvagens, talvez o grande romance mexicano da contemporaneidade, se fez famoso e ganhou os prêmio Herralde (1998) e Rômulo Gallegos (1999), sua influência e sua figura seguiu em crescimento constante: tudo o que disse, com seu afiado humor, com sua inteligência requintada, tudo o que escreve, com sua pluma certeira, de grande risco poético e profundo compromisso criativo, é digno de atenção dos que o admiram e, é claro, dos que o detestam.

O autor, que aparece como personagem do romance Os Soldados de Salamina, de Javier Cercas, e que é homenageado no último romance de Jorge Volpi, O Fim da Loucura, é, como todo homem genial, um divisor de opiniões, um gerador de antipatias acirradas, apesar de seu caráter terno, sua voz entre débil e rouca, com a qual responde, cortez, como todo bom chileno, que não escreverá um conto para esta revista pois seu próximo romance, que tratará dos assassinatos de mulheres em Ciudad Juárez, está com 900 páginas, e não conseguiu ainda terminá-la.

Roberto Bolaño vive em Blanes, Espanha, e está muito doente. Espera que um transplante de fígado lhe dê paz para viver com essa intensidade que tanto louvam aqueles que têm a sorte de viver com ele na intimidade. Dizem eles, seus amigos, que às vezes se esquece de ir ao médico enquanto escreve.

Aos 50 anos, este homem que percorreu a América Latina como mochileiro, que escapou das foices do pinochetismo porque um dos guardas que o encarceravam era seu amigo na escola, que viveu no México, que conheceu os militantes de Farabundo Martí que logo se tornaram os assassinos do poeta Roque Danton em El Salvador, que foi vigilante em um camping catalão, vendedor de bijuterias na Europa e sempre um ladrão de bons livros porque ler não é só uma questão de atitude, este homem, dizíamos, transformou o rumo da literatura latino-americana. E não o fez sem avisar ou pedir permissão, como havia feito Juan Garcia Madero, anti-herói adolescente de Os Detetives Selvagens: “Estou no primeiro semestre do curso de Direito. Eu não queria estudar direito, e sim Letras, mas minha tia insistiu e no final acabei concordando. Sou órfão. Serei advogado. Isso foi o que disse ao meu tio e a minha tia e logo me tranquei no meu quarto e chorei a noite toda”. De resto, as 608 páginas restantes de um romance cuja importância foi comparada pelos críticos ao Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar, e até com Cem anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez. Ele diria, diante de tantas hipérboles: de jeito nenhum. Assim vamos melhor com o que importa neste momento: a entrevista.

Te deu algum valor na vida ter nascido disléxico?

Nenhum. Problemas quando jogava futebol, sou canhoto. Problemas quando me masturbava, sou canhoto. Problemas quando escrevia, sou destro. Como pode ver, nenhum problema importante.

Enrique Vila-Matas seguiu sendo seu amigo logo após a briga que você teve com os organizadores do Prêmio Rômulo Gallegos?

Minha briga com o jurado e os organizadores do Prêmio foi devido, basicamente, a que eles pretendiam que eu avaliasse, em Blanes, às cegas, uma seleção da qual eu não havia participado. Seus métodos, que uma pseudo-poeta chavista me transmitiu por telefone, se pareciam muito com os argumentos desencorajadores da Casa das Américas cubana. Me pareceu um terror enorme que Daniel Sada ou Jorge Volpi fossem eliminados de cara, por exemplo. Eles disseram que o que eu queria era viajar com minha mulher e filhos, algo totalmente falso. Da minha indignação por esta mentira surgiu a carta na qual os chamei de neo-stalinistas e algo mais, suponho. Na verdade, me informaram que eles pretendiam, desde o início, premiar outro autor, que não o Vila-Matas, precisamente, cujo romance me parece bom, e que sem dúvida era um de meus candidatos.

Por que não há ar condicionado no seu escritório?

Porque meu lema não é Et in Arcadia ego, e sim Et in Esparta ego.

