Publicado por: estrelaselvagem | 20 de Maio de 2010

A última entrevista de Roberto Bolaño

Estrela Distante – A última entrevista de Roberto Bolaño

Por Monica Maristain – Playboy México, 2003

***

No impreciso panorama da literatura de língua espanhola, um espaço em que todos os dias aparecem jovens escritores mais preocupados em ganhar bolsas e postos nos consulados que contribuir com algo para a criação artística, se destaca a figura de um homem enxuto, mochila azul nas costas, grande óculos, cigarro sempre entre os dedos, ironia fina à disposição sempre que necessário.

Roberto Bolaño, nascido no Chile em 1953, é o melhor que tem acontecido há muito tempo no ofício da escrita. Desde que com seu monumental Os Detetives Selvagens, talvez o grande romance mexicano da contemporaneidade, se fez famoso e ganhou os prêmio Herralde (1998) e Rômulo Gallegos (1999), sua influência e sua figura seguiu em crescimento constante: tudo o que disse, com seu afiado humor, com sua inteligência requintada, tudo o que escreve, com sua pluma certeira, de grande risco poético e profundo compromisso criativo, é digno de atenção dos que o admiram e, é claro, dos que o detestam.

O autor, que aparece como personagem do romance Os Soldados de Salamina, de Javier Cercas, e que é homenageado no último romance de Jorge Volpi, O Fim da Loucura, é, como todo homem genial, um divisor de opiniões, um gerador de antipatias acirradas, apesar de seu caráter terno, sua voz entre débil e rouca, com a qual responde, cortez, como todo bom chileno, que não escreverá um conto para esta revista pois seu próximo romance, que tratará dos assassinatos de mulheres em Ciudad Juárez, está com 900 páginas, e não conseguiu ainda terminá-la.

Roberto Bolaño vive em Blanes, Espanha, e está muito doente. Espera que um transplante de fígado lhe dê paz para viver com essa intensidade que tanto louvam aqueles que têm a sorte de viver com ele na intimidade. Dizem eles, seus amigos, que às vezes se esquece de ir ao médico enquanto escreve.

Aos 50 anos, este homem que percorreu a América Latina como mochileiro, que escapou das foices do pinochetismo porque um dos guardas que o encarceravam era seu amigo na escola, que viveu no México, que conheceu os militantes de Farabundo Martí que logo se tornaram os assassinos do poeta Roque Danton em El Salvador, que foi vigilante em um camping catalão, vendedor de bijuterias na Europa e sempre um ladrão de bons livros porque ler não é só uma questão de atitude, este homem, dizíamos, transformou o rumo da literatura latino-americana. E não o fez sem avisar ou pedir permissão, como havia feito Juan Garcia Madero, anti-herói adolescente de Os Detetives Selvagens: “Estou no primeiro semestre do curso de Direito. Eu não queria estudar direito, e sim Letras, mas minha tia insistiu e no final acabei concordando. Sou órfão. Serei advogado. Isso foi o que disse ao meu tio e a minha tia e logo me tranquei no meu quarto e chorei a noite toda”. De resto, as 608 páginas restantes de um romance cuja importância foi comparada pelos críticos ao Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar, e até com Cem anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez. Ele diria, diante de tantas hipérboles: de jeito nenhum. Assim vamos melhor com o que importa neste momento: a entrevista.

Te deu algum valor na vida ter nascido disléxico?

Nenhum. Problemas quando jogava futebol, sou canhoto. Problemas quando me masturbava, sou canhoto. Problemas quando escrevia, sou destro. Como pode ver, nenhum problema importante.

Enrique Vila-Matas seguiu sendo seu amigo logo após a briga que você teve com os organizadores do Prêmio Rômulo Gallegos?

