Publicado por: estrelaselvagem | 27 de Junho de 2012

O último romance de Javier Cercas

O último romance de Javier Cercas

Quarta-feira, 18 de abril de 2001

Chama-se Soldados de Salamina [Espanha — Tusquets, 2001; Brasil — Biblioteca Azul, 2012] e o narrador é um tal Javier Cercas que evidentemente não é o Javier Cercas que eu conheço e com o qual costumo ter longas conversas sobre os temas mais peregrinos do mundo.

Aquele que conheço está casado, tem um filho, seu pai ainda está vivo. Ao contrário, o narrador de Soldados de Salamina apresenta a si mesmo, desde as primeiras linhas do romance, desta forma: “Três importantes acontecimentos tinham então acabado de se produzir em minha vida: meu pai havia morrido, minha mulher me abandonara e eu abandonara minha carreira de escritor”. As três asseverações são falsas, ou melhor dizendo, neste cruzamento de possibilidades que para maior comodidade chamamos realidade, são falsas, ainda que provavelmente em outra disposição da realidade, ou do pesadelo, sejam verdadeiras.

Este Cercas hipotético prepara uma reportagem sobre o escritor Sánchez Mazas, personagem perfeitamente real e que foi um dos fundadores do fascismo espanhol. Tudo que se conta sobre Sánchez Mazas no romance se cinge irrestritamente (ainda que com Cercas nada é irrestrito) à realidade histórica: a juventude de Sánchez Mazas no romance, seus livros, seus amigos, sua atividade política, suas desgraças. Logo chega a guerra civil e o escritor fascista é encarcerado na zona republicana.

O estopim do romance acontece ao final da guerra e hoje talvez possa parecer-nos uma anedota singular (ou não), mas naqueles tempos era uma prática usual e feroz: Sánchez Mazas e um grupo de prisionairos nacionais são levados a uma pequena localidade catalã e fusilados. Todos morrem, menos Sánchez Mazas, que escapa e que é perseguido sem muito entusiasmo. Em um determinado momento, um dos soldados que o perseguem o encontra, oculto atrás dos matagais. O chefe da tropa pergunta se há algo ali. O soldado republicano observa Sánchez Mazas, olha-o nos olhos e diz que ali não há ninguém. Logo dá a volta e marcha.

A segunda parte do romance conta a história de Sánchez Mazas (que para minha alegria não fez nada de bom exceto dar origem a Sánchez Ferlosio, um dos melhores prosadores espanhóis do século XX) e o interminável desencanto intelectual que nunca se traduziu em desencanto vital de muitos dos falangistas espanhóis.

A terceira parte se concentra no desconhecido soldado republicano que salvou a vida de Sánchez Mazas e aqui aparece um personagem novo, um tal Bolaño, que é escritor e chileno e vive em Blanes, mas que não sou eu, da mesma maneira que o Cercas narrador não é Cercas, ainda que ambos são possíveis e inclusive são prováveis.

Através deste Bolaño o leitor tem acesso à história de Miralles, que passou de soldado em retirada pelo lugar no qual assassinaram os falangistas e tentaram assassinar Sánchez Mazas, e que logo cruzou a fronteira da França e esteve uma temporada num campo de concentração nos arredores de Argeles, e que se alistou, para sair do campo, na Legião Estrangeira Francesa, e que após a derrota da França em 1940 seguiu o general Leclerc na marcha prodigiosa do Magreb até o Chade e que participou de várias batalhas contra os italianos e o Afrika Korps, e que logo, enquadrado na 2ª Divisão blindada francesa, lutou na batalha da Normandia e entrou em Paris e logo combateu na zona de Estrasburgo até que uma mina, já em território alemão, o retirou definitivamente da guerra.

A busca deste Mirales, a quem Bolaño visitou durante três verões em um camping próximo a Barcelona, converte-se na chave do romance. É evidente, Cercas não sabe (seu amigo tampouco) se Mirales estará vivo ou não. Somente sabe que vivia em Dijon, que havia adquirido a nacionalidade francesa e que naquele momento devia ter mais de oitenta anos ou estar morto. A terceira parte do romance é a busca de Mirales, a quem Cercas só quer fazer uma pergunta, na suposição de que aquele seja o soldado que não quis matar Sánchez Mazas: por quê?

Com este romance, saudado com entusiasmo pela crítica e cuja tradução ao francês e ao italiano se concretizou dias antes de que aparecesse nas livrarias espanholas, Javier Cercas se coloca no reduzido grupo de proa da narrativa espanhola. Seu romance joga com o hibridismo, com o relato real (que o mesmo Cercas inventou), com o romance histórico, com a narrativa hiperobjetiva, sem importar-se em trair cada vez que lhe convém estes mesmos pressupostos genéricos para deslizar-se sem nenhum rubor à poesia, à épica, aonde seja, mas sempre adiante.

*

Texto originalmente publicado no livro Entre Paréntesis.

Encontrado em: http://sololiteratura.com/bol/bolanosobresoldados.htm

Tradução de Lucas de Sena Lima

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