Publicado por: estrelaselvagem | 21 de Junho de 2010

Primeiro Manifesto Infrarrealista

LARGUEM TUDO, NOVAMENTE

Primeiro Manifesto Infrarrealista

Desde os confins do sistema solar há quatro horas-luz; desde a estrela mais próxima, quatro anos-luz. Um desmedido oceano de vazio. Mas estamos realmente certos de que há somente um vazio? Unicamente sabemos que neste espaço não há estrelas luminosas; e se existissem, seriam visíveis? E se existissem corpos não-luminosos ou escuros? Não poderia acontecer nos mapas celestes, igualmente aos da terra, que estejam destacadas as estrelas-cidades e omitidas as estrelas-povoados?

– Escritores soviéticos de ficção científica arranhando-se na cara à meia-noite.

– Os infrassóis (Drummond diria os alegres garotos proletários).

– Peguero e Boria solitários num quarto lumpen pressentindo a maravilha atrás da porta.

– Free Money

*

Quem atravessou a cidade e por única música teve os assovios de seus semelhantes, suas próprias palavras de assombro ou a raiva?

O tipo belo que não sabia

que o orgasmo das garotas é clitoral

(Busquem, não é somente nos museus que há merda) (Um processo de museificação individual) (Certeza de que tudo está nomeado, revelado) (Medo da descoberta) (Medo dos desequilíbrios não previstos)

*

Nossos parentes mais próximos:

os francoatiradores, os planeiros solitários que assolam os cafés dos mestiços da latino-américa, os massacrados em supermercados, em suas tremendas desjuntivas indivíduo-coletividade; a impotência da ação e da busca (a níveis individuais ou bem enlameados em contradições estéticas) da ação poética.

*

Pequeninas estrelas luminosas guiando-nos eternamente o olho a um lugar do universo chamado Os labirintos.

– Dancing club da miséria

– Pepito Tequila soluçando seu amor por Lisa Underground.

– Chupe-se-o, chupe-te-o, chupe-mo-no

-E o Horror

*

Cortinas de água, cimento ou lata, separam uma maquinaria cultural, a que o mesmo lhe serve de consciência ou o cu da classe dominante, de um acontecer cultural vivo, esfregado, em constante morte ou nascimento, ignorante de grande parte da história e das belas-artes (criador cotidiano de sua louquíssima história e de suas alucinantes velhas-artes), corpo que de imediato experimenta em si mesmo sensações novas, produto de uma época em que nos aproximamos a 200 km/h da privada ou da revolução.

“Novas formas, raras formas”, como dizia entre curioso e risonho o velho Bertold.

*

As sensações que não surgem do nada (obviedade de obviedades), senão da realidade condicionada, de mil maneiras, a um constante fluir.

– Realidade múltipla, marés a nós!

Assim é possível que por um lado nasçamos e por outro estejamos nas primeiras poltronas dos últimos estertores. Formas de vida e formas de morte passeiam entre si cotidianamente pela retina. Seu choque constante dá vida às formas infrarrealistas: O OLHO DA TRANSIÇÃO.

*

Enfiem toda a cidade no manicômio. Doce irmã, barulhos de tanque, canções hermafroditas, desertos de diamante, só viveremos uma vez e as visões a cada dia mais brutas e escorregadias. Doce irmã, passeio para Monte Albán. Apertem os cintos porque se regam os cadáveres. Um movimento a menos.

*

E a boa cultura burguesa? E a academia e os incendiários? E as vanguardas e suas retaguardas? E certas concepões do amor, a boa paisagem, a Colt precisa e multinacional?

Como me disse Saint-Just num sonho que tive faz tempo: Até as cabeças dos aristocratas podem nos servir de armas.

*

Uma boa parte do mundo vai nascendo e outra boa parte vai morrendo, e todos sabemos que todos temos que viver ou todos morrer: e nisto não há meio-termo.

Chirico disse: é necessário que o pensamento se alheie de tudo o que se chama lógica e bom sentido, que se alheie de todas as travas humanas de tal modo que as coisas lhe apareçam sob um novo aspecto, como que iluminadas por uma constelação aparecida pela primeira vez. Os infrarrealistas dizem: vamos cair de cabeça em todas as travas humanas, de tal modo que as coisas comecem a se mover dentro de si mesmas, uma visão alucinante do homem.

– A constelação do Belo Pássaro.

– Os infrarrealistas propõem ao mundo o indigenismo: um índio louco e tímido.

– Um novo lirismo, que na América Latina começa a crescer, a se sustentar em maneiras que não deixam de nos maravilhar. O começo do assunto é o começo da aventura: o poema como uma viagem e o poeta como um herói desvendador de heróis. A ternura como um exercício de velocidade. Respiração e calor. A experiência disparada, estruturas que vão se devorando a si mesmas, contradições loucas.

