Publicado por: estrelaselvagem | 4 de Maio de 2012

Sempre quis ser um escritor político

Sempre quis ser um escritor político

 

Roberto Bolaño tinha 43 anos quando publicou seu primeiro romance. A crítica espanhola se rendeu incondicionalmente à força estranha de La Literatura Nazi en América (1996), e desde então o nome do autor não deixou de reverberar num sistema de ecos que se resumem na palavra consagração. A euforia poderia parecer excessiva se Bolaño não tivesse se encarregado de responder a provocação de cada elogio com livros cada vez mais ousados e mais sólidos.

Em 1999 publicou Tres (poemas) e seu romance Os Detetives Selvagens levou os prêmios Herralde e Rómulo Gallegos. No ano 2000, o escrito chileno voltou a se iluminar, com Noturno do Chile, e sua narrativa este ano se encerra com a aparição de Putas Assassinas, recém editado pela Anagrama.

Na sua casa em Blanes, uma cidadezinha da Costa Brava, a uma hora de trem de Barcelona, o autor de Chamadas Telefônicas levanta o bocal, escuta, faz silêncio e logo diz que prefere evitar conversas “ao vivo e a cores, nas quais me arrisco a dizer idiotices demais”. Realizar a entrevista por correio eletrônico aparece como saída natural. É tarde, caímos na armadilha de um interlocutor tão lúcido quanto escorregadio, mestre em desmontar as perguntas intrincadas ou pretensiosas demais. Vejamos.

Em Putas Assassinas nos deparamos de novo com a sua própria vida. Nesse trabalho com a autobiografia há uma tentativa de diálogo com o seu destino?

Nunca planejei “trabalhar” com a minha autobiografia. Viver sem trabalhar é algo que para mim parece com a felicidade. De maneira que eu procuro evitar esse e qualquer esforço. Não trabalhar com a minha autobiografia (a palavra autobiografia me dá arrepios), não trabalhar com a escrita, não lavar os pratos, deixar meus filhos fazerem o que quiserem e ficar sentado na frente da tevê assistindo programas de porcaria e resmungando ou rindo. Acho, por outro lado, que as únicas autobiografias interessantes, na verdade as únicas biografias interessantes, são as dos grandes policiais ou a dos grandes assassinos (estas últimas, claro, publicadas com pseudônimo ou anonimamente, ou publicadas post-mortem), porque de alguma maneira quebram esse molde deprimente e real de que o destino dos seres humanos é respirar e um dia parar de fazer isso. O policial e o detetive parecem alheios a essa mecânica. Nas biografias ou autobiografias deles sempre há outra coisa: uma proposta, um jogo, uma palavra cruzada que diz se aproxime do espelho e olhe.

Seu livro novo incorpora elementos inéditos a isso que a crítica já chama de “planeta Bolaño”?

Não não, lamentavelmente tem muito pouca coisa inédita. Na realidade, nenhuma. Já disse Borges, que Wojtyla deveria santificar antes de ser, por sua vez, santificado, desde os gregos os assuntos, pelo menos no Ocidente, são quatro, com sorte cinco. O planeta Bolaño parece muito divertido. Mas não é um planeta. Só um meteorito e além do mais bem inofensivo, desses que caem na Terra e ninguém percebe que caíram a não ser que perfurem o crânio de uma vaca, e aí é o dono da vaca que percebe.

Um pedaço do inferno

Bolaño nasceu em 1953 em Santiago do Chile. Aos quinze anos se mudou para o México, onde viveu de jornalismo e começou a escrever poesia. Desde 1977 mora na Espanha. Tanto por suas declarações quanto por seus livros, nos quais propõe um eterno ajuste de contas com seu país natal, suas relações com o ambiente literário do Chile sempre foram no mínimo tensas. Mais de uma vez Bolaño já se referiu à literatura chilena como entelequia, como um planeta vazio que gira em torno de um sol morto chamado Neruda.

*

O que o Chile representa para você? Parece que seu país se tornou um lugar que você só se interessa em visitar na escrita, e nisso só para apontar zonas obscuras, esse pedaço de inferno que persiste lá.