Não crê que se você tivesse se embriagado ao lado de Isabel Allende e Ángeles Mastretta seria outra sua opinião sobre seus livros?

Não creio. Primeiro, porque essas senhoras evitam beber com alguém como eu. Segundo, porque eu já não bebo. Terceiro: porque nem em minhas piores bebedeiras eu perdi um mínimo de lucidez, um sentido da prosódia e do ritmo, uma certa ojeriza diante do plágio, a mediocridade ou o silêncio.

Qual a diferença entre uma escrevedora e uma escritora?

Uma escritora é Silvina Ocampo. Uma escrevedora é Marcela Serrano. Os anos-luz que separam uma da outra.

Quem lhe fez crer que você é melhor poeta que narrador?

A gradação do rubor que sinto quando, por pura causalidade, abro um livro meu de poesia ou um de prosa. Me ruboriza menos o de poesia.

Você é chileno, espanhol ou mexicano?

Sou latino-americano

O que é a pátria para você?

Lamento ter que te dar uma resposta tão cafona. Minha única pátria são meus dois filhos, Lautaro e Alexandra. E talvez, mas em segundo plano, alguns instantes, algumas ruas, alguns rostos ou cenas ou livros que estão dentro de mim e que algum dia esquecerei, que é o melhor que alguém pode fazer pela pátria.

O que é a literatura chilena?

Provavelmente os pesadelos do poeta mais ressentido e triste e acaso o mais covarde dos poetas chilenos: Carlos Pezoa Véliz, morto no início do século XX, e autor de somente dois poemas memoráveis, mas, isso sim, verdadeiramente memoráveis, e que nos segue, sonhando e sofrendo. É possível que Pezoa Véliz ainda não tenha morrido e esteja agonizando e que seu último minuto seja um minuto bastante longo, não?, e todos estejamos dentro dele. Ou ao menos que todos os chilenos estejamos dentro dele.

Por que você gosta de se contradizer?

Eu nunca me contradigo.

Você tem mais amigos ou inimigos?

Tenho suficientes amigos e inimigos, todos gratuitos.

Quem são seus amigos íntimos?

Meu melhor amigo foi o poeta Mario Santiago, que morreu em 1998. Atualmente, três de meus melhores amigos são Ignacio Echevarría, Rodrigo Fresán e A. G. Porta.

António Skármeta te convidou alguma vez para seu programa?

Uma secretária dele, talvez sua mucama, me telefonou uma vez. Disse que estava muito ocupado.

Javier Cercas dividiu com você os lucros de Soldados de Salamina?

Claro que não.

Enrique Lihn, Jorge Teillier ou Nicanor Parra?

Nicanor Parra acima de todos, inclusive de Pablo Neruda, Vicente Huidobro e Gabriela Mistral.

Eugenio Montale, T. S. Eliot ou Xavier Villaurrutia?

Montale. Se em lugar de Eliot estivesse James Joyce, poria Joyce. Se em lugar de Eliot estivesse Ezra Pound, sem dúvida Pound.

John Lennon, Lady Di ou Elvis Presley?

The Pogues. Ou Suicide. Ou Bob Dylan. Mas, bem, não nos ponhamos melindrosos: Elvis forever. Elvis com um distintivo de xerife conduzindo um Mustang e se entupindo de remédios, com sua voz de ouro.

Quem lê mais: você ou Rodrigo Fresán?

Depende. O Oeste é para Rodrigo. O Leste para mim. Logo nos contamos os livros de nossas áreas correspondentes e acaba parecendo que lemos tudo.

Qual é para você o melhor poema de Pablo Neruda?

Quase qualquer um de Residência na Terra.

O que teria dito a Gabriela Mistral se a tivesse conhecido?

Mamãe, me perdoa, eu fui mal, mas o amor de uma mulher fez com que eu me tornasse bom.

E a Salvador Allende?