Minha briga com o jurado e os organizadores do Prêmio foi devido, basicamente, a que eles pretendiam que eu avaliasse, em Blanes, às cegas, uma seleção da qual eu não havia participado. Seus métodos, que uma pseudo-poeta chavista me transmitiu por telefone, se pareciam muito com os argumentos desencorajadores da Casa das Américas cubana. Me pareceu um terror enorme que Daniel Sada ou Jorge Volpi fossem eliminados de cara, por exemplo. Eles disseram que o que eu queria era viajar com minha mulher e filhos, algo totalmente falso. Da minha indignação por esta mentira surgiu a carta na qual os chamei de neo-stalinistas e algo mais, suponho. Na verdade, me informaram que eles pretendiam, desde o início, premiar outro autor, que não o Vila-Matas, precisamente, cujo romance me parece bom, e que sem dúvida era um de meus candidatos.

Por que não há ar condicionado no seu escritório?

Porque meu lema não é Et in Arcadia ego, e sim Et in Esparta ego.

Não crê que se você tivesse se embriagado ao lado de Isabel Allende e Ángeles Mastretta seria outra sua opinião sobre seus livros?

Não creio. Primeiro, porque essas senhoras evitam beber com alguém como eu. Segundo, porque eu já não bebo. Terceiro: porque nem em minhas piores bebedeiras eu perdi um mínimo de lucidez, um sentido da prosódia e do ritmo, uma certa ojeriza diante do plágio, a mediocridade ou o silêncio.

Qual a diferença entre uma escrevedora e uma escritora?

Uma escritora é Silvina Ocampo. Uma escrevedora é Marcela Serrano. Os anos-luz que separam uma da outra.

Quem lhe fez crer que você é melhor poeta que narrador?

A gradação do rubor que sinto quando, por pura causalidade, abro um livro meu de poesia ou um de prosa. Me ruboriza menos o de poesia.

Você é chileno, espanhol ou mexicano?

Sou latino-americano

O que é a pátria para você?

Lamento ter que te dar uma resposta tão cafona. Minha única pátria são meus dois filhos, Lautaro e Alexandra. E talvez, mas em segundo plano, alguns instantes, algumas ruas, alguns rostos ou cenas ou livros que estão dentro de mim e que algum dia esquecerei, que é o melhor que alguém pode fazer pela pátria.

O que é a literatura chilena?

Provavelmente os pesadelos do poeta mais ressentido e triste e acaso o mais covarde dos poetas chilenos: Carlos Pezoa Véliz, morto no início do século XX, e autor de somente dois poemas memoráveis, mas, isso sim, verdadeiramente memoráveis, e que nos segue, sonhando e sofrendo. É possível que Pezoa Véliz ainda não tenha morrido e esteja agonizando e que seu último minuto seja um minuto bastante longo, não?, e todos estejamos dentro dele. Ou ao menos que todos os chilenos estejamos dentro dele.

Por que você gosta de se contradizer?

Eu nunca me contradigo.

Você tem mais amigos ou inimigos?

Tenho suficientes amigos e inimigos, todos gratuitos.

Quem são seus amigos íntimos?

Meu melhor amigo foi o poeta Mario Santiago, que morreu em 1998. Atualmente, três de meus melhores amigos são Ignacio Echevarría, Rodrigo Fresán e A. G. Porta.

António Skármeta te convidou alguma vez para seu programa?

Uma secretária dele, talvez sua mucama, me telefonou uma vez. Disse que estava muito ocupado.

Javier Cercas dividiu com você os lucros de Soldados de Salamina?

Claro que não.

Enrique Lihn, Jorge Teillier ou Nicanor Parra?

Nicanor Parra acima de todos, inclusive de Pablo Neruda, Vicente Huidobro e Gabriela Mistral.

Eugenio Montale, T. S. Eliot ou Xavier Villaurrutia?

Montale. Se em lugar de Eliot estivesse James Joyce, poria Joyce. Se em lugar de Eliot estivesse Ezra Pound, sem dúvida Pound.

John Lennon, Lady Di ou Elvis Presley?

The Pogues. Ou Suicide. Ou Bob Dylan. Mas, bem, não nos ponhamos melindrosos: Elvis forever. Elvis com um distintivo de xerife conduzindo um Mustang e se entupindo de remédios, com sua voz de ouro.

Quem lê mais: você ou Rodrigo Fresán?

Depende. O Oeste é para Rodrigo. O Leste para mim. Logo nos contamos os livros de nossas áreas correspondentes e acaba parecendo que lemos tudo.

