Publicado por: estrelaselvagem | 25 de Março de 2010

Me sinto estrangeiro em todas as partes

El Tiempo, Colômbia, 3 de janeiro de 2003.

Literatura / Roberto Bolaño fala com El Tiempo na Espanha

‘Me sinto estrangeiro em todas as partes’


O autor de Os Detetives Selvagens e Putas Assassinas, entre outras obras, é um dos escritores mais importantes da atual literatura hispano-americana. Obteve os prêmios Herralde de romance e o Rômulo Gallegos.

Roberto Bolaño vive a duas quadras do mar, em Blanes, um povoado de trinta mil habitantes a meia hora de Barcelona. Vive na casa de sua mulher com os dois filhos, que agora dormem. Prefere a tranquilidade ao barulho, prefere o cárcere silencioso e às vezes insuportável da escritura. Lá fora, uma lua outonal ilumina o resto da noite. Nos corredores da casa há uns três mil livros. Bolaño fuma ansioso e toma uma Coca-cola, porque o licor lhe prejudicou o fígado. A ironia brilha em seus olhos. O escritor chileno de 54 anos não gosta de entrevistas, pensa que tudo o que importa está nos seus livros, mas aceitou conversar sobre alguns assuntos.

A princípio você trabalhou com poesia, gênero cada dia mais isolado do mundo editorial. Que pensa da poesia como arte e como fenômeno nos tempos atuais?

Não creio que a poesia vá desaparecer. A cada certo tempo, suspeito, a poesia sofre metamorfoses, transformações, hibridismos. É claro, não há como vender muitos livros de poesia, como acontecia com os livros de Byron, mas segue-se sendo possível ser Lord Byron, o que é suficiente. Talvez a poesia sobreviva agora em alguns romances. Ou em formas que não são consideradas artísticas, formas bastardas, produto do gueto e da marginalização. Talvez quando morrer o último poeta lírico a poesia renasça de suas cinzas.

Em Os Detetives Selvagens há eixos que se sobressaem. Um é o exílio, um exílio que abarca, entre outros países, México e Espanha.

Curiosamente nunca me senti exilado. Talvez se tivesse vivido na Suécia, ainda que suspeito que nem na Suécia. Me senti, sim, estrangeiro; mas estrangeiro me senti em todas as partes, começando pelo Chile. Como fui uma criança pedante, já desde criança me sentia estrangeiro.

Você é um desencantado da política ou seu exílio buscou mais a liberdade individual?

A única liberdade em que creio é a liberdade individual. Ou no conjunto das liberdades individuais. Uma liberdade individual, a que temos na mão, bastante vicária, bastante turva, mas que no momento é a única que temos. E não sou um desencantado da política, ainda que motivos não me faltam, nem a mim nem a ninguém, pois a política por regra geral é um ninho de serpentes. Sigo sendo de esquerda e sigo crendo que a esquerda, desde mais de sessenta anos, mantém em pé um discurso vazio, uma representação oca que só pode soar bem (essa catarata de lugares comuns) à canalha sentimental. Na realidade, a esquerda real é a canalha sentimental quintessenciada.

Muitos anos depois da queda violenta de Salvador Allende, como vê o Chile à distância?

Tenho a impressão que a democracia está assentando, o que é uma grande coisa, e de que a sociedade lentamente volta a aprender a conviver. É claro, a custa de algumas perdas de memória, de algumas lobotomias.

Em Os Detetives Selvagens se narra o mundo dos poetas jovens de duas décadas, suas penúrias e sonhos, é como uma desmistificação do intelectual, uma humanização do artista. Que pensa disto?

Quando entrego um romance ao meu editor, não volto a pensar nele.

Que escritores foram chaves de sua educação sentimental literária e quais não aconselharia a leitura?

Cervantes, Stendhal, Rimbaud, Poe. E que cada um leia o quiser e puder. Eu, ao menos esta noite, me sinto incapaz de desaconselhar qualquer coisa.

Da narrativa atual, o que o atrai?

Da narrativa latino-americana: Rodrigo Rey Rosa, Daniel Sada, Rodrigo Fresán, Alan Pauls.

Que pensa do autobiográfico na literatura?

Tudo, de alguma maneira, é autobiográfico, o que demonstra, por acaso, a inutilidade de se escrever autobiografias.

Que significa para você a data de 11 de setembro?

Uma putaria. O início de um baile parecido com o de San Vito. A queda de Allende mais a festa nacional da Catalunha, que comemora outra derrota, mais o ataque dos suicidas às Torres Gêmeas, que vem a ser uma terceira derrota da cultura frente à religião. O 11 de setembro catalão eu não vivi na carne, e se tivesse vivido não calaria, pois isso significaria que sou um vampiro ou um imortal. O 11 chileno eu vivi e padeci, e como tinha vinte anos, também o desfrutei. Os jovens ignoram a morte. Só querem sua dose de adrenalina e sexo, e eu também. O 11 novaiorquino me pegou em Milão, com minha mulher e meus dois filhos, e quando vi a explosão, no primeiro momento, pensei nas imagens que tínhamos nos anos 80 sobre a Terceira Guerra Mundial. É claro que voltamos para o hotel de imediato.

Está escrevendo um romance extenso. Que pode dizer a respeito?

O romance tem mais de mil páginas, e, como pode imaginar, é impossível resumi-lo. Escrever algo tão longo cansa. Trabalhar cansa, como disse Pavese. E eu me canso, além disso, com uma facilidade incrível. Mas este é meu trabalho, e tenho que seguir.

Que te vem à cabeça ao escutar estes nomes?

César Vallejo: a virtude e a torção. A lírica que se autodevora.

Juan Carlos Onetti: para maiores de trinta e três anos.

Jorge Luis Borges: o centro do cânone da América Latina.

Pablo Neruda: dois livros extraordinários e nada mais.

Gabriel García Márquez: um homem encantado de ter conhecido tantos presidentes e arcebispos.

Mario Vargas Llosa: o mesmo, só que mais polido.

Guillermo Cabrera Infante: um escritor estranho.

Na verdade, de todos os escritores que me citou, só me interessam Vallejo, Onetti e Borges.

***

Por Alfonso Carvajal
Especial para EL TIEMPO
Blanes (España)

Fonte: http://www.eltiempo.com/archivo/documento/MAM-1032529

Tradução de Lucas de Sena Lima

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Responses

  1. Que maravilha essa aqui, ri muito com o Bolaño destruindo a pergunta toda elaborada do cara sobre Detetives Selvagens.

  2. Pessoal, o Bolaño morreu com 50 anos. É preciso arrumar o “54 anos”.

    Abraços e parabéns pela iniciativa do blog.


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