Pouco ou nada. Os que têm o poder (ainda que seja por pouco tempo) não sabem nada de literatura, só interessa a eles o poder. E eu posso ser o palhaço de meus leitores, se me der vontade, mas nunca dos poderosos. Soa um pouco melodramático. Soa como a declaração de uma puta honrada. Mas, enfim, é o que é.

E a Vicente Huidobro?

Huidobro me aborrece um pouco. Muito blablablá, muito paraquedista que cai cantando como um tirolês. São bem melhores os paraquedistas que caem envoltos em chamas ou, a propósito, aqueles cujos paraquedas não abrem.

Octavio Paz segue sendo seu inimigo?

Para mim, certamente, não é. Não sei o que pensariam os poetas que durante essa época, quando vivi no México, escreviam como seus clones. Faz muito tempo eu não sei o que é a poesia mexicana. Releio José Juan Tablada e Ramón López Velarde, inclusive posso recitar, se surgir a oportunidade, a Sór Juana, mas não sei nada do que escrevem os que, como eu, já beiram os cinquenta anos.

Não daria agora este papel a Carlos Fuentes?

Faz muito tempo que não leio Carlos Fuentes.

Que reação te dá saber que Arturo Pérez Reverte é atualmente o escritor mais lido em língua espanhola?

Pérez Reverte ou Isabel Allende. Dá no mesmo. Feuillet era o autor francês mais lido de sua época.

E o fato de Arturo Pérez Reverte ter ingressado na Real Academia?

A Real Academia é uma caverna de crânios privilegiados. Não está lá Juan Marsé, não está Juan Goytisolo, não está Eduardo Mendoza nem Javier Marías, não está lá Olvido García Valdez, não me lembro se Alvaro Pombo está (provavelmente se estiver se trata de um equívoco), mas está Pérez Reverte. Bom, Paulo Coelho também está na Academia Brasileira.

Se arrepende de ter criticado o cardápio que lhe fora servido por Diamela Eltit?

Nunca critiquei o cardápio. Se fiz algo, foi criticar seu humor, um humor vegetariano, ou melhor, sua dieta.

Lhe dói que ela considere você uma má pessoa depois da crônica daquela cena malograda?

Não, pobre Diamela, não me dói. Me doem outras coisas.

Verteu alguma lágrima pelas numerosas críticas que têm recebido por parte de seus inimigos?

Muitíssimas, cada vez que leio que alguém fala mal de mim me ponho a chorar, me arrasto pelo chão, me arranho, deixo de escrever por tempo indeterminado, cai meu apetite, fumo menos, faço algum esporte, saio a caminhar pela orla do mar, que, a propósito, está a menos de trinta metros da minha casa, e pergunto às gaivotas, cujos antepassados comeram os peixes que comeram Ulisses: por que eu? Por que eu, que não fiz mal nenhum a eles?

Qual a opinião sobre sua obra à qual você dá mais crédito?

Leem meus livros Carolina [sua esposa] e depois [Jorge] Herralde [editor da Anagrama], e depois procuro esquecê-los para sempre.

O que comprou com o dinheiro ganho no Prêmio Rômulo Gallegos?

Não muitas coisas. Uma maleta, pelo que creio lembrar.

Da sua época em que vivia de concursos literários, houve algum que não conseguiu ganhar?

Nenhum. Os conselhos espanhóis, neste aspecto, são de uma integridade acima de qualquer suspeita.

Era um bom garçom ou se deu melhor como vendedor de bijuterias?

O ofício em que me dei melhor foi o de vigilante noturno de um camping próximo à Barcelona. Nunca ninguém roubou nada enquanto estive ali. Impedi algumas brigas que poderiam ter terminado muito mal. Evitei um linchamento (ainda que, depois, de boa vontade eu mesmo teria linchado ou estrangulado o tipo em questão).

Chegou a experimentar a fome feroz, o frio que cala os ossos, o calor desconsolador?

Como disse Vittorio Gassman em um filme: modestamente, sim.

Roubou algum livro que logo depois não gostou?

