Publicado por: estrelaselvagem | 15 de Julho de 2011

Em literatura é quase impossível manter-se a salvo

Em literatura é quase impossível manter-se a salvo

Por Sebastián Noejovich
Revista Lea. Buenos Aires, Argentina. Nº13 – maio de 2001, pág. 44.

O escritor chileno Roberto Bolaño (1953) é hoje uma das figuras mais atrativas das letras latinoamericanas. Em Noturno do Chile, aborda a extraordinária vida de um padre da Opus Dei que se torna crítico literário. A partir disto, propõe uma aproximação paródica com o passado recente de seu país. No povoado catalão de Blanes, onde atualmente reside, ele conversou com Lea sobre seu novo romance.

Suas ficções em geral desenvolvem como espaço narrativo o mundo literário de algumas de nossas cidades latinoamericanas. O que você encontra nesses ambientes que tanto te entusiasma?

O que gosto é de observar a relação que se estabelece entre os homens e seus trabalhos, o que aparentemente carece de mistérios, mas que resulta determinante na hora de se achar um destino, entre outras coisas porque quase sempre a pessoa se equivoca ao eleger um trabalho ou reconhecer uma vocação. Neste sentido, às vezes escolho a literatura como fundo laboral de alguns de meus personagens por uma razão muito simples: porque a conheço. Mas se eu fosse um açougueiro, por exemplo, a decoração de fundo seria a dos açougues, os matadouros, os caminhões frigoríficos. Talvez eu devesse fazê-lo. Não cairia mal um romance de matadores, estripadores, escaupeladores.

O tom sempre paródico com o qual você cerca esses âmbitos literários não será uma forma de suplício, uma maneira de manter-se a salvo dessa grandiloquência e gravidade que é tão característica de alguns “homens das letras”?

Creio que, no fundo, a paródia somente disfarça o desejo enorme de se pôr a chorar. E sobre manter-se a salvo do que seja, não sei o que te dizer, na literatura é quase impossível manter-se a salvo. Tudo é mancha. Suponho que há romancistas que acham o contrário. Deus lhes conserve sua candura (ou sua estupidez) por muito tempo.

Camuflados por esta intenção paródica costumam aparecer, como de contrabando, dados ou anedotas surpreendentemente reais relacionadas com este âmbito: no caso de Noturno do Chile, os saraus literários que se realizavam em uma casa na periferia de Santiago que servia, paralelamente e de forma sub-reptícia, como centro clandestino de interrogatórios durante a ditadura de Pinochet. De onde vem essa predileção sua pelos elementos quase bizarros da história?

Porque isto também é história. O encontro casual de uma chuva de datas e um desfile monstruoso de feitos monstruosos. A história como registro psiquiátrico. Ou como quebra-cabeças, teria dito Perec. Em qualquer caso, como um enigma no que há que se internar e onde há que se tentar manter a lucidez, que neste caso quer dizer que há que se tentar ser valente, algo que resulta tão incômodo, tão inútil nestes tempos e onde o mais normal é ser razoavelmente covarde e fugir como uma alma que o diabo leva de qualquer vislumbre de pesadelo que perturba o grande pesadelo plácido no qual estamos todos bem ou mal instalados.

Deu muito trabalho construir em Noturno do Chile a voz de seu único e estranho narrador, o cura da Opus Dei, Urrutia Lacroix, que além de ter veleidades de poeta decidiu converter-se em crítico literário? Você teve, nesse sentido, algum modelo?

Não, nenhum problema. O Chile é generoso nesta classe de personagens, algo que talvez na Argentina ou no México pareça excepcional, ou estranho ou caricaturesco, porque há algo ali que se pode chamar “tradição literária”, coisa que no Chile não ocorre. Os modelos da canalha literária abundam no meu país. Não quero dizer com isto que tenhamos exclusivamente a canalha literária, o do ridículo mais espantoso e patético, mas digamos que somos autossuficientes no consumo interno e que inclusive poderíamos começar a exportar algo.

A que escritores de sua geração você se sente hoje em dia mais afinado?

A muitos, ainda que não saiba com certeza qual é minha geração. Costumo ver Rodrigo Fresán quando vou a Barcelona, com quem posso conversar de Melville, ou Philip K. Dick. Gosto da afeição que Fresán tem pelos paradoxos e pelos encontros azarados e pelas resoluções imaginárias. Também mentenho compridas conversas telefônicas com Javier Cercas sobre Borges e o Quixote, e costumamos rir juntos e discutir sobre os assuntos mais peregrinos. Sinto um grande carinho por Rodrigo Rey Rosa, o escrito guatemalteco, que sempre está viajando e, suponho, expondo-se constantemente a perigos. Gosto de pensar que Rey Rosa é irredutível. Ainda que, claro, ninguém é irredutível totalemente. Creio que na minha geração há alguns escritores muito bons. Entre a Espanha e a América Latina uns 12 ou 13.

* * *

Título: Noturno do Chile
Autor: Roberto Bolaño
Editorial: Anagrama. 150 págs.
Sebastián Urrutia Lacroix é um padre da Opus Dei que um belo dia decide se tornar crítico literário. Tendo como padrinho Farewell, se mistura então ao ambiente intelectual de Santiago e vive distintas aventuras, que evoca a partir de sua aparente agonia.

Fonte: http://www.letras.s5.com/rb260505.htm

Tradução de Lucas de Sena Lima

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