Publicado por: estrelaselvagem | 13 de Julho de 2012

Um narrador em sua intimidade

Um narrador em sua intimidade

Clarín, 25.03.2001

Neste texto exclusivo, o escritor chileno mostra os segredos de sua escritura com humor cortante. Um tom irreverente que volta a aparecer em Noturno do Chile, seu romance mais recente publicado pela Anagrama.

por Roberto Bolaño

Minha cozinha literária é, frequentemente, uma sala vazia onde nem sequer há janelas. Eu gostaria, é claro, que houvesse algo, uma lâmpada, alguns livros, um ligeiro aroma de coragem, porém a verdade é que não há nada.

Às vezes, no entanto, quando sou vítima de incontroláveis ataques de otimismo (que acabam, por sua vez, em alergias espantosas), minha cozinha literária se transforma em um castelo medieval (com cozinha) ou em um apartamento em Nova Iorque (com cozinha e vista privilegiada) ou em uma cabana nas montanhas (sem cozinha, porém com uma fogueira). Metido nestes transes geralmente faço o que faz qualquer um: perco o equilíbrio e penso que sou imortal. Não quero dizer imortal literariamente falando, pois assim só um imbecil pode pensar e a tanto não chego, e sim literalmente imortal, como os cães e as crianças e os bons cidadãos que ainda não ficaram doentes. Por sorte ou por desgraça, todo ataque de otimismo tem um princípio e um final. Se não tivesse fim, o ataque de otimismo se converteria em vocação política. Ou em mensagem religiosa. E daí a sepultar livros (prefiro não dizer “queimá-los” porque seria exagerar) há apenas um passo. O certo é que, ao menos no meu caso, os ataques de otimismo acabam, e com eles se acaba a cozinha literária, se desvanece no ar a cozinha literária, e só fico eu, convalescente, e um suave aroma de panelas sujas, pratos mal lavados, molhos podres.

A cozinha literária, digo a vocês, é uma questão de gosto, ou seja, é um campo em que a memória e a ética (ou a moral, se me permitem usar esta palavra) jogam um jogo cujas regras desconheço. O talento e a excelência contemplam, absortas, o jogo, porém não participam. A audácia e o valor participam, porém só em momentos pontuais, o que equivale dizer que não participam muito. O sofrimento participa, a dor participa, a morte participa, porém com a condição de que jogam rindo. Digamos, como um detalhe indesculpável, de cortesia.

Muito mais importante que a cozinha é a biblioteca literária (apesar da redundância). Uma biblioteca é muito mais confortável que uma cozinha. Uma biblioteca se assemelha a uma igreja como uma cozinha cada dia se assemelha mais a um necrotério. Ler, diz Gil de Biedma, é mais natural do que escrever. Eu acrescentaria, que pese a redundância, que também é muito mais sadio, digam o que quiserem os oftalmologistas. Na verdade, a literatura é uma longa luta de redundância em redundância, até a redundância final.

Se tivesse que escolher uma cozinha literária para instalar-me durante uma semana, escolheria a de uma escritora, com a ressalva de que esta escritora não seja chilena. Viveria com gosto na cozinha de Silvina Ocampo, na de Alejandra Pizarnik, na da romancista e poeta mexicana Carmen Boullosa, na de Simone de Beauvoir. Entre outras razões, porque são cozinhas que estão mais limpas.

Algumas noites sonho com minha cozinha literária. É enorme, como três estádios de futebol, com tetos abobadados e mesas intermináveis onde se amontoam todos os seres vivos da terra, os extintos  e os que dentro de não muito tempo se extinguirão, iluminada de forma heterodoxa, em algumas áreas com refletores antiaéreos e em outras com teias e, óbvio, não faltam zonas escuras onde somente se vislumbram sombras impacientes ou ameaçadoras, e grandes telas nas quais se observam, com o rabo do olho, filmes mudos ou exposições de fotos, e no sonho, ou no pesadelo, passeio por minha cozinha literária e às vezes acendo o fogão e me preparo um ovo frito, às vezes incluo uma torrada. E depois acordo com uma enorme sensação de cansaço.

Não sei o que se deve fazer em uma cozinha literária, porém sei o que não se deve fazer. Não se deve plagiar. O plagiário merece ser enforcado em praça pública. Quem diz isto é Swift, e Swift, como todos sabemos, tem mais razão que um santo.

Portanto este ponto é claro: não se deve plagiar, a menos que deixe que te enforquem em praça pública. Hoje em dia, contudo, não se enforcam plagiários. Pelo contrário, recebem bolsas, prêmios, cargos públicos, e, no melhor dos casos, se convertem em best-sellers e formadores de opinião. Que fim mais estranho e feio: formador de opinião. Suponho que significará o mesmo que pastor de rebanho, guia espiritual de escravos ou poeta nacional, ou pai da pátria, ou mãe da pátria, ou tio da pátria.

Em minha cozinha literária ideal vive um guerreiro, que algumas vozes (vozes sem corpo nem sombra) chamam de escritor. Este guerreiro está sempre lutando. Sabe que ao final, aconteça o que acontecer, será derrotado. Contudo, recorre à cozinha literária, que é de cimento, e enfrenta seu oponente sem dar nem pedir ajuda.

* * *

Retirado de Clarín.com.

Tradução de Thiago Candido

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: