Publicado por: estrelaselvagem | 7 de Abril de 2010

Tertulia in vitro − Os Detetives Selvagens

Comala.com − 26 de julho de 1999

Literatura, América-Latina e o Prêmio Rômulo Gallegos

Roberto Bolaño, em sua visita a Caracas para receber o Prêmio Rômulo Gallegos por seu romance Os Detetives Selvagens, conversou conosco sobre literatura latino-americana, sua “iniciação ao realismo visceral” e a importância de se ganhar prêmios.

Tertulia in vitro − Os Detetives Selvagens



Rubén Wisotzki (moderador): Dizem que é muito difícil para o autor literário não estar presente em suas obras. Onde podemos encontrar Bolaño em Os Detetives Selvagens?

Roberto Bolaño: Em todas as partes e em nenhuma. Tudo isso é muito relativo.

Lucas Ramírez: Me questionava se o senhor concorda com Savater que a forma mais ética de viver é amar a si mesmo antes de tudo para poder realmente amar os demais, sem falsos moralismos ou a tão na moda solidariedade.

Roberto Bolaño: Creio que é muito bom amar a si mesmo. Mas creio que é muito mais “ético” o compromisso com os demais. Por outro lado, não creio que a solidariedade seja uma moda. Minha geração, por exemplo, fez da solidariedade uma prática da aventura, e ainda que finalmente tudo tenha saído mal, a experiência em si não foi tão má assim. O hedonismo, na verdade, me parece fastidioso. Mas, claro, tudo é uma questão de conceitos.

Rubén Wisotzki (moderador): Por acaso as experiências amorosas de seus personagens são ou foram as suas experiências?

Roberto Bolaño: Muitas das experiências sexuais de meus personagens foram minhas experiências, é claro.

Florangel Gómez: Seu romance me pareceu muito masculino, para ser melhor desfrutado por homens. A isto relacionei o fato de que a única mulher do júri retirou seu voto. O que o senhor pensa a respeito?

Roberto Bolaño: Não creio que meu romance seja um romance masculino. Efetivamente, não creio que existam “romances masculinos” ou romances femininos. O fato de que Ángeles Mastretta não tenha gostado do meu romance, pois se queres que eu te diga, não creio que seja uma questão de sexo senão uma questão de gosto literário. Eu li algumas páginas de Mastretta e até me pareceu uma literatura bastante masculina.

Zuleiva Vivas: Estão todas as suas obras “amarradas” umas com as outras, os personagens dos romances sempre aparecem pelos cantos?

Roberto Bolaño: Não, Zuleiva, alguns personagens aparecem e se repetem, e só em algumas novelas e em alguns contos, não em toda a minha obra.

Teófilo Policastro: Enquanto que para o senhor a literatura é como um trabalho, árduo, pesado, fastidioso, igualmente você a entende como uma área em que há de se ser tremendamente competitivo?

Roberto Bolaño: No mercado da literatura há que ser tremendamente competitivo. O que acontece é que eu não me sinto parte do mercado, ainda que de certa forma esteja nele. Com isto quero dizer que meus livros são vendidos, entram no circuito das navalhas, mas também quero dizer que eu não faço nada para estar e para permanecer nele. O mercado da literatura, por outra parte, não tem nada a ver com a literatura real, aquela que se faz na solidão, sem pensar nos leitores e muito menos nas vendas, como um exercício de liberdade e como um exercício que envolve altas doses de perigo.

Teófilo Policastro: Quais são as doses de perigo que “envolvem escrever na solidão”?

Roberto Bolaño: Escrever é perigoso. Se a literatura não é perigo, não é nada. E te repito, Teófilo, que não tenho nada a ver com o mercado. Cobro, me preocupam seus cheques, mas não tenho nada a ver com ele.

Ricardo Bello: Quais são os cinco autores da literatura que mais leu? Quais são os autores que mais te influenciaram em sua maneira de ver o mundo como construtores de realidade?

Roberto Bolaño: Primeira pergunta: Mark Twain, Victor Hugo, Stendhal, Flaubert, Balzac. Creio. Em outro momento poderia dar outros cinco nomes. Segunda pergunta: não sei.

Nanda López: Como se sente quando o consideram um dos escritores de relevância do boom latino-americano?

Roberto Bolaño: Quem me considera assim?

Zuleiva Vivas: Você explorou a escritura idealizando estratégias “para fazer leitores”?

Roberto Bolaño: Para nada. Para nada!

Amambay Guevara: Olá, obrigado por estar no cyberespaço, gostaria de saber qual o romance que sonha em escrever?

Roberto Bolaño: Um romance que se chamará 2666.

Sonia González: Você falou de compromisso: qual o compromisso que sente com mais força, Bolaño?

Roberto Bolaño: O compromisso com meu filho Lautaro, de nove anos.

