Publicado por: estrelaselvagem | 16 de Março de 2010

O Território do Risco

Clarín, 11.05.2002

ENTREVISTA COM ROBERTO BOLAÑO

O Território do Risco

Contra a vanguarda e suas máscaras, o narrador chileno expõe aqui sua teoria da literatura como um campo de colisões e desastres. Também traz um comentário sobre seu último livro de contos.

GONZALO AGUILAR.

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Há anos que Roberto Bolaño (Santiago de Chile, 1953) vive em Barcelona. Ali escreveu quase todos os seus livros – A literatura nazi na América, Estrela Distante, Noturno do Chile, entre outros – e ali se transformou em um dos escritores latino-americanos mais importantes dos últimos tempos. Traduzido a uma dezena de idiomas, ganhador do Prêmio Rômulo Gallegos em 1999 por seu romance Os Detetives Selvagens, Bolaño é um dos expoentes desta geração de escritores latino-americanos que lograram narrar os horrores dos anos 70, fazendo uso das potências virtuais da boa literatura. Esta conversa – feita em parte por telefone, em parte por email –, o autor de Putas Assassinas parece falar como se tivesse saído de um sonho.

A propósito da globalização, a crítica Pascale Casanova falou de uma “república mundial das letras”. No seu caso, você se considera um escritor chileno no estrangeiro, um representante latino-americano na Espanha, ou alguém a quem todas estas denominações pesam?

− Lamentavelmente não posso considerar-me nenhuma dessas três coisas. A primeira, um escritor chileno no estrangeiro, se relaciona de algum modo ao que, segundo os controles burocráticos, sou ou pretendo ser. Mas a verdade é que se vivesse no Chile, se nunca tivesse saído do Chile ou houvesse retornado ao Chile depois de um tempo prudencial, agora me sentiria, de igual maneira, um escritor Chileno no estrangeiro. Dizer: sou chileno, é algo com o que vivo com a maior resignação, mas esse ser chileno não me remete, necessariamente, ao que, quase sempre com pouca sorte, se dá em chamar pátria. E se vivesse no Chile me sentiria no estrangeiro. Desde que tenho uso da razão sempre me senti no estrangeiro. Às vezes, em algumas casas, me senti em meu próprio país. Ou em algumas habitações. Ou em algumas camas. Durante um tempo tive um sonho recorrente, e aquele sonho, enquanto o sonhei, era de alguma maneira meu país. Um lugar onde a regulamentação da violência, e, sobretudo, suas consequências, eram diferentes.

− No romance Os Soldados de Salamina, de Javier Cercas, não só você aparece como personagem, mas também se produz uma certa “afinidade eletiva”. Essas afinidades chegam a constituir um grupo em Barcelona, uma nova camada de escritores?

− Não creio que no caso de Cercas haja afinidade eletiva, nem de nenhuma classe. Em todo caso, se há, é em uma só direção, e não de minha parte. A visão que Cercas tem da literatura é diferente da minha. Para mim, a literatura não é só uma eleição estética, mas também uma aposta ética. Não tento conciliar a esquerda com a direita. Para mim, a literatura ultrapassa o espaço da página cheia de letras e frases e se instala no território do risco, e eu diria do risco permanente. A literatura se instala no território das colisões e dos desastres, naqulio que Pascal chamava, se não me engano, o parêntese, que é a existência de cada indivíduo, rodeado de nada antes do princípio e depois do fim. Minhas afinidades neste sentido estão com alguns escritores latino-americanos. Se formamos ou não formamos um grupo que seja algo mais que um grupo de amigos, isto é algo que se verá no futuro.

− Neste grupo está Rodrigo Fresán, sobre cujo último romance, Mantra, você escreveu uma resenha muito elogiosa.

− Me agradou muito, provavelmente é o melhor livro de Fresán, um livro desmesurado, cheio de humor, em algumas ocasiões superviolento, que trata em primeira instância do México, mas que na realidade fala de toda a Latino-américa: o México, neste caso, funciona como os olhos da Latino-américa.  E para mim foi uma dupla felicidade este romance de que tanto gostei: felicidade como leitor e felicidade porque sou amigo de Fresán.

− Em sua literatura parece haver uma visão desencantada das vanguardas. Como viu os atos vanguardistas que levaram a cabo em seu momento no Chile o grupo de Zurita, Diamela Eltit e outros?

A verdade é que não me inteirei, ou me inteirei bastante tarde do que faziam. E tampouco me interessei o bastante. Quase todas as vanguardas artísticas, de alguma maneira, serviram de refúgio para mediocridades impressionantes. Há uma classe de pessoas que necessitam participar do que chamamos arte, mas não estão aptas a qualquer ato de valor, e para acender à arte a primeira coisa de que se necessita, até mesmo antes do talento, é o valor.

− Em vários dos relatos de Putas Assassinas, seu último livro, os suicidas se convertem em heróis de sua literatura. O que o atrai no suicídio?

− Sempre me recordo de uma frase de Cortázar: é preferível ser um suicida que ser um zumbi. Não me atrai nada o suicídio. Mas reconheço nele a liberdade soberana, a possibilidade de o próprio ser escrever ou tenta escrever a última linha. É claro, me refiro ao suicida, não ao assassino. Não me inspira nenhum respeito Hitler se dando um tiro, nem os pobres jovens carregados de explosivos que se fazem explodir nas portas de uma sinagoga. Salvador Allende ou Gabriel Ferrater, que disse que viver além dos cinquenta anos não tinha sentido, e quando fez cinquenta se suicidou. Ou Rodrigo Lira, o melhor poeta chileno da minha geração, que alguns dizem que se suicidou para protestar contra a alta no preço do pão. Todos esses suicídios empedoclianos, que deixam perguntas, mas que também deixam muitas respostas, só que não as sabemos ler.

Fonte: http://www.clarin.com/suplementos/cultura/2002/05/11/u-00601.htm

Tradução de Lucas de Sena Lima

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Responses

  1. Obrigada pela partilha. heguei até aqui através do blog: http://cimitan.blogspot.com/
    abraços
    Angela


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