Qual é para você o melhor poema de Pablo Neruda?

Quase qualquer um de Residência na Terra.

O que teria dito a Gabriela Mistral se a tivesse conhecido?

Mamãe, me perdoa, eu fui mal, mas o amor de uma mulher fez com que eu me tornasse bom.

E a Salvador Allende?

Pouco ou nada. Os que têm o poder (ainda que seja por pouco tempo) não sabem nada de literatura, só interessa a eles o poder. E eu posso ser o palhaço de meus leitores, se me der vontade, mas nunca dos poderosos. Soa um pouco melodramático. Soa como a declaração de uma puta honrada. Mas, enfim, é o que é.

E a Vicente Huidobro?

Huidobro me aborrece um pouco. Muito blablablá, muito paraquedista que cai cantando como um tirolês. São bem melhores os paraquedistas que caem envoltos em chamas ou, a propósito, aqueles cujos paraquedas não abrem.

Octavio Paz segue sendo seu inimigo?

Para mim, certamente, não é. Não sei o que pensariam os poetas que durante essa época, quando vivi no México, escreviam como seus clones. Faz muito tempo eu não sei o que é a poesia mexicana. Releio José Juan Tablada e Ramón López Velarde, inclusive posso recitar, se surgir a oportunidade, a Sór Juana, mas não sei nada do que escrevem os que, como eu, já beiram os cinquenta anos.

Não daria agora este papel a Carlos Fuentes?

Faz muito tempo que não leio Carlos Fuentes.

Que reação te dá saber que Arturo Pérez Reverte é atualmente o escritor mais lido em língua espanhola?

Pérez Reverte ou Isabel Allende. Dá no mesmo. Feuillet era o autor francês mais lido de sua época.

E o fato de Arturo Pérez Reverte ter ingressado na Real Academia?

A Real Academia é uma caverna de crânios privilegiados. Não está lá Juan Marsé, não está Juan Goytisolo, não está Eduardo Mendoza nem Javier Marías, não está lá Olvido García Valdez, não me lembro se Alvaro Pombo está (provavelmente se estiver se trata de um equívoco), mas está Pérez Reverte. Bom, Paulo Coelho também está na Academia Brasileira.

Se arrepende de ter criticado o cardápio que lhe fora servido por Diamela Eltit?

Nunca critiquei o cardápio. Se fiz algo, foi criticar seu humor, um humor vegetariano, ou melhor, sua dieta.

Lhe dói que ela considere você uma má pessoa depois da crônica daquela cena malograda?

Não, pobre Diamela, não me dói. Me doem outras coisas.

Verteu alguma lágrima pelas numerosas críticas que têm recebido por parte de seus inimigos?

Muitíssimas, cada vez que leio que alguém fala mal de mim me ponho a chorar, me arrasto pelo chão, me arranho, deixo de escrever por tempo indeterminado, cai meu apetite, fumo menos, faço algum esporte, saio a caminhar pela orla do mar, que, a propósito, está a menos de trinta metros da minha casa, e pergunto às gaivotas, cujos antepassados comeram os peixes que comeram Ulisses: por que eu? Por que eu, que não fiz mal nenhum a eles?

Qual a opinião sobre sua obra à qual você dá mais crédito?

Leem meus livros Carolina [sua esposa] e depois [Jorge] Herralde [editor da Anagrama], e depois procuro esquecê-los para sempre.

O que comprou com o dinheiro ganho no Prêmio Rômulo Gallegos?

Não muitas coisas. Uma maleta, pelo que creio lembrar.

Da sua época em que vivia de concursos literários, houve algum que não conseguiu ganhar?

Nenhum. Os conselhos espanhóis, neste aspecto, são de uma integridade acima de qualquer suspeita.

Era um bom garçom ou se deu melhor como vendedor de bijuterias?

O ofício em que me dei melhor foi o de vigilante noturno de um camping próximo à Barcelona. Nunca ninguém roubou nada enquanto estive ali. Impedi algumas brigas que poderiam ter terminado muito mal. Evitei um linchamento (ainda que, depois, de boa vontade eu mesmo teria linchado ou estrangulado o tipo em questão).