Ricardo Bello: Conhece as obras do escritor norte-americano Don De Lillo?

Roberto Bolaño: Claro. De Lillo é um dos melhores escritores vivos que há no mundo. Gosto de De Lillo.

Marisela Huerta: Venezuela recebeu muitos exilados do Sul. Sei das decisões que se tomam quando se escolhe um novo país. Quais foram suas considerações, se houve, no momento de deixar o Chile e decidir por um novo destino?

Roberto Bolaño: Nenhuma. Eu então tinha 20 anos e acreditava que em todas as partes seria mal recebido e então dava na mesma qualquer lugar. Em qualquer caso, estivesse onde estivesse estaria melhor que no Chile.

Ruben Wisotzki (moderador): Quem é o De Lillo da literatura latino-americana para o senhor?

Roberto Bolaño: Esta é uma pergunta difícil. Às vezes, Rodrigo Rey Rosa. Acontece que RRR escreve contos, a maioria, além do mais, muitos breves, e De Lillo escreve romances, a maioria extensos.

Ricardo Bello: Gosto de Underworld, seu último romance, mas gostei muito de Mao II. Qual mais te agradou?

Roberto Bolaño: Não conheço Underworld. Mao II é realmente esplêndido. Tanto quanto Ruído Branco, de que já ia dizer.

Ricardo Bello: Se gosta de De Lillo, te agradaria ler Bruce Sterling, um escritor de ficção científica com muito humor. Seu romance Holy Fire é fabuloso. Acaba de publicar outro, Distraction, mas ainda não li. Luz igual de ácido, ácido como hiper-realista, sem piedade nas imagens e diálogos.

Roberto Bolaño: Não conheço Sterling. Tomo nota. Meu escritor favorito de ficção científica é Philip K. Dick. E um esquecido: James Tiptree Jr., que na realidade é uma mulher, uma das maiores dos EUA, chamada Alice Sheldon.

Ricardo Bello: Philip K. Dick é o mestre de todos eles, é verdade, mas na nova geração, e quase igual aos bons, creio que os melhores são Sterling e William Gibson. Uma pergunta: este romance 2666 seria uma ficção científica? Se passa na América Latina?

Roberto Bolaño: Em partes, será de ficção científica. Transcorre no estado de Sonora, no norte do México, e no Arizona.

Zueiva Vivas: Se considera um escritor latino-americano?

Roberto Bolaño: Sim. Ficaria encantado em ser um escritor belga. Mas sou latino-americano.

Zueiva Vivas: A respeito de cinema e literatura, alguns filmes influenciaram sua escrita?

Roberto Bolaño: Em minha escrita, poucos, talvez nenhum. Na minha vida, muitos. Sin aliento (À bout de souffle, 1959), de Godard, por exemplo.

Nury Jiménez: Vejo por suas respostas e pela entrevista ao El Nacional que o senhor é, como dizemos por aqui, muito ácido ou descrente. O senhor enfrenta a vida com desconfiança?

Roberto Bolaño: Enfrento a vida com muitos temores.

Zueiva Vivas: A que horas escreve? Quantas horas ao dia? Consome algum tipo de estimulante para concentrar-se na escrita, café, etc?

Roberto Bolaño: Pela manhã. Muitas, demasiadas para o meu gosto. Fumo.

Teófilo Policastro: Posso parecer um pouco obstinado, mas já não me meto com o assunto do mercado. Mas, qual o perigo de escrever?

Roberto Bolaño: O de perder a cabeça, em mais de um sentido.

Luis Martínez: Sr. Bolaño, já teve a ocasião, seguramente, de conhecer algo do presidente Chávez, muito dado a citar escritores. Se lhe pedisse uma recomendação literária, que lhe diria?

Roberto Bolaño: Poemas y antipoemas, de Nicanor Parra.

Maurica Salazar: Não lhe parece que há muitos livros? Não lhe angustia estar contribuindo com mais? Um beijo e felicidades.

Roberto Bolaño: Eu creio que nunca há livros demais. Há livros ruins, péssimos, piores, etc., mas nunca livros demais.

Ruben Wisotzki (moderador): Que defeito encontra em sua literatura e qual acerto?

Roberto Bolaño: Querido Wisotzki, a verdade é que eu não sei, mas prometo que vou investigar.

Ruben Wisotzki (moderador): Até aqui Roberto Bolaño se conectou com todos os internautas. Em poucos segundos partirá para se informar da saúde de seu filho. Para finalizar, que livro já leu para seu filho que deseja seguir lendo para sempre?

Roberto Bolaño: Peter Pan. Adeus. Obrigado.

Fonte: http://www.comala.com/modelo/tertulia-comala.asp?toc=4

Tradução de Lucas de Sena Lima

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