Nunca. O bom de roubar livros (e não caixas fortes) é que se pode examinar detidamente seu conteúdo antes de perpetrar o delito.

Caminhou alguma vez no meio do deserto?

Sim, em uma ocasião, e no braço de minha avó. A velha senhora era incansável, e pensei que daquela não escaparíamos.

Já viu peixes coloridos debaixo d’água?

Com certeza. Em Acapulco, sem ter que ir mais longe, no ano de 1974 ou 1975.

Já queimou a pele com um cigarro?

Nunca voluntariamente.

Já talhou em um tronco de árvore o nome da pessoa amada?

Já cometi excessos ainda maiores, mas escondamos isto.

Já viu alguma vez a mulher mais bela do mundo?

Sim, quando trabalhava em uma tenda, lá pelo ano de 1984. A tenda estava vazia e entrou uma mulher hindu. Parecia e talvez fosse uma princesa. Me comprou alguns colares de bijuteria. Eu, em contrapartida, estava a ponto de desmaiar. Tinha a pele cor de cobre, o cabelo comprido, vermelho, e era perfeita demais. A beleza atemporal. Quando tive que cobrar me senti muito envergonhado. Ela sorriu pra mim como se dissesse que me entendia e que não se preocupava. Logo desapareceu e nunca mais voltei a ver alguém assim. Às vezes tenho a impressão de que era a mesmíssima deusa Kâlî, mãe dos ladrões e dos órfãos, só que Kâlî também era a divindade dos assassinos, e esta hindu não só era a mulher mais bela da Terra como também parecia ser uma boa pessoa, muito doce e atenciosa.

Gosta de cachorros ou gatos?

Cachorros, mas hoje não tenho mais animais.

O que se lembra da sua infância?

Tudo. Não tenho uma memória ruim.

Colecionava figurinhas?

Sim, de futebol e de atores e atrizes de Hollywood.

Tinha patins?

Meus pais cometeram o erro de presentear-me com um par de patins quando vivíamos em Valparaíso, que é uma cidade de colinas. O resultado foi desastroso. Cada vez que eu punha os patins era como se quisesse me suicidar.

Qual seu clube de futebol?

Agora nenhum. Os que caíram para a segunda divisão e logo, consecutivamente, para a terceira e a regional até desaparecerem. Os clubes fantasmas.

Com qual personagem da história universal gostaria de se parecer?

Com Sherlock Holmes. Com Capitão Nemo. Com Julien Sorel, nosso pai, com o príncipe Mishkin, nosso tio, com Alice, nossa professora, com Houdini, que é um misto de Alice, de Sorel e de Mishkin.

Se apaixonava pelas vizinhas mais velhas?

Com certeza.

As colegas de escola prestavam atenção em você?

Creio que não. Ao menos me convencia de que não.

O que você deve às mulheres da sua vida.

Muitíssimo. O sentido do desafio e as altas apostas. E outras coisas que calo por pudor.

Elas devem algo a você?

Nada.

Sofreu muito por amor?

A primeira vez, muito, depois aprendi a levar as coisas com um pouco mais de humor.

E por ódio?

Ainda que soe um pouco pretensioso, nunca odiei ninguém. Ao menos estou seguro de ser capaz de um ódio convicto. E se o ódio não é convicto, não é ódio, certo?

Como se apaixonou por sua esposa?

Cozinhando arroz para ela. Nesta época eu era muito pobre e minha dieta era basicamente de arroz, de modo que aprendi a cozinhá-lo de muitas formas.

Como foi o dia em que se tornou pai pela primeira vez?

Era noite, pouco antes das 12, eu estava só, e como não podia fumar no hospital, fumei um cigarrinho imaginário no quarto andar. Ainda bem que ninguém me viu da rua. Somente a lua, como diria Amado Nervo. Quando voltei, uma enfermeira disse que meu filho havia nascido. Era muito grande, quase careca, e com os olhos abertos como que perguntando que diabos era esse cara que o tinha nos braços.