Se o poeta está imiscuído, o leitor terá que imiscuir-se.

“livros eróticos sem ortografia

*

Nos antecedem as MIL VANGUARDASD ESQUARTEJADAS DOS ANOS 60.

As 99 flores abertas como uma cabeça aberta.

As matanças, os novos campos de concentração.

Os brancos rios subterrâneos, os ventos violetas.

São tempos duros para a poesia, dizem alguns, tomando chá, escutando música em seus departamentos, falando (escutando) os velhos maestros. São tempos duros para o homem, dizemos nós, voltando às trincheiras depois de uma jornada cheia de merda e gases lacrimogênios, descobrindo/criando música  para os departamentos, olhando longamente os cemitérios-que-se-expandem, onde tomam desesperadamente uma xícara de chá ou se embriagam de pura raiva ou inércia os velhos maestros.

Nos antecede a HORA ZERO.

((Crie cafuzos e eles te morderão os calos))

Ainda estamos na era quaternária. Ainda estamos na era quaternária?

Pepito Tequila beija os mamilos fosforescentes de Lisa Underground e a vê afastar-se por uma praia onde brotam pirâmides negras.

*

Repito:

o poeta como um herói desvendador de heróis, como a árvore vermelha caída que anuncia o princípio do bosque.

– As intenções de uma ética-estética consequente estão empedrados de traições ou sobrevivências patéticas.

– E é que o indivíduo poderá andar mil quilômetros, mas ao largo do caminho ele o come.

– Nossa ética é a Revolução, nossa estética a vida: uma só coisa.

*

Os burgueses e os pequenos-burgueses estão em festa. Todos os finais de semana têm uma. O proletariado não tem festa. Somente funerais com ritmo. Isto vai mudar. Os explorados terão uma grande festa. Memória e guilhotinas. Intuí-la, atuá-la certas noites, inventar-lhe arestas e cantos úmidos, é como acariciar os olhos ácidos do novo espírito.

*

Deslocamento do poema através das temporadas dos motins: a poesia produzindo poetas produzindo poemas produzindo poesia. Não um corredor elétrico / o poeta com os braços separados do corpo / o poema deslocando-se lentamente de sua Visão a sua Revolução. O corredor é um ponto múltiplo: “Vamos inventar para descobrir sua contradição, suas formas invisíveis de negar-se, até esclarecê-lo”. Deslocamento do ato de escrever para zonas nada propícias ao ato de escrever.

Rimbaud! Volte pra casa!

Subverter a realidade cotidiana da poesia atual. Os encadeamentos que conduzem a uma realidade circular do poema. Uma boa referência: o louco Kurt Schwitters. Lanke trr gll, o, upa kupa arggg, sucedem em linha oficial, investigadores fonéticos codificando o uivo. As pontes do Noba Express são anticodificantes: deixem que grite, deixem que grite, (por favor, não vão pegar um lápis nem um papel, nem o gravem, se querem participar, gritem também), sendo assim, deixem que grite, pra ver que cara faz quando acabar, por qual outra coisa incrível passamos.

Nossas pontes para as temporadas ignoradas. O poema inter-relacionando realidade e irrealidade.

Convulsivamente.

*

Que posso pedir à atual pintura latino-americana? Que posso pedir ao teatro?

Mais revelador e plástico é parar em um parque demolido pelo smog e ver as gentes cruzando em grupos (que se comprimem e que se expandem) as avenidas, quando tanto aos automobilistas quanto aos pedestres é urgente chegar às suas casas, e é a hora em que os assassinos saem e as vítimas os seguem.

Realmente, que histórias me contam os pintores?

O vazio interessante, a forma e a cor fixas, no melhor dos casos a paródia do movimento. Pinturas que só servirão de anúncios luminosos nas salas dos engenheiros e médicos que as colecionam.

O pintor que se acomoda em uma sociedade que a cada dia é mais “pintora” que ele mesmo, e aí é onde ele se encontra desarmado e passa por palhaço.

Se um quadro de X é encontrado em alguma rua por Mara, esse quadro adquire a categoria de coisa divertida e comunicante; é um salão tão decorativo como as cadeiras de ferro do jardim do burguês / questão de retina? / sim e não / mas melhor seria encontrar (e por um tempo sistematizar aleatoriamente) o fator detonante, classista, cem por cento propositivo da obra, em justaposição aos valores de “obra” que a estão precedendo e condicionando.

O pintor deixa o estúdio e QUALQUER status quo e cai de cabeça na maravilha / ou se põe a jogar xadrez como Duchamp / uma pintura didática para a mesma pintura / E uma pintura da pobreza, grátis ou bastante barata, inacabada, de participação, de questionamento na participação, de extensões físicas e espirituais ilimitadas.