Chegou a experimentar a fome feroz, o frio que cala os ossos, o calor desconsolador?

Como disse Vittorio Gassman em um filme: modestamente, sim.

Roubou algum livro que logo depois não gostou?

Nunca. O bom de roubar livros (e não caixas fortes) é que se pode examinar detidamente seu conteúdo antes de perpetrar o delito.

Caminhou alguma vez no meio do deserto?

Sim, em uma ocasião, e no braço de minha avó. A velha senhora era incansável, e pensei que daquela não escaparíamos.

Já viu peixes coloridos debaixo d’água?

Com certeza. Em Acapulco, sem ter que ir mais longe, no ano de 1974 ou 1975.

Já queimou a pele com um cigarro?

Nunca voluntariamente.

Já talhou em um tronco de árvore o nome da pessoa amada?

Já cometi excessos ainda maiores, mas escondamos isto.

Já viu alguma vez a mulher mais bela do mundo?

Sim, quando trabalhava em uma tenda, lá pelo ano de 1984. A tenda estava vazia e entrou uma mulher hindu. Parecia e talvez fosse uma princesa. Me comprou alguns colares de bijuteria. Eu, em contrapartida, estava a ponto de desmaiar. Tinha a pele cor de cobre, o cabelo comprido, vermelho, e era perfeita demais. A beleza atemporal. Quando tive que cobrar me senti muito envergonhado. Ela sorriu pra mim como se dissesse que me entendia e que não se preocupava. Logo desapareceu e nunca mais voltei a ver alguém assim. Às vezes tenho a impressão de que era a mesmíssima deusa Kâlî, mãe dos ladrões e dos órfãos, só que Kâlî também era a divindade dos assassinos, e esta hindu não só era a mulher mais bela da Terra como também parecia ser uma boa pessoa, muito doce e atenciosa.

Gosta de cachorros ou gatos?

Cachorros, mas hoje não tenho mais animais.

O que se lembra da sua infância?

Tudo. Não tenho uma memória ruim.

Colecionava figurinhas?

Sim, de futebol e de atores e atrizes de Hollywood.

Tinha patins?

Meus pais cometeram o erro de presentear-me com um par de patins quando vivíamos em Valparaíso, que é uma cidade de colinas. O resultado foi desastroso. Cada vez que eu punha os patins era como se quisesse me suicidar.

Qual seu clube de futebol?

Agora nenhum. Os que caíram para a segunda divisão e logo, consecutivamente, para a terceira e a regional até desaparecerem. Os clubes fantasmas.

Com qual personagem da história universal gostaria de se parecer?

Com Sherlock Holmes. Com Capitão Nemo. Com Julien Sorel, nosso pai, com o príncipe Mishkin, nosso tio, com Alice, nossa professora, com Houdini, que é um misto de Alice, de Sorel e de Mishkin.

Se apaixonava pelas vizinhas mais velhas?

Com certeza.

As colegas de escola prestavam atenção em você?

Creio que não. Ao menos me convencia de que não.

O que você deve às mulheres da sua vida.

Muitíssimo. O sentido do desafio e as altas apostas. E outras coisas que calo por pudor.

Elas devem algo a você?

Nada.

Sofreu muito por amor?

A primeira vez, muito, depois aprendi a levar as coisas com um pouco mais de humor.

E por ódio?

Ainda que soe um pouco pretensioso, nunca odiei ninguém. Ao menos estou seguro de ser capaz de um ódio convicto. E se o ódio não é convicto, não é ódio, certo?

Como se apaixonou por sua esposa?

Cozinhando arroz para ela. Nesta época eu era muito pobre e minha dieta era basicamente de arroz, de modo que aprendi a cozinhá-lo de muitas formas.

Como foi o dia em que se tornou pai pela primeira vez?

Era noite, pouco antes das 12, eu estava só, e como não podia fumar no hospital, fumei um cigarrinho imaginário no quarto andar. Ainda bem que ninguém me viu da rua. Somente a lua, como diria Amado Nervo. Quando voltei, uma enfermeira disse que meu filho havia nascido. Era muito grande, quase careca, e com os olhos abertos como que perguntando que diabos era esse cara que o tinha nos braços.