Bom, o pedaço chileno de inferno é a minha infância e a minha adolescência. E depois o golpe de estado. Mas eu gosto da comida chilena. Não sei se você provou: é uma culinária bem boa. As empanadas, o bolo de milho, as humitas, a caçarola chilena, os mariscos, que talvez sejam os melhores que já comi na vida, esse molho que ali eles chamam de pebre e que é muito simples mas também muito eficaz, o charquicán, que é um prato que vem de antes da Guerra da Independência e que dizem que era o prato preferido de Manuel Rodríguez.

Quando Noturno do Chile foi publicado, você afirmou que se ainda estivesse morando no seu país natal, ninguém teria te perdoado por esse romance…

Suponho que haja pessoas para as quais literatura não seja questão de perdoar ou não perdoar. À direita chilena, pacata e clerical, não acho que tenha sentado muito bem Noturno do Chile.

No conto “Dias de 1978”, o personagem narra o filme Andrei Rublev, de Tarkovski. Te interessa que esse tipo de metáfora oculta funcione como chave?

Não sei se foi Borges quem disse. Talvez tenha sido Platão. Ou talvez Georges Perec. Toda história remete a outra história que por sua vez remete a outra história que por sua vez remete a outra história. Há histórias que são os entes protetores de uma história, há histórias que são as chaves de uma história e histórias que nos levam à beira do vazio e nos obrigam a nos fazermos as grandes perguntas. Eu só conheço uma das perguntas. Como construir uma ponte? E ainda por cima ignoro a resposta.

Nos seus contos há uma violência que nunca termina de se desdobrar, como se estivesse disseminada pelo texto, mas cuja manifestação plena fica depois do ponto final, fora da página…

É que isso é que é o pior da violência. Uma presença que se aproxima. Depois não há violência. Há dor, há humilhação, há coragem ou há morte ou tudo junto, inclusive em algumas ocasiões há liberação, mas não mais a violência.

Seus textos falam frequentemente desse “Vietnã secreto que durante muito tempo foi a América Latina”, com o que sua literatura ganha um matiz político.

Sempre quis ser um escritor político, de esquerda, que fique claro, mas os escritores políticos da esquerda me pareciam infames. Se eu tivesse sido Robespierre, ou não, melhor Danton, numa dessas os enviava para a guilhotina. A América Latina, dentre muitas desgraças, também contou com um time de escritores de esquerda verdadeiramente miseráveis. Quero dizer, miseráveis como escritores. E hoje em dia tendo a pensar que também foram miseráveis como homens. E provavelmente miseráveis como amantes e como maridos ou pais. Uma desgraça. Pedaços de merda aspergidos pelo destino para testar nossa temperança, suponho, porque se pudéssemos viver e resistir a esses livro, com certeza seríamos capazes de resistir a tudo. Enfim, não vamos exagerar. O século 20 foi pródigo em escritores mais que maus, perversos.

No geral, há também uma espécie de erotismo fétido, uma compreensão do sexo pela qual ele quase nunca aparece como festa dos corpos ou gozo mas sim como sujeira ou elemento escuro…

Não acredito nisso. Para azar meu, minha natureza tende ao apolíneo, não ao dionisíaco. E digo com sinceridade, para azar meu, para azar meu.

Apesar das viagens e das mudanças de cenários, há um não sei que de claustrofóbico nestes contos. Talvez pelo ir e vir permanente entre ridículo e desolação, ou talvez porque os personagens suicidas dão ao conjunto uma sensação de beco sem saída?

Desacredito por princípio nos becos sem saída. Não existem becos sem saída. O suicídio é uma saída. E, aliás, uma saída muito civilizada, se bem extrema. O assassino em massa ou o assassino em série ou o assassino passional configuram basicamente um problema de saúde pública. A única coisa que um suicida, seja discreto ou não, configura são umas poucas (mas interessantes) perguntas, e em alguns casos até alguma resposta. O problema é que muito pouca gente sabe ler a escritura dos suicidas e, pelo contrário, muita gente está convencida, entusiasticamente convencida, de que conhece a escritura dos assassinos. Eu gostaria de morar em outro planeta. Mas aguento as pontas.