A melhor pintura da América Latina é a que ainda se faz a níveis inconscientes, o jogo, a festa, o experimento que nos dá uma visão real do que somos e nos abre ao que podemos será a melhor pintura da América Latina é a que pintamos com verdes e vermelhos e azuis sobre nossos rostos, para reconhecer-nos na criação incessante da tribo.

*

Experimentem largar tudo diariamente.

Que os arquitetos deixem de construir cenários para dentro e que abram as mãos (ou que as empunhem, depende do lugar) para esse espaço de fora. Um muro e um telhado adquirem utilidade quando não só servem para dormir ou evitar chuvas senão quando estabelecem, a partir, por exemplo, do ato cotidiano do sonho, pontes inconscientes entre o homem e suas criações, ou a impossibilidade momentânea destas.

Para a arquitetura e a escultura os infrarrealistas partimos de dois pontos: a trincheira e a cama.

*

A verdadeira imaginação é aquela que dinamita, elucida, injeta micróbios esmeraldas em outras imaginações. Em poesia e no que seja, o começo do assunto tem que ser o começo da aventura. Criar as ferramentas para a subversão cotidiana. As temporadas subjetivas do ser-humano, com suas belas árvores gigantes e obscenas, como laboratórios de experimentação. Fixar, entrever situações paralelas e tão dilacerantes como um grande arranhão no peito, no rosto. Analogia sem fim dos gestos. São tantas que quando aparecem os novos nem nos damos conta, ainda que estejamos fazendo/olhando em frente a um espelho. Noites de tormenta. A percepção se abre mediante uma ética-estética levada até às últimas.

*

As galáxias do amor estão aparecendo na palma de nossas mãos.

– Poetas, joguem as tranças (se as tiverem)

– Queimem suas porcarias e comecem a amar até que cheguem aos poemas incalculáveis.

Não queremos pinturas cinéticas, mas sim enormes entardeceres cinéticos.

Cavalos correndo a 500 quilômetros por hora.

Esquilos de fogo pulando de árvores de fogo.

Uma aposta para ver quem pisca primeiro, entre o nervo e a pílula sonífera.

*

O risco sempre está em outra parte. O verdadeiro poeta é o que sempre está abandonando-se a si mesmo. Nunca por muito tempo no mesmo lugar, como os guerrilheiros, como os ovnis, como os olhos brancos dos prisioneiros da prisão perpétua.

Fusão e explosão de duas margens: a criação como um graffiti resolvido e aberto por um menino louco.

*

Nada mecânico. As escalas do assombro. Alguém, talvez o Bosco, rompe o aquário do amor. Dinheiro grátis. Doce irmã. Visões levianas como cadáveres. Little boys talhando de beijos a dezembro.

*

Às duas da manhã, depois de ter estado na casa de Mara, escutamos (Mario Santiago e alguns de nós) risos que saíam da penthouse de um edifício de 9 andares. Não paravam, riam e riam enquanto nós embaixo dormíamos apoiados em várias cabines telefônicas. Chegou um momento em que só Mario seguia prestando atenção aos risos (a penthouse é um bar gay ou algo parecido e Darío Galicia havia nos contado que está sempre vigiado por policiais). Nós fazíamos chamadas telefônicas mas as moedas eram feitas de água. Os risos continuavam. Depois que nos fomos desta colônia, Mario me contou que realmente ninguém havia rido, eram risos graduais e lá em cima, na penthouse, um grupo reduzido, ou talvez só um homossexual, havia escutado em silêncio seu disco e nos havia feito escutá-lo.

– A morte do cisne, o último canto do cisne, o último canto do cisne negro, não estão no Bolshoi senão na dor e na beleza insuportável das ruas.

– Um arco-íris que começa num filme de má morte e que termina numa fábrica em greve.

– Que a amnésia nunca nos beije na boca. Que nunca nos beije.

– Sonhávamos com utopia e acordamos gritando.

– Um pobre vaqueiro solitário que retorna à sua casa, que é a maravilha.

*

Fazer surgir as novas sensações – subverter a cotidianidade.

O.K.

LARGUEM TUDO NOVAMENTE

LANCEM-SE PELOS CAMINHOS.


Roberto Bolaño, México, 1976.

Fonte: http://manifiestos.infrarrealismo.com/primermanifiesto.html

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Responses

  1. […] This post was mentioned on Twitter by eduardo sterzi, Lucas de Sena Lima. Lucas de Sena Lima said: Primeiro Maniesto Infrarrealista http://wp.me/pQH0N-1Z […]


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