Lautaro será escritor?

Só espero que seja feliz. Se for assim, é melhor que seja outra coisa. Piloto de avião, por exemplo, ou cirurgião plástico, ou editor.

Que coisas vê nele como suas?

Por sorte ele se parece muito mais com sua mãe que comigo.

Fica preocupado com as listas de vendas de seus livros?

O mínimo possível.

Pensa alguma vez em seus leitores?

Quase nunca

Que coisas das que dizem seus leitores sobre os seus livros chegaram a te comover?

Me comovem os leitores verdadeiros, os que ainda se atrevem a ler o Dicionário Filosófico de Voltaire, que é uma das obras mais amenas e modernas que conheço. Me comovem os jovens de ferro que leem Cortázar e Parra, tal como eu os li e como pretendo seguir os lendo. Me comovem os jovens que dormem com um livro debaixo da cabeça. Um livro é a melhor almofada que existe.

Quais coisas te enojam?

A essa altura, enojar-se é perder tempo. E, lamentavelmente, na minha idade o tempo conta.

Já teve medo alguma vez de seus fãs?

Já tive medo dos fãs de Leopoldo María Panero, o qual, por outro lado, me parece um dos três maiores poetas vivos da Espanha. Em Pamplona, durante um ciclo organizado por Jesús Ferrero, Panero fechava o ciclo, e à medida que se aproximava o dia de sua leitura a cidade ou o bairro onde estava nosso hotel foi sendo tomada de freaks que pareciam recém escapados de um manicômio, que, por outro lado, é o melhor público que pode desejar qualquer poeta. O problema é que alguns não só pareciam loucos senão também assassinos, e Ferrero e eu tememos que alguém, em algum momento, se levantasse e dissesse: eu matei Leopoldo María Panero e depois lhe desse quatro balaços na cabeça do poeta, e já aproveitando, um em Ferrero e outro em mim.

Que sente quando críticos como Darío Osses dizem que consideram que você é o escritor latino-americano com mais futuro?

Deve ser uma brincadeira. Eu sou o escritor latino-americano com menos futuro. Sou um dos que têm mais passado, isso sim, que no fim das contas é só o que importa.

Te desperta curiosidade o livro crítico que sua compatriota Patricia Espinoza está preparando?

Nenhuma. Espinoza me parece uma crítica muito boa, independente de como constarei em seu livro, suponho que não muito bem, mas o trabalho de Espinoza é necessário no Chile. Na verdade, a necessidade de uma, digamos assim, nova crítica, é algo que começa a ser urgente em toda a América Latina.

E o da argentina Celina Manzoni?

Celina conheço pessoalmente e a quero muito bem. A ela dediquei um dos contos de Putas Assassinas.

Que coisas te aborrecem?

O discurso vazio da esquerda. O discurso vazio da direita já é de se esperar.

Que coisas te divertem?

Ver brincar minha filha Alexandra. Tomar café da manhã num bar ao lado do mar e comer um croissant lendo um jornal. A literatura de Borges. A literatura de Bioy. A literatura de Bustos Domecq. Fazer amor.

Escreve à mão?

A poesia, sim. O resto, em um computador velho de 1993.

Feche os olhos. Qual das paisagens da América Latina pelos quais você percorreu te vem primeiro na memória?

Os lábios de Lisa em 1974. O velho caminhão do meu pai em uma estrada no deserto. O pavilhão de tuberculosos de um hospital de Cauquenes e minha mãe dizendo a mim e à minha irmã para que prendêssemos a respiração. Uma excursão a Popocatépetl com Lisa, Mara e Vera e alguém mais de que não me lembro, ainda que lembre dos lábios de Lisa, seu sorriso extraordinário.

Como é o paraíso?

Como Veneza, espero, um lugar cheio de italianas e italianos. Um lugar que se usa e se desgasta e que se sabe que nada perdura, nem o paraíso, e que isto ao fim e ao cabo não importa.

E o inferno?

Como Ciudad Juárez, que é nossa maldição e nosso espelho, o espelho inquieto de nossas frustrações e de nossa infame interpretação da liberdade e de nossos desejos.

