Publicado por: lucadisena | 13 de Dezembro de 2011

Bolaño volta à carga com “Putas Assassinas”

Bolaño volta à carga com “Putas Assassinas”

Javier Aspurúa

Um poeta herbívoro e suicida, um narcotraficante ilustrado, um ex-futebolista africano e outro chileno e uns quantos fantasmas protagonizam os contos que o autor de Os Detetives Selvagens lança agora.

“Não esperem nada pornográfico”, avisa de cara Roberto Bolaño, para evitar ansiedades enganosas a respeito do título de seu novo livro, Putas Assassinas. Editado pela Anagrama, o volume – que dará entrada por esses dias nas livrarias espanholas, e chegará no fim do mês às chilenas – consta de treze contos e marca o retorno de Bolaño ao conto, gênero em que tinha entregue – em 1997 – um espécime magnífico, Llamadas Telefónicas.

Enquanto isso, como se sabe, entregou diversos livros de poemas e romances – entre elas, a mais do que premiada Os Detetives Selvagens –, e agora está embarcando numa narrativa monumental que poderia vir a superar as mil páginas. A expressão “putas assassinas”, esclarece o escritor chileno radicado na Espanha, corresponde a um comentário feito em algum trecho do conto que dá nome ao livro (um conto “feminista e violento”, segundo Bolaño), e pronto.

Nos outros contos circulam personagens tão díspares quanto um ex-futebolista africano e outro chileno que foram companheiros no Barcelona, o poeta Enrique Lihn, um fotógrafo homossexual – el Ojo Silva – cara a cara com a prostituição infantil na Índia, um narcotraficante colombiano extremamente ilustrado, um poeta herbívoro que se suicida após a morte de sua mãe, outro suicida, alguns fantasmas e, como não podia faltar, Arturo Belano, o alter ego de Bolaño, que já apareceu em vários livros do autor.

Putas e assassinas. No geral, o sexo é uma entrada ou uma saída?

Tenho a impressão de que é uma entrada; pelo menos depois dos 25 anos é uma entrada. O ruim é que é uma entrada a zonas onde se põem em funcionamento outros fatores, outras emoções, quase todas negativas, como a posse ou os ciúmes ou a uniformização. As pessoas, ao falar de sexo, ficam idiotas. Talvez sempre tenha sido, mas o sexo, o monólogo sexual ou o diálogo sexual, para não falar da relação sexual, as torna ainda mais idiotas e se limita a balbuciar uma série de ideias pré-concebidas, ideias cujo fundo difere em nada do antigo Deus, Rei e Pátria, que, como todos suspeitam (mas não falam), significa Medo, Amo e Jaula.

Que perrengue específico uma puta deve padecer para virar uma assassina?

Não sei, mas sinto muito respeito pelas putas. Trabalhadoras esforçadas como ninguém, e também, com algumas exceções, um grande respeito pelas assassinas.

Como em quase todos os seus livros, em “Putas Asesinas” aparecem muitos personagens chilenos nos lugares mais inverossímeis do mundo. Quando você os encontra em carne e osso, você acha uma coisa terrível, se entusiasma ou fica indiferente?

Os chilenos, como os chineses ou como os norte-americanos ou como os espanhóis, me são totalmente indiferentes, quando não profundamente desagradáveis, como, por exemplo, os funcionários de embaixadas ou essas histéricas que fingem, com uma vontade digna de causa melhor, ser adidos culturais.

O protagonista de um dos seus contos é descrito como “estoico e amável”, um “exemplar de chileno que nunca foi muito abundante no Chile”. Por causa dessa escassez foi que você deixou de vir ao Chile?

Claro que não. Na verdade, minha saúde não me permite fazer viagens longas demais. E quando não é a minha saúde é o meu trabalho. E quando não é o meu trabalho é a minha religião.

Mas pelo menos deve ter lido algo do que se publicou aqui ultimamente.

Minha religião não me permite.

O que você achou da polêmica sobre o lesbianismo de Gabriela Mistral?

Confirma mais uma vez o que todo mundo sabe ou deveria saber: que a esquerda e a direita têm a mesma política em matéria de sexo, assim como têm a mesma política em matéria de cultura, e de economia e de educação e em muitas outras coisas. E também me faz me perguntar em que sessão espírita do Kremlin o fantasma de Gabriela Mistral apareceu a Volodia Teitelboim para designá-lo testamenteiro de suas preferências eróticas.

E você acha que o tempo da Gabriela Mistral está passando?

Eu acho que Gabriela Mistral era uma extraterrestre e, portanto, não tinha nem as nossas necessidades nem os nossos desejos (e acrescentaria que também não tem o talento literário que lhe atribuem com uma facilidade espantosa). Era uma mera extraterrestre extraviada no Chile, na América Latina, que não conseguia se comunicar com a nave mãe para que viessem resgatá-la. E, lógico, sua vida se assemelhou a um pesadelo em algum momento. Suas peregrinações (como costumam dizer os vulgares estudiosos da sua obra) não passam de tentativas de encontrar outros náufragos do seu planeta.

Em Putas Assassinas, em alguns contos aparecem personagens suicidas. Considera atrativo o mistério que todo suicida deixa? Ou o suicídio é um ato de impaciência puro e simples.

É verdade que todo suicida deixa um ou dois mistérios atrás de si, mas também é verdade que deixa, inevitavelmente, quatro ou cinco respostas, o que costumamos temer nos suicidas não é o mistério, quero dizer, as perguntas que essas mortes propõem, senão as respostas que essas mortes põem diante de nós e para as quais, automaticamente, fechamos os olhos. Sobre se o suicídio é um ato de impaciência, não sei, acho que não. Em primeiro lugar (e o bom do suicídio é que não há um segundo lugar), é um ato de liberdade.

No seu livro há um conto sobre futebol. Você teve alguma experiência como jogador?

Minha experiência como jogador de futebol nunca foi totalmente compreendida nem pelos espectadores nem pelos meus companheiros de time. Eu sempre achei mais interessante marcar um gol contra do que um gol. Um gol, a não ser que o sujeito se chame Pelé ou Didi ou Garrincha, é algo eminentemente vulgar e de muito má-educação com o goleiro adversário, que você não conhece e que não te fez nada, enquanto um gol contra é um gesto de independência. Você deixa claro para os seus companheiros e para o público que o seu jogo é outro.

O futebol é uma entrada ou uma saída?

É um circo.

* * *

Em Las Últimas Noticias, terça-feira, 4 de setembro de 2001.

http://www.letras.s5.com/bolano1210.htm

Tradução de Hugo Crema


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Responses

  1. quer me comer bem gostoso? facebook: Acsa Andreezaah


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