Lautaro será escritor?

Só espero que seja feliz. Se for assim, é melhor que seja outra coisa. Piloto de avião, por exemplo, ou cirurgião plástico, ou editor.

Que coisas vê nele como suas?

Por sorte ele se parece muito mais com sua mãe que comigo.

Fica preocupado com as listas de vendas de seus livros?

O mínimo possível.

Pensa alguma vez em seus leitores?

Quase nunca

Que coisas das que dizem seus leitores sobre os seus livros chegaram a te comover?

Me comovem os leitores verdadeiros, os que ainda se atrevem a ler o Dicionário Filosófico de Voltaire, que é uma das obras mais amenas e modernas que conheço. Me comovem os jovens de ferro que leem Cortázar e Parra, tal como eu os li e como pretendo seguir os lendo. Me comovem os jovens que dormem com um livro debaixo da cabeça. Um livro é a melhor almofada que existe.

Quais coisas te enojam?

A essa altura, enojar-se é perder tempo. E, lamentavelmente, na minha idade o tempo conta.

Já teve medo alguma vez de seus fãs?

Já tive medo dos fãs de Leopoldo María Panero, o qual, por outro lado, me parece um dos três maiores poetas vivos da Espanha. Em Pamplona, durante um ciclo organizado por Jesús Ferrero, Panero fechava o ciclo, e à medida que se aproximava o dia de sua leitura a cidade ou o bairro onde estava nosso hotel foi sendo tomada de freaks que pareciam recém escapados de um manicômio, que, por outro lado, é o melhor público que pode desejar qualquer poeta. O problema é que alguns não só pareciam loucos senão também assassinos, e Ferrero e eu tememos que alguém, em algum momento, se levantasse e dissesse: eu matei Leopoldo María Panero e depois lhe desse quatro balaços na cabeça do poeta, e já aproveitando, um em Ferrero e outro em mim.

Que sente quando críticos como Darío Osses dizem que consideram que você é o escritor latino-americano com mais futuro?

Deve ser uma brincadeira. Eu sou o escritor latino-americano com menos futuro. Sou um dos que têm mais passado, isso sim, que no fim das contas é só o que importa.

Te desperta curiosidade o livro crítico que sua compatriota Patricia Espinoza está preparando?

Nenhuma. Espinoza me parece uma crítica muito boa, independente de como constarei em seu livro, suponho que não muito bem, mas o trabalho de Espinoza é necessário no Chile. Na verdade, a necessidade de uma, digamos assim, nova crítica, é algo que começa a ser urgente em toda a América Latina.

E o da argentina Celina Manzoni?

Celina conheço pessoalmente e a quero muito bem. A ela dediquei um dos contos de Putas Assassinas.

Que coisas te aborrecem?

O discurso vazio da esquerda. O discurso vazio da direita já é de se esperar.

Que coisas te divertem?

Ver brincar minha filha Alexandra. Tomar café da manhã num bar ao lado do mar e comer um croissant lendo um jornal. A literatura de Borges. A literatura de Bioy. A literatura de Bustos Domecq. Fazer amor.

Escreve à mão?

A poesia, sim. O resto, em um computador velho de 1993.

Feche os olhos. Qual das paisagens da América Latina pelos quais você percorreu te vem primeiro na memória?

Os lábios de Lisa em 1974. O velho caminhão do meu pai em uma estrada no deserto. O pavilhão de tuberculosos de um hospital de Cauquenes e minha mãe dizendo a mim e à minha irmã para que prendêssemos a respiração. Uma excursão a Popocatépetl com Lisa, Mara e Vera e alguém mais de que não me lembro, ainda que lembre dos lábios de Lisa, seu sorriso extraordinário.

Como é o paraíso?

Como Veneza, espero, um lugar cheio de italianas e italianos. Um lugar que se usa e se desgasta e que se sabe que nada perdura, nem o paraíso, e que isto ao fim e ao cabo não importa.

E o inferno?