Quando soube que estava gravemente enfermo?

Em 1992.

Que coisas no seu caráter mudaram com a enfermidade?

Nenhuma. Soube que não era imortal, o que, aos 38 anos, já era hora que soubesse.

Que outras coisas deseja fazer antes de morrer?

Nenhuma em especial. Bom, preferia não morrer, claro. Mas cedo ou tarde a distinta dama chega, o problema é que às vezes não é uma dama, muito menos distinta, senão é, como disse Nicanor Parra em um poema, é uma puta ardente, que é algo que faz o mais corajoso bater os dentes.

Com quem gostaria de se encontrar do outro lado?

Não creio no outro lado. Se existir, que surpresa. Me matricularia de imediato em algum curso que Pascal estivesse dando.

Já pensou alguma vez em suicídio?

Com certeza. Em alguma ocasião sobrevivi somente porque sabia como me suicidar caso as coisas piorassem.

Acreditou alguma vez que estava ficando louco?

Com certeza. Mas o que sempre me salvou foi o senso de humor. Contava histórias a mim mesmo que me faziam enlouquecer de tanto de rir. Ou recordava situações que me faziam rolar no chão em risos.

A loucura, a morte e o amor. Qual dessas três coisas você mais teve em sua vida.

Espero de todo o coração que tenha sido o amor.

Que coisas o fazem trincar os dentes de rir?

As desgraças próprias e alheias.

Que coisas o fazem chorar?

As mesmas: as desgraças próprias e alheias.

Gosta de música?

Muito.

Você vê sua obra como os seus leitores e críticos veem: acima de tudo Os Detetives Selvagens, e logo todo o restante?

O único romance do qual não me envergonho é Amberes, talvez porque segue sendo ininteligível. As críticas negativas que recebi são minhas medalhas de combate, não em brigas simuladas. O resto de minha “obra”, pois bem, não vai mal, são romances divertidos, o tempo dirá se são algo mais. Por ora me dão dinheiro, traduzem, servem para que eu faça amigos, que são muito generosos e simpáticos, posso viver, e bastante bem, de literatura, de modo que me queixar seria algo gratuito e ingrato. Mas a verdade é que não dou muita importância aos meus livros. Estou muito mais interessado nos livros dos outros.

Não tiraria algumas páginas de Os Detetives Selvagens?

Não, para retirar eu teria que relê-lo, e isto minha religião não permite.

Não lhe dá medo que alguém queira fazer a versão cinematográfica deste romance?

Olha, Mônica, tenho medo é de outras coisas. Digamos, coisas mais assustadoras, infinitamente mais assustadoras.

O conto “El Ojo Silva” é uma homenagem a Julio Cortázar?

De maneira alguma.

Quando terminou de escrever “El Ojo Silva”, não sentiu que havia escrito um conto capaz de estar a altura, por exemplo, de “Casa Tomada”?

Quando terminou de escrever “El Ojo Silva” parei de chorar ou algo parecido. Quisera eu que se parecesse com algum conto de Cortázar, ainda que “Casa Tomada” não é um dos meus favoritos.

Quais são os cinco livros de sua vida?

Meus cinco livros são na realidade cinco mil. Menciono estes só à ponta de lança ou por uma representação perversa: O Quixote, de Cervantes. Moby Dick, de Melville. A Obra Completa, de Borges. O Jogo da Amarelinha, de Cortázar. La conjura de los necios [A Confederacy of Dunces], de Kennedy Toole. Mas também devo citar: Nadja, de Breton. As cartas de Jacques Vaché. Todo Ubú, de Jarry. A vida, instruções de uso, de Perec. O Castelo e O Processo, de Kafka. Os aforismos de Lichtenberg. O Tractatus, de Wittgenstein. A invenção de Morel, de Bioy Casares.  Satiricón, de Petronio. A Historia de Roma, de Tito Livio. Os Pensamentos, de Pascal.

Se dá bem com seu editor?

Bastante bem. Herralde é uma pessoa inteligente e muito encantadora. Talvez a mim me conviesse que não fosse tão encantador. O certo é que faz oito anos que o conheço e, ao menos de minha parte, o carinho não faz mais nada além de crescer, como diz um bolero. Ainda que talvez fosse conveniente não gostar tanto assim dele.