Mais de uma vez, você afirmou que vem da poesia. Bolaño é no fundo um poeta e um narrador a despeito de si mesmo?

Não sei se a despeito de mim mesmo. Se eu pudesse ter escolhido, provavelmente agora seria um cavaleiro rural belga, de saúde de ferro, solteirão, assíduo dos bordéis de Bruxelas (onde estão as mulheres mais belas da Europa), leitor de romances policiais e que desperdiçaria, com senso comum, uma riqueza acumulada durante gerações. Mas sou chileno, de classe média baixa e vida bastante nômade, e provavelmente a única coisa que eu poderia ter feito era virar escritor, chegar como escritor e principalmente como leitor a uma ordem de cavalaria que eu acreditava cheia de jovens, digamos, temerários, e na qual finalmente, aos 48 anos, me vejo sozinho. Mas estas palavras não são mais que retórica. Meus livros estão lá e eu estou aqui e aqui o mais importante, muito mais importante que a literatura, são meus filhos, meu filho Lautaro, de 11 anos, e minha filha Alexandra, de 8 meses.

Você acredita em que pode acontecer um novo boom da literatura latinoamericana?

Minha religião não me permite responder essa pergunta.

Bem, mas qual é a sua opinião de quando o suplemento Babelia afirma que a “nova literatura do Cone Sul” substitui “a fantasia lírica do realismo mágico por um surrealismo muito mais subversivo, atraído por uma imagética do grotesco?

Eu não posso endossar essa definição de jeito nenhum. A imagética surrealista está tão difundida quanto a televisão. Uma das coisas que eu aprecio na Patricia Highsmith, quem estou relendo por esses dias com um tremendo prazer, é a aparente falta de imagética lírica, de realismo mágico, de fantasia surreal. Para o Natal, nada melhor que uma literatura objetiva, embora Highsmith não seja tão objetiva assim. Também não dá para dizer que o grotesco seja um dos sinais distintivos em relação à narrativa do boom. Onetti, Donoso, o próprio García Marquez, aprofundaram o grotesco como nenhum escritor da minha geração chegou a fazer. Na verdade, a obra desses escritores, digamos, de Borges a Puig e Arenas, é extremamente sólida e rica. Existem muitos poucos romancistas atuais que possuam a ambição de Fernando del Paso, por exemplo, ou o humor e a exatidão de Cortázar. No fim, veremos. Por outro lado, em uma geração cabem escritores de 25 anos e também de 50. Suponho que mais adiante no século 21 já se poderá fazer um balanço, quando a maioria de nós já estiver morta, e se poderá ver se a nossa literatura valeu ou não valeu a pena.

“Pablo Neruda foi o grande poeta enganado”

Frequentemente, as ficções de Bolaño nos permitem adentrar o mundo de suas devoções literárias, e até imaginar quais são os livros que ele já teve e que hoje não suportaria em sua biblioteca.

*

Em Putas Assasinas, quem leva os louros da sua ironia é Neruda. Ele te desagrada como poeta em geral ou o seu mal estar tem mais a ver com a influência dele no sistema literário chileno?

Eu, como digo nesse continho, gosto bastante de Neruda. Um grande poeta americano. Muito enganado, por outro lado, claro, como quase todos os poetas. Não era o sucessor de Whitman, em muitos de seus poemas, na estrutura desses poemas, só conseguimos ver agora um plagiador de Whitman. Mas a literatura é assim, uma selva meio que de pesadelo onde a grande maioria, a imensa maioria dos escritores são plagiadores. Há alguns jovens com voz própria, mas não sabem escrever, o que é um desastre. Aí esses jovens vão a oficinas literárias e quando aprendem a escrever já não têm voz própria. Enfim, que que se pode fazer? Neruda, em algum momento da sua vida, achou que era o paradigma do poeta, e se enganou. Mas a verdade é que todos os poetas, em algum momento de suas vidas, se acham a morte.

Em: http://archivo.lavoz.com.ar/2001/1226/suplementos/cultura/nota73286_1.htm

Tradução de Hugo Crema

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  1. […] mais uma entrevista do bolaño, aqui. lml. Gostar disso:GostoSeja o primeiro a gostar disso […]


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