Publicado por: estrelaselvagem | 28 de Fevereiro de 2012

Roberto Bolaño, presente e infinito

Roberto Bolaño, presente e infinito

por Alberto Ojeda

El Cultural.es 23.11.2010


El Cultural senta Jorge Herralde, Ignacio Echevarría, Rubén Medina, Patricio Pron e Alejandro Zambra numa mesma mesa para dissecar sua poliédrica figura.


Na prospecção das infinitas camadas de que se compõem a obra de Bolaño, é possível que estejamos ainda escavando a superfície. Assim acredita, por exemplo, Alejandro Zambra: “Bolaño é infinito; estamos muito longe de esgotá-lo”. O escritor chileno fala em uma mesa redonda organizada por ElCultural.es para dissecar a figura do incomensurável autor de 2666. A ocasião coroa a Semana de Autor, celebrada durante esta semana na Casa de América (local também desta conversa de muitas vozes), e que este ano se concentra exclusivamente nele. Com Zambra, tomam lugar também o editor Jorge Herralde, o crítico Ignacio Echevarría, o poeta e professor mexicano Rubén Medina e o escritor argentino Patricio Pron.

Para radiografar Bolaño, nunca é demais começar pela pessoa além do escritor, embora, como adverte no começo Pron, “seja a parte menos interessante de Bolaño”. Não cabe colocá-lo em dúvida, até porque não lhe falta razão: o mais interessante dos escritores, por mais que alguns se alegrem mergulhando em suas biografias, costuma estar nos papeis que mancharam com suas canetas, em suas máquinas de escrever ou em seus computadores. Mas a mitomania que está inflando sua imagem borrou os contornos da pessoa para convertê-la em ícone, e frente a este fenômeno, convém escutar aos que estiveram com ele cara a cara e com certa habitualidade.

“Generoso e Cruel”

Todos coincidem em dois adjetivos: “generoso” e “cruel”. Generoso na hora de prestar apoio a jovens escritores que lutavam por se fazer escutar. E cruel ao atacar a todos os que tivessem se aboletado no cume da pirâmide do prestígio literário. “Era muito divertido e um excelente e incansável conversador. A prova é que quando o entrevistavam e faziam várias vezes uma mesma pergunta, ele sempre conseguia responder sem se repetir. E também tinha conhecimento enciclopédico de tudo: de poesia francesa, de programas de televisão, de escalações do Barça”, explica Ignacio Echevarría, homem a quem Bolaño confiou a administração de seu legado literário após sua morte.

Herralde reforça aquilo de grande conversador: “Cada vez que se aproximava da editora para me contar seus projetos, fazia um tour por todos os departamentos que durava horas. Depois entrava no meu escritório e nós jogávamos campeonatos de maldades literárias”. Se as paredes desse escritório falassem…

A literatura: o único vício

Nessa deformação da figura de Bolaño, existe um assunto especialmente tenebroso: seu suposto vício em heroína e em outras substâncias. É um rumor em voz baixa que se levou muito em consideração nos Estados Unidos. Nesse país, Bolaño foi acolhido como um escritor marginalizado, indisposto com seus contemporâneos, pobre, viciado em drogas e obsessivo em sua dedicação à literatura. Rubén Medina, companheiro de presepadas infrarrealistas no México, quando os dois eram jovens e pretendiam subverter estamentos literários, nega com tranquilidade: “Ele, quando visitávamos o poeta da vez, estava muito mais interessado em aprender e em fazer perguntas que poderiam depois ser úteis ao escrever do que nos licores. Era muito moderado: tomava uma cerveja no tempo em que os outros já tínhamos tomado várias tequilas”. Jorge Herralde aponta a origem do falatório em um de seus contos, que tem como protagonista um viciado em heroína e que muitos acreditaram ser biográfico, mas que o próprio Bolaño negou que fosse.

“Me parece muito difícil acreditar nisso”, complementa Pron, “porque ele sempre dizia para eu me cuidar, não abusar do álcool e comer muitas frutas e verduras” [risos na sala]. Pron explica que Bolaño dava esses conselhos para que ele roubasse tempo à morte e pudesse escrever mais livros. Bolaño também aplicava essa receita a si mesmo, com o desespero de saber que a morte o esperava na volta da esquina, mas impôs a si mesmo finalizar sua obra magna, 2666, um romance de mais de mil páginas. “Seu compromisso com a literatura”, continua, “era total”. A não ser da própria sobrevivência, estava acima de tudo. “Escrever era um fim em si mesmo, não um meio de obter benefícios políticos nem de ascender socialmente”, conclui Pron, que entrevistou Bolaño na Universidade de Göttingen quando ele andava de turnê pela Alemanha e depois manteve com ele uma intensa correspondência digital. “Os dias em que tinha mensagem dele eram mais felizes”.

A conversão de Bolaño em um “fetiche pop”, como adverte Ignacio Echeverría, é um risco que corre o escritor morto prematuramente e alçado ao altares da literatura de forma quase unânime. Nas ruas de algumas cidades, como Santiago do Chile ou Barcelona, se veem grafites com sua cara pintada. Mas o autor de Os detetives selvagens tem o antídoto mais eficaz contra esse processo de banalização: sua própria obra. “Sua essência é múltipla. Não criou um universo fechado, como a Macondo de García Marquez, ele abre portas e portas, por isso não dá para reduzir nem simplificar, é impossível”. Está dito: Bolaño é um autor infinito.

In: http://garciamadero.blogspot.com/2011/08/roberto-bolano-presente-e-infinito.html

Tradução de Hugo Crema


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Responses

  1. […] mais uma coisa sobre Bolaño pro Estrela Selvagem. lml. Gostar disso:GostoSeja o primeiro a gostar disso […]

  2. obrigado.


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