Que acha dos que pensam que Os Detetives Selvagens é o grande romance mexicano da contemporaneidade?

Que o dizem por lástima, me veem caído ou desmaiado nas praças públicas e não lhes ocorre nada melhor que uma mentira piedosa, que a propósito é o mais indicado nestes casos e nem sequer chega a ser um pecado venial.

É verdade que foi Juan Villoro quem te convenceu a não intitular Tormentas de Merda seu romance Noturno do Chile?

Villoro e Herralde.

De quem mais escuta conselhos sobre sua obra?

Não escuto conselhos de ninguém, nem sequer de meu médico. Eu dou conselhos a torto e à direita, mas não escuto nenhum.

Como é Blanes?

Um povoado bonito. Ou uma cidade pequenina, de trinta mil habitantes, bem bonita. Foi fundada há dois mil anos pelos romanos, e logo passaram por aqui gente de todos os lugares. Não é um balneário de ricos, e sim de proletários. Trabalhadores do norte de do leste. Alguns chegam para viver para sempre. A baía é belíssima.

Sente saudade de algo da sua vida no México?

Minha juventude e minhas caminhadas intermináveis com Mario Santiago.

Que escritor mexicano admira profundamente?

Muitos. Da minha geração admiro Sada, cujo projeto de escrita me parece o mais arriscado; Villoro, Carmen Boullosa, entre os mais jovens me interessa muito o que fazem Alvaro Enrigue e Mauricio Montiel, ou Volpi e Ignacio Padilla. Sigo lendo Sergio Pitol, que a cada dia escreve melhor. E Carlos Monsivais, que segue com as unhas afiadas. Também gosto muito do que Sergio González Rodríguez faz.

O mundo tem remédio?

O mundo está vivo, e nada vivo tem remédio, e essa é nossa sorte.

Você tem esperanças? Em quê?

Minha querida Maristain, volta você a me empurrar às pastagens do sentimentalismo, que são minhas pastagens de origem. Eu tenho esperanças nas crianças. Nas crianças e nos guerreiros. Nas crianças que trepam como crianças e nos guerreiros que combatem como os bravos. Por quê? Me remeto à lápide de Borges, como diria o ilustre Gervasio Montenegro, da Academia (como Pérez Reverte, veja você) e não falemos mais neste assunto.

Que sentimentos te despertam a palavra póstumo?

Soa como o nome de um gladiador romano. Um gladiador invicto. Ou ao menos assim quer crer o pobre Póstumo, para dar-se o valor.

Que pensa dos que opinam que você ganhará o Prêmio Nobel?

Estou certo, querida Maristain, de que não ganharei, como também estou certo de que algum vagabundo da minha geração o ganhará e nem sequer me mencionará de passagem no seu discurso de Estocolmo.

Em que momento você foi mais feliz?

Fui feliz em quase todos os momentos de minha vida, ao menos durante um período, inclusive nas circunstâncias mais adversas.

Que gostaria de ser se não fosse escritor?

Gostaria de ter sido detetive de homicídios, muito mais que escritor. Disto estou absolutamente seguro. Um policial de homicídios, alguém que pode voltar só, de noite, da cena do crime, e não se assustar com fantasmas. Talvez então teria ficado louco, mas isto, sendo policial, se soluciona com um tiro na boca.

Confessa que viveu?

Bom, sigo vivo, sigo lendo, sigo escrevendo e vendo filmes, e como disse Arturo Prat aos suicidas de Esmeralda, enquanto eu viver, esta bandeira não baixará.

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Responses

  1. […] toda encapotada. Dei gargalhada como só uma louca pode dar. Depois, li a última entrevista do Bolaño e me animei. Nunca li nenhum dos seus livros, mas aqui e acolá, de uma entrevista ou frase citada, […]

  2. Belo trabalho, tks! Quero muito ler 2666, a expectativa é enorme, abraço M

  3. Bolaño me dá um pouco mais de orgulho por ser homem

  4. […] a entrevista no blog Estrela Selvagem. A imagem veio […]


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