Como Ciudad Juárez, que é nossa maldição e nosso espelho, o espelho inquieto de nossas frustrações e de nossa infame interpretação da liberdade e de nossos desejos.

Quando soube que estava gravemente enfermo?

Em 1992.

Que coisas no seu caráter mudaram com a enfermidade?

Nenhuma. Soube que não era imortal, o que, aos 38 anos, já era hora que soubesse.

Que outras coisas deseja fazer antes de morrer?

Nenhuma em especial. Bom, preferia não morrer, claro. Mas cedo ou tarde a distinta dama chega, o problema é que às vezes não é uma dama, muito menos distinta, senão é, como disse Nicanor Parra em um poema, é uma puta ardente, que é algo que faz o mais corajoso bater os dentes.

Com quem gostaria de se encontrar do outro lado?

Não creio no outro lado. Se existir, que surpresa. Me matricularia de imediato em algum curso que Pascal estivesse dando.

Já pensou alguma vez em suicídio?

Com certeza. Em alguma ocasião sobrevivi somente porque sabia como me suicidar caso as coisas piorassem.

Acreditou alguma vez que estava ficando louco?

Com certeza. Mas o que sempre me salvou foi o senso de humor. Contava histórias a mim mesmo que me faziam enlouquecer de tanto de rir. Ou recordava situações que me faziam rolar no chão em risos.

A loucura, a morte e o amor. Qual dessas três coisas você mais teve em sua vida.

Espero de todo o coração que tenha sido o amor.

Que coisas o fazem trincar os dentes de rir?

As desgraças próprias e alheias.

Que coisas o fazem chorar?

As mesmas: as desgraças próprias e alheias.

Gosta de música?

Muito.

Você vê sua obra como os seus leitores e críticos veem: acima de tudo Os Detetives Selvagens, e logo todo o restante?

O único romance do qual não me envergonho é Amberes, talvez porque segue sendo ininteligível. As críticas negativas que recebi são minhas medalhas de combate, não em brigas simuladas. O resto de minha “obra”, pois bem, não vai mal, são romances divertidos, o tempo dirá se são algo mais. Por ora me dão dinheiro, traduzem, servem para que eu faça amigos, que são muito generosos e simpáticos, posso viver, e bastante bem, de literatura, de modo que me queixar seria algo gratuito e ingrato. Mas a verdade é que não dou muita importância aos meus livros. Estou muito mais interessado nos livros dos outros.

Não tiraria algumas páginas de Os Detetives Selvagens?

Não, para retirar eu teria que relê-lo, e isto minha religião não permite.

Não lhe dá medo que alguém queira fazer a versão cinematográfica deste romance?

Olha, Mônica, tenho medo é de outras coisas. Digamos, coisas mais assustadoras, infinitamente mais assustadoras.

O conto “El Ojo Silva” é uma homenagem a Julio Cortázar?

De maneira alguma.

Quando terminou de escrever “El Ojo Silva”, não sentiu que havia escrito um conto capaz de estar a altura, por exemplo, de “Casa Tomada”?

Quando terminou de escrever “El Ojo Silva” parei de chorar ou algo parecido. Quisera eu que se parecesse com algum conto de Cortázar, ainda que “Casa Tomada” não é um dos meus favoritos.

Quais são os cinco livros de sua vida?

Meus cinco livros são na realidade cinco mil. Menciono estes só à ponta de lança ou por uma representação perversa: O Quixote, de Cervantes. Moby Dick, de Melville. A Obra Completa, de Borges. O Jogo da Amarelinha, de Cortázar. La conjura de los necios [A Confederacy of Dunces], de Kennedy Toole. Mas também devo citar: Nadja, de Breton. As cartas de Jacques Vaché. Todo Ubú, de Jarry. A vida, instruções de uso, de Perec. O Castelo e O Processo, de Kafka. Os aforismos de Lichtenberg. O Tractatus, de Wittgenstein. A invenção de Morel, de Bioy Casares.  Satiricón, de Petronio. A Historia de Roma, de Tito Livio. Os Pensamentos, de Pascal.

Se dá bem com seu editor?

Bastante bem. Herralde é uma pessoa inteligente e muito encantadora. Talvez a mim me conviesse que não fosse tão encantador. O certo é que faz oito anos que o conheço e, ao menos de minha parte, o carinho não faz mais nada além de crescer, como diz um bolero. Ainda que talvez fosse conveniente não gostar tanto assim dele.

Que acha dos que pensam que Os Detetives Selvagens é o grande romance mexicano da contemporaneidade?

Que o dizem por lástima, me veem caído ou desmaiado nas praças públicas e não lhes ocorre nada melhor que uma mentira piedosa, que a propósito é o mais indicado nestes casos e nem sequer chega a ser um pecado venial.

É verdade que foi Juan Villoro quem te convenceu a não intitular Tormentas de Merda seu romance Noturno do Chile?

Villoro e Herralde.

De quem mais escuta conselhos sobre sua obra?

Não escuto conselhos de ninguém, nem sequer de meu médico. Eu dou conselhos a torto e à direita, mas não escuto nenhum.

Como é Blanes?

Um povoado bonito. Ou uma cidade pequenina, de trinta mil habitantes, bem bonita. Foi fundada há dois mil anos pelos romanos, e logo passaram por aqui gente de todos os lugares. Não é um balneário de ricos, e sim de proletários. Trabalhadores do norte de do leste. Alguns chegam para viver para sempre. A baía é belíssima.

Sente saudade de algo da sua vida no México?

Minha juventude e minhas caminhadas intermináveis com Mario Santiago.

Que escritor mexicano admira profundamente?

Muitos. Da minha geração admiro Sada, cujo projeto de escrita me parece o mais arriscado; Villoro, Carmen Boullosa, entre os mais jovens me interessa muito o que fazem Alvaro Enrigue e Mauricio Montiel, ou Volpi e Ignacio Padilla. Sigo lendo Sergio Pitol, que a cada dia escreve melhor. E Carlos Monsivais, que segue com as unhas afiadas. Também gosto muito do que Sergio González Rodríguez faz.

O mundo tem remédio?

O mundo está vivo, e nada vivo tem remédio, e essa é nossa sorte.

Você tem esperanças? Em quê?

Minha querida Maristain, volta você a me empurrar às pastagens do sentimentalismo, que são minhas pastagens de origem. Eu tenho esperanças nas crianças. Nas crianças e nos guerreiros. Nas crianças que trepam como crianças e nos guerreiros que combatem como os bravos. Por quê? Me remeto à lápide de Borges, como diria o ilustre Gervasio Montenegro, da Academia (como Pérez Reverte, veja você) e não falemos mais neste assunto.

Que sentimentos te despertam a palavra póstumo?

Soa como o nome de um gladiador romano. Um gladiador invicto. Ou ao menos assim quer crer o pobre Póstumo, para dar-se o valor.

Que pensa dos que opinam que você ganhará o Prêmio Nobel?

Estou certo, querida Maristain, de que não ganharei, como também estou certo de que algum vagabundo da minha geração o ganhará e nem sequer me mencionará de passagem no seu discurso de Estocolmo.

Em que momento você foi mais feliz?

Fui feliz em quase todos os momentos de minha vida, ao menos durante um período, inclusive nas circunstâncias mais adversas.

Que gostaria de ser se não fosse escritor?

Gostaria de ter sido detetive de homicídios, muito mais que escritor. Disto estou absolutamente seguro. Um policial de homicídios, alguém que pode voltar só, de noite, da cena do crime, e não se assustar com fantasmas. Talvez então teria ficado louco, mas isto, sendo policial, se soluciona com um tiro na boca.

Confessa que viveu?

Bom, sigo vivo, sigo lendo, sigo escrevendo e vendo filmes, e como disse Arturo Prat aos suicidas de Esmeralda, enquanto eu viver, esta bandeira